Adolescências, infâncias, deficiência e opressão: relações interseccionais
A violência estrutural e a exclusão social ampliam o sofrimento mental e moldam a experiência da deficiência entre crianças e adolescentes nas periferias
Por Naira Rodrigues Gaspar e Michelle Machado
No artigo desta semana, quero falar de algo complexo que tem atravessado meu cotidiano. Ao me propor a cuidar da saúde mental de crianças e adolescentes, tenho me deparado com o atravessamento de inúmeras opressões que, quando relacionadas às interseções com raça, gênero, classe social e deficiência, aprofundam o sofrimento mental de toda uma geração que, exposta à violência nos territórios, à escassez de oferta de experiências de cultura, esporte e lazer e, ainda, a um sentimento de não pertencimento ao mundo escolar, vê suas existências ameaçadas e apagadas diante de um mundo que não os deseja, tampouco os acolhe.
Ao afirmarmos, diante do modelo social da deficiência, que as opressões sofridas por corpos e mentes com impedimentos produzem a experiência de deficiência, podemos pensar que, quanto mais exposto um sujeito está à violência, à exclusão escolar e à privação de experiências culturais e sociais, maior e mais acentuada será sua experiência de deficiência; ou seja, tal experiência acontece permeada intrinsecamente pelos contextos ambientais e sociais nos quais essas pessoas estão inseridas.
Ambientes violentos produzem mais deficiência do que ambientes de paz. Nas periferias, a paz não é uma realidade para quem vive sob a mira. A deficiência é fabricada pelo Estado que, em vez de garantir direitos, despeja munição. É a lógica do extermínio que entra nos becos em blindados, com operações que já chegam atirando e não distinguem trabalhadores de criminosos, marcando o cotidiano de crianças e adolescentes.
Nesse cenário, o luto é rotina: crianças crescem vendo o sangue de pais, irmãos e amigos manchar o asfalto, enterrando o futuro no mesmo cemitério em que o Estado enterra sua responsabilidade, enquanto o medo deixa de ser um sentimento passageiro e se torna o vizinho de parede que nunca vai embora. Não fosse pela redução das mortes e dos ferimentos produzidos por armas de fogo e pela violência do Estado, os ambientes menos violentos também acolheriam melhor as diferenças, uma vez que crianças e adolescentes circulam mais livremente nos territórios e podem vivenciar experiências saudáveis e seguras.
Enfim, disponibilizo essas reflexões com o esperançamento de quem atua na produção de saúde e sentido, para que se transforme o apagamento em vida, se acolham e se celebrem as diferenças, e se compreendam as infâncias e as adolescências multidimensionalmente, que, portanto, precisam ser percebidas pela sociedade de modo a terem garantido o seu direito à vida livre, segura e feliz.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.
