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Naira Rodrigues Gaspar

Fonoaudióloga, mestra em ciências da saúde pela Unifesp, militante dos direitos humanos das pessoas com deficiência

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Adolescências, infâncias, deficiência e opressão: relações interseccionais

A violência estrutural e a exclusão social ampliam o sofrimento mental e moldam a experiência da deficiência entre crianças e adolescentes nas periferias

Ilustração colorida mostrando um contraste forte entre violência policial e uma cena infantil de paz em uma comunidade urbana. À esquerda, um cenário de guerra: um helicóptero preto com a palavra “POLICIA” voa baixo; um carro blindado da polícia com luzes vermelha e azul avança por uma rua destruída. Há fumaça preta e grandes chamas ao fundo, com escombros espalhados pelo chão e poças de água. Policiais armados aparecem em posição de tiro; um disparo com clarão é visível. Perto do primeiro plano, uma pessoa está caída no chão com sangue visível na roupa, enquanto outra pessoa se inclina sobre ela em desespero. Na parede da esquerda há um texto grande: “OPERAÇÃO SEM DISTINÇÃO TERRITÓRIO EM GUERRA”. À direita, a cena muda para um espaço cheio de plantas e flores, com degraus pintados e um grande mural colorido com arco-íris, flores e corações. No mural está escrito: “EDUCAÇÃO CULTURA RESPEITO FUTURO”. No alto de um prédio há uma faixa roxa com o texto: “COMUNIDADE VIVA”. Crianças aparecem em atividades tranquilas: uma criança lê sentada nos degraus; duas crianças brincam perto de uma bola de futebol; outra criança lê deitada na grama com um livro aberto. No primeiro plano, quatro crianças sentadas no chão parecem exaustas ou tristes, com a cabeça apoiada nas mãos; uma delas está em uma cadeira de rodas. Em frente a elas, um caderno aberto no chão mostra as palavras: “PAZ”, “AMOR”, “SONHOS”, “DIREITOS”, com um coração desenhado. (Foto: Gerada por IA)

Por Naira Rodrigues Gaspar e Michelle Machado

No artigo desta semana, quero falar de algo complexo que tem atravessado meu cotidiano. Ao me propor a cuidar da saúde mental de crianças e adolescentes, tenho me deparado com o atravessamento de inúmeras opressões que, quando relacionadas às interseções com raça, gênero, classe social e deficiência, aprofundam o sofrimento mental de toda uma geração que, exposta à violência nos territórios, à escassez de oferta de experiências de cultura, esporte e lazer e, ainda, a um sentimento de não pertencimento ao mundo escolar, vê suas existências ameaçadas e apagadas diante de um mundo que não os deseja, tampouco os acolhe.

Ao afirmarmos, diante do modelo social da deficiência, que as opressões sofridas por corpos e mentes com impedimentos produzem a experiência de deficiência, podemos pensar que, quanto mais exposto um sujeito está à violência, à exclusão escolar e à privação de experiências culturais e sociais, maior e mais acentuada será sua experiência de deficiência; ou seja, tal experiência acontece permeada intrinsecamente pelos contextos ambientais e sociais nos quais essas pessoas estão inseridas.

Ambientes violentos produzem mais deficiência do que ambientes de paz. Nas periferias, a paz não é uma realidade para quem vive sob a mira. A deficiência é fabricada pelo Estado que, em vez de garantir direitos, despeja munição. É a lógica do extermínio que entra nos becos em blindados, com operações que já chegam atirando e não distinguem trabalhadores de criminosos, marcando o cotidiano de crianças e adolescentes.

Nesse cenário, o luto é rotina: crianças crescem vendo o sangue de pais, irmãos e amigos manchar o asfalto, enterrando o futuro no mesmo cemitério em que o Estado enterra sua responsabilidade, enquanto o medo deixa de ser um sentimento passageiro e se torna o vizinho de parede que nunca vai embora. Não fosse pela redução das mortes e dos ferimentos produzidos por armas de fogo e pela violência do Estado, os ambientes menos violentos também acolheriam melhor as diferenças, uma vez que crianças e adolescentes circulam mais livremente nos territórios e podem vivenciar experiências saudáveis e seguras.

Enfim, disponibilizo essas reflexões com o esperançamento de quem atua na produção de saúde e sentido, para que se transforme o apagamento em vida, se acolham e se celebrem as diferenças, e se compreendam as infâncias e as adolescências multidimensionalmente, que, portanto, precisam ser percebidas pela sociedade de modo a terem garantido o seu direito à vida livre, segura e feliz.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.