Afinal, ir ou não às ruas?

Não podemos perder o propósito nessa luta pelo direito de viver, pois recuar também faz parte da tática de guerra. Não se pode esquecer que é preciso permanecer vivo hoje para continuar lutando amanhã. Estejamos juntos, cada vez mais unidos, lutando da forma como cada um puder

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Pra variar, estamos em guerra. Isso significa ser estratégico, ter tática, saber analisar a conjuntura na hora de fazer o próximo movimento, como num jogo de xadrez. Se já estava difícil, o novo componente da pandemia do coronavírus trouxe uma complicação a mais.

As pautas na luta de classes permanecessem essencialmente as mesmas, até porque estamos num ciclo de perdas. O retrocesso que o desgoverno Bolsonaro promove em nosso país faz com que tenhamos que novamente não só lutar para resgatar direitos adquiridos nos últimos anos, especialmente nas gestões Lula e Dilma, como ter de lutar pelo direito básico de permanecer vivo. Afinal, o campo da esquerda sempre foi antifascista, porém nunca precisou realmente tomar as ruas do Brasil para combater o fascismo instaurado nas instituições nacionais.

A partir disso, criou-se um novo paradoxo. Enquanto a extrema-direita avança, com ameaça de um novo golpe de estado para a imposição de uma nova ditadura militar no Brasil, como no passado recente, acompanhamos essa movimentação atônitos e extremamente angustiados. Em meio a crises de ansiedade, o sentimento que bate é de irmos para a rua, mas será que devemos?

O “Gato de Schrödinger” é uma experiência mental, realizada pelo físico austríaco Erwin Schrödinger, em 1935. A experiência, que envolvia a interpretações da aplicação da mecânica quântica no dia-a-dia, buscava mostrar que um gato dentro de uma caixa, a partir de um evento radioativo, poderia estar tanto vivo quanto morto ao mesmo tempo. Nesse sentido, ir para as ruas nesse momento, em meio a uma pandemia, para lutar contra o fascismo pelo seu direito de viver, está certo? Está. Agora, ficar em casa, seguro, e avaliar outras formas de fazer a luta nesse momento, devido aos perigos envolvidos, estão certo? Está certo também.

O rapper Emicida, em um vídeo que viralizou, defendeu a não ida às ruas, especialmente do povo preto e da periferia, que está mais suscetível a contaminação seguida de morte pelo coronavírus, pela dificuldade no acesso à saúde pública – afinal, há um processo de desmonte na gestão Bolsonaro, que nem Ministro da Saúde em meio a uma pandemia tem - e não pode nem sonhar em ter acesso à saúde privada. É momento de ser inteligente e se proteger para não cair na armadilha e ampliar o genocídio do povo preto.

Por outro lado, Mano Brown foi ao protesto no último dia 7 de junho, no Largo da Batata em São Paulo. O rapper mais uma vez usou a sua voz para dar visibilidade a causa antirracista, reiterando a importância de, mesmo sendo vítima, utilizar os privilégios que tem para auxiliar da forma racional (com perdão pelo trocadilho) na luta.

Nem Emicida e nem Mano Brown estão errados. Errado está quem perde o foco do debate, que é a necropolítica implementada pelo desgoverno Bolsonaro, e tenta os colocar em campos opostos. Não há certo ou errado aí, apenas táticas de luta diferentes.

O risco de morte é muito grande! A esquerda até agora vem em uma campanha intensa para fazer com que as pessoas se protejam e fiquem em casa. Seria muito errado criticar quem internalizou essa necessidade, por mais justa que seja a causa e a motivação de sair, especialmente quem nas estatísticas tem mais risco de morte.

Sendo assim, não percamos o foco. É preciso continuar levantando a bandeira antifascista, nas redes e nas ruas, fazendo que for possível e como for possível hoje. É necessário continuar denunciando as atrocidades de Bolsonaro escondendo números de mortos da pandemia, como a ditadura militar fez na epidemia de meningite. É muito importante quebrar a narrativa de que o Bolsa Família foi algo distorcido e problemático para o Brasil, sendo que um terço das famílias de classes A e B pediram auxílio emergencial e 69% receberam os R$ 600, omitindo informações no cadastro, como visto em pesquisa do instituto Locomotiva. É imprescindível continuar denunciando a discrepância no tratamento das pessoas brancas, de classe alta, de direita, em relação a pessoas pobres, negras e de esquerda, pela Polícia Militar, como visto no caso da abordagem do empresário Ivan Storel, em uma denúncia de violência doméstica em Alphaville, bairro rico de Santa do Paraíba, ou até mesmo de Cristina Rocha, a mulher bolsonarista que foi escoltada com toda delicadeza durante por um PM no protesto na Avenida Paulista, para voltar ao grupo onde deveria estar, em tempos de “300 do Brasil”, de Sara Winter. Não podemos esquecer Rafael Braga, único preso remanescente dos protestos de junho de 2013, por portar uma garrafa de água sanitária. Não podemos esquecer o assassinato de George Floyd, de João Pedro, de Jordy Moura Silva, de Marielle Franco, de Anderson Gomes, Miguel Otávio da Silva, Cláudia Silva Ferreira, Pedro Gonzaga, Ana Carolina de Souza Neves, Kauê dos Santos, Luana Barbosa, Marcos Vinícius, Ágatha Felix, David Nascimento dos Santos, Evaldo dos Santos, de tantos negros e negras, de tantas vidas perdidas, de tanto sangue derramado, que é o que nos move dia após dia nessa luta.

Não podemos perder o propósito nessa luta pelo direito de viver, pois recuar também faz parte da tática de guerra. Não se pode esquecer que é preciso permanecer vivo hoje para continuar lutando amanhã. Estejamos juntos, cada vez mais unidos, lutando da forma como cada um puder.

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