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Gustavo Tapioca

Jornalista formado pela Universidade Federal da Bahia e MA pela Universidade de Wisconsin-Madison. Ex-diretor de redação do Jornal da Bahia, foi assessor de Comunicação Social da Telebrás, consultor em Comunicação do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e do (IICA/OEA). Autor de "Meninos do Rio Vermelho", publicado pela Fundação Casa de Jorge Amado.

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Afinal, quem escolherá o próximo presidente do Brasil?

Donald Trump resolveu dizer o que antes aparecia apenas como hipótese

O presidente dos EUA, Donald Trump, discursa no Rockland Community College em Suffern, Nova York, EUA, em 22 de maio de 2026 (Foto: REUTERS/Kylie Cooper)
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Ao compartilhar um artigo que trata o Brasil como a principal batalha política ainda em aberto na América Latina, o presidente dos Estados Unidos antecipa dúvidas sobre o sistema eleitoral e transforma a disputa de 2026 em tema explícito de sua estratégia continental.

O artigo compartilhado por Trump em sua rede social apresenta a eleição presidencial brasileira de 2026 como o próximo grande teste da influência da ultradireita continental na América Latina.

Não se trata de um detalhe.

Não se trata de uma simples opinião publicada em um site estrangeiro.

Trata-se de um texto escolhido, aprovado e republicado pelo homem que ocupa a Casa Branca e governa a maior potência militar do mundo.

E o que o artigo diz merece atenção.

O Brasil será o nono triunfo?

Segundo a análise compartilhada por Trump, o Brasil é hoje a principal batalha política ainda em aberto na América Latina.

O texto afirma que Trump e seus aliados acumularam oito triunfos políticos em sete anos na região e sugere que uma vitória da direita no Brasil alteraria profundamente o mapa político continental.

Em outras palavras, o Brasil aparece não como mais um país latino-americano, mas como a peça decisiva para completar a virada política continental celebrada por Trump e seus aliados.

Até aí já seria uma declaração politicamente relevante.

O trecho mais grave vem depois

O artigo afirma existir um intenso debate sobre a integridade do sistema eleitoral brasileiro e questiona se a disputa de 2026 será considerada livre e justa por todos os envolvidos.

A eleição ainda não começou.

A campanha oficial ainda não começou.

Não existe qualquer denúncia concreta de fraude sobre as urnas eletrônicas em eleições anteriores.

Mesmo assim, a suspeita já foi colocada sobre a mesa pelo presidente dos Estados Unidos.

E é justamente aí que o episódio deixa de ser apenas mais uma manifestação de preferência ideológica.

A pergunta inevitável passa a ser outra

Por que levantar dúvidas sobre a legitimidade da eleição antes mesmo de ela acontecer?

A pergunta torna-se ainda mais relevante diante da experiência recente.

Foi exatamente esse tipo de narrativa que antecedeu a contestação da eleição norte-americana de 2020 por Donald Trump e a invasão do Capitólio em 6 de janeiro de 2021, quando apoiadores do então presidente, insuflados por sua retórica, contestaram sua derrota e interromperam a sessão do Congresso que certificaria a vitória de Joe Biden.

Foi exatamente esse tipo de narrativa que alimentou os ataques sistemáticos do bolsonarismo às urnas eletrônicas.

E foi exatamente esse ambiente de desconfiança fabricada que desembocou nos ataques golpistas de 8 de janeiro de 2023.

Há um detalhe adicional que não pode ser ignorado

A tentativa bolsonarista de ruptura institucional encontrou, em 2022 e 2023, uma Casa Branca governada por Joe Biden.

Washington reconheceu rapidamente a vitória de Lula e atuou em defesa da preservação da ordem constitucional brasileira.

Em 2026, o cenário internacional será outro.

Quem ocupa a Casa Branca é Donald Trump.

O mesmo líder que se recusou a reconhecer sua derrota eleitoral em 2020.

O mesmo líder cuja retórica ajudou a produzir a invasão do Capitólio.

O mesmo líder que agora compartilha um artigo que coloca sob suspeita a eleição brasileira antes mesmo de ela acontecer.

O texto compartilhado por Trump ajuda a compreender algo maior

Não se trata apenas de Lula.

Não se trata apenas de Flávio Bolsonaro.

O artigo de John Gizzi, publicado em 22 de junho e compartilhado por Trump em sua conta oficial na Truth Social, descreve o Brasil como a potência política da região e sugere que a eleição de 2026 poderá ser a disputa mais importante do hemisfério ocidental.

Trump concorda com Gizzi quando ele descreve o Brasil como o “próximo grande teste” para a influência política da direita continental na América Latina.

O artigo afirma que a eleição brasileira será crucial para consolidar a expansão da ultradireita liderada por Trump no continente.

Ele celebra uma sequência de vitórias eleitorais da nova direita latino-americana, citando lideranças como Javier Milei, na Argentina, Daniel Noboa, no Equador, e Nayib Bukele, em El Salvador, além de outros governos e movimentos alinhados ao campo conservador continental.

Chegou a vez do Brasil

Não por acaso.

O Brasil é a maior economia da América Latina.

É membro dos BRICS.

É o principal parceiro comercial da China na região.

E ocupa posição central em qualquer projeto de reorganização geopolítica do continente.

Talvez por isso o Brasil apareça, no texto compartilhado por Trump, como um dos principais desafios ainda pendentes para a consolidação desse novo mapa político regional.

A questão, portanto, já não é apenas quem vencerá a eleição em outubro de 2026.

A questão é outra.

O que acontecerá se as urnas reelegerem Lula?

O resultado será reconhecido como expressão legítima da vontade popular?

Ou a suspeição lançada antecipadamente servirá para alimentar uma nova contestação eleitoral?

Donald Trump não compartilhou apenas um artigo.

Compartilhou um roteiro político.

E nele o Brasil aparece como a próxima batalha. 

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.