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Marcelo Uchôa

Advogado e professor de Direito

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Agradecimento pelo recebimento da Comenda Dom Helder Câmara

No dia 15, o advogado recebeu a maior comenda de direitos humanos da Câmara Municipal de Fortaleza, a Medalha Dom Helder Câmara. Leia o discurso

Marcelo Uchôa (Foto: Mateus Dantas/Câmara Municipal de Fortaleza)

Autoridades aqui presentes,

Senhoras e senhores.

“As pessoas são pesadas demais para serem levadas nos ombros, leve-as no coração”. Essa frase é de Dom Helder Câmara, que dá nome à Medalha que ora recebo.

Uma pessoa muito maior que as demais do seu tempo. Uma pessoa que teve caráter para colocar os mais pobres no centro do Evangelho, teve inteligência para ajudar a articular a Teologia da Libertação, teve atitude para fundar a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil e teve coragem para denunciar nacional e internacionalmente a ditadura militar, mesmo debaixo de ameaças explícitas. 

Dizia ele: “há pessoas que são doces como cana-de-açúcar. Que mesmo postas em moendas, reduzidas a bagaço só sabem oferecer doçura”.

Pessoas assim era o próprio Dom Helder Câmara, um cearense pernambucano tão grande que, mais dia menos dia, se tornará Santo da Igreja Católica.

Uma Medalha que carrega o nome de Dom Helder Câmara não é uma Comenda como as outras. Ela sinaliza um reconhecimento, mas aponta também responsabilidades. Enxerga valores, mas projeta compromissos. 

Compromisso com a afirmação, a proteção e a defesa dos direitos humanos sei que sempre tive, tenho e continuarei tendo, porque já me convenci, através de inúmeras provas, que essa é uma sina que carrego como norte. Mas confesso que ainda venho procurando respostas para entender se o que fiz até agora foi suficiente para justificar esta importante Medalha. 

A única razão de crer nessa hipótese, é o fato dessa proposta que partiu do vereador Ronivaldo Maia, ter recebido aprovação unanime dos integrantes da Comissão de Direitos Humanos dessa Casa, superando todos os ritos parlamentares legalmente previstos.  

Agradeço, muito sensibilizado e grato, a gentileza impagável do vereador Ronivaldo, que confiou na minha história e recomendou à Casa o meu nome para a outorga. E agradeço também, muito emocionado, à Comissão de Direitos Humanos e à Casa inteira por referendá-lo. 

Conheço o vereador Ronivaldo há muitos anos, desde o movimento estudantil secundarista. Eu presidia o grêmio do Colégio Batista quando ele já era minha liderança na UMES (União Metropolitana dos Estudantes Secundaristas). Lutamos juntos na Universidade pelo Fora Collor, eu no Direito e ele na História. Desde ali, estivemos ombro a ombro dividindo atos, protestos, passeatas, campanhas. Não duvido, as lutas políticas mais relevantes acontecidas no país, no estado do Ceará e em Fortaleza, desde àqueles longínquos pouco mais de trinta anos.

Ronivaldo compôs o governo da prefeita, hoje deputada federal, Luizianne Lins e elegeu-se vereador, sempre defendendo a luta das minorias e das maiorias vulneráveis. 

Mergulhei na minha profissão, defendendo trabalhadoras e trabalhadores, sempre afinadamente com a luta política. Tive a honra de ser o coordenador jurídico geral da primeira campanha presidencial vitoriosa de Lula, em 2002, o mesmo acontecendo na eleição exitosa da companheira Luizianne. 

Me especializei em Direito do Trabalho e, por força das minhas funções no escritório, cursei MBA em Gestão Empresarial. Fiz mestrado em Direito Constitucional, inclinando estudos para os direitos fundamentais e o sistema de Justiça. 

Iniciei o magistério na Universidade de Fortaleza, ensinando Hermenêutica Jurídica, com foco na interpretação normativa que mais favorecesse as garantias fundamentais. Me apaixonei tanto pelo tema que decidi cumprir período acadêmico na Universidade de Salamanca (na Espanha) - Estudios Superiores, Estudios Avanzados e Estudios de Grado em Direitos Humanos e Direito do Trabalho. 

Retornei à UNIFOR já entrando de cabeça no ensino do Direito Internacional Público, aprofundando acadêmica e analiticamente a compreensão da legitimidade, das razões e da necessidade do Direito Internacional dos Direitos Humanos.

Em 2011, assumi a honrosa função de Coordenador de Políticas Públicas dos Direitos Humanos do Governo Cid Gomes, inaugurando a primeira experiência de estrutura, especificamente de direitos humanos, do Executivo do Estado Ceará, àquela altura já circulando, militando, entre os mais diversos movimentos sociais de transversalidade dos direitos humanos. 

E nem poderia ser diferente, já assumi com a clareza de que tinha que honrar a causa da defesa dignidade humana, mas não poderia jamais falhar com uma série de pessoas que, antes de mim, já dedicavam a vida à defesa dos direitos humanos e à estruturação de uma rede institucional pública voltada à sua proteção: Dom Aloísio Lorscheider, o ex-vereador Durval Ferraz, que àquela época já haviam partido, mas tinham legado na área. 

E mais: Mário Mamede, João Alfredo, Deodato Ramalho, Padre Lino Allegri, Padre Ermannno, Renato Roseno, Irmã Imelda, Glória Diógenes e Demitri Cruz (que conduziam os direitos humanos da gestão petista da capital), a Defensoria Pública, a RENAP, o CEDECA, a Arquidiocese, a Justiça e Paz, a Justiça Global, o CEJIL, a Terre des Hommes, a Anistia Internacional, o MST, organizações não-governamentais e movimentos sociais importantes e companheiras e companheiros cearenses, que já eram referências locais e nacionais no tema (e que me inspiravam), mas sei que estariam acompanhando meus passos, com certo ceticismo. Afinal, não assumia o posto num governo petista e os limites de ação já seriam, por si só, limitados. 

Mas o fato é que nunca esqueci de onde vim (e sobre isso falarei mais adiante). Antes da luta começar institucional e livremente, após a Constituição de 1988, tiveram outras e outros que puseram sua vida, foram para o tudo ou nada, para defender esses mesmos princípios que defendíamos e que eu conhecia e que me conhecia muito bem, porque fiz parte disso: a geração 64/68, que lutou contra a ditadura, e o que podemos chamar de geração 78/79, que lutou por anistia política. 

Eram meus pais e minhas tias e tios como chamava quando criança. E dali posso citar apenas aqui do Ceará, dentre esses “tios e tias”: Maria Luiza Fontenele, Rosa da Fonseca, Mario Albuquerque, Pedro Albuquerque, Dona Lourdes Albuquerque, Zito, Galba Gomes, Arlindo e Nancy Soares, Ruth Cavalcante, Gilvan Rocha e Esther Barroso, Renê e Socorrinha Barreira, Silvio Mota, Valdemar Menezes, Tarcísio Leitão, Dr. Pádua Barroso, Messias Pontes, Maria da Penha, dentre tantas e tantos outros militantes de uma vida toda, que me conheciam desde sempre, gente que tinha certeza de que não vacilaria na missão. 

Acho que não falhei. Deixei um legado na Coordenadoria de Diretos Humanos do Ceará. Talvez nem estivesse recebendo essa Medalha se não fosse aquela passagem. 

Foi ali que tive contato direto com a luta das mulheres, dos negros e indígenas, das pessoas com deficiência, da luta LGBTQ, das crianças e adolescentes, dos idosos, das pessoas em situação de rua, dos migrantes, o trabalho escravo, a luta por diversidade religiosa, a luta por um  sistema penitenciário digno, por um sistema socioeducativo decente, a luta contra a violência policial, a violência urbana, a violência no campo, a luta por memória, verdade e justiça, enfim, todo amplo universo que compõe essa vasta responsabilidade de assumir uma estrutura de direitos humanos. E isso em suas conexões com três poderes em 184 municípios, 27 estados, um combativo Ministério em nível federal, e não menos combativas Secretaria de Direitos Humanos em Fortaleza, e comissões especializadas na Assembleia Legislativa cearense e na Câmara Municipal de Fortaleza.

Ao sair, concluí doutorado em Direito Constitucional, com tese sobre discriminação contra a mulher no mercado de trabalho, naquele momento já mantendo compromisso acadêmico consolidado com a afirmação, proteção e defesa dos direitos humanos. 

Em 2016, fui convocado pelo governador Camilo Santana para assumir a Secretaria-Adjunta de Políticas sobre Drogas na tentativa de estender um olhar de direitos humanos a uma política transversal complexa e mal compreendida no país, a política de drogas e suas consequências para o aumento da criminalização eletiva, da violência policial, das discriminações morais e repercussões para a saúde mental. 

Em todos esses anos sempre tive a felicidade de trabalhar com grandes equipes: 

No escritório (e daqui vejo aqui todos as minhas colegas e os meus colegas presentes, inclusive acompanhados de familiares) agradeço o carinho na pessoa do companheiro Emerson Sátiro Bezerra, que muito cedo nos deixou, mas tenho certeza de que continua nos olhando lá de cima e que homenageá-lo contempla todo time. 

Na Universidade de Fortaleza, cuja administração sempre me entendeu e jamais pediu que baixasse a guarda em sala de aula para deixar de dizer coisas que nem sempre agradavam aos ouvidos de quem escutava. Meu contato com a luta pela contraposição à “Escola sem partido” sempre foi para defender professoras e professores de outras instituições ensino, não para mim na UNIFOR. 

Também dividi sonhos e desafios com ótimas equipes na Coordenadoria Especial de Direitos Humanos do Governo e na Secretaria de Políticas sobre Drogas. Só guardo amigas e amigos. 

Entre uma coisa e outra participei da honrosa Comissão Nacional de Relações Internacionais da OAB federal, e, no início deste ano, assumi uma nova missão, a de presidir a mais nova comissão instituída no âmbito da OAB do Ceará, a Comissão da Memória, Verdade, Justiça e Defesa da Democracia, sendo-me concedido o deleite de dividir espaço de trabalho com mais aguerridos companheiros e companheiras, confirmando minha sorte de sempre trabalhar ao lado de grandes equipes. 

Me perdoem a prolixidade até aqui. 

Disse tudo isso não para tentar convencer alguém de que tenho legitimidade para receber a Medalha Dom Hélder Câmara, tampouco para posar de arrogante.

Disse, porque muita coisa mudou desde que comecei a militar na política de direitos humanos e a me dedicar de forma analítica ao tema, ainda na minha juventude nos anos 90. 

Em 2021, retornei à Universidade de Salamanca para estudos de pós-doutorados (que já concluí), não mais para aprender, mas para denunciar que aquele país, que meu professor de doutorado da cadeira de Direitos Humanos, Manuel Perez Bermejo, apontava como exemplo para a saída da crise da modernidade, por representar uma mistura de valoração das mais diversas identidades, da luta contra a fome e do desenvolvimento sustentável contra a opressão brutal do capital  – dizia ele:  “o mundo está entre uma McDonização ou uma Brasilização” - já não existia mais.

O Brasil havia se convertido num país fascista. Intolerante, violento, arrogante, um fracasso em direitos humanos. Aliás, com um “competentíssimo” plano de destruição, em curso, de tudo o que de melhor fora construído no país em toda sua era republicana, sobretudo durante os governos do PT (seja na área dos direitos humanos, das políticas sociais, da educação, da cultura, da economia, da administração e até mesmo das relações internacionais). 

Um país cujo governo foi cúmplice na morte de centenas de milhares de concidadãs e concidadãos durante uma das mais letais pandemias da história, pela gestão genocida do pior presidente que o Brasil já viu e que jamais poderia ter tido a fortuna ímpar, única, especialíssima, honorabilíssima, de sentar-se na cadeira mais importante da República. 

Inclusive porque o candidato em que o povo queria votar, o hoje eleito pela terceira vez e já diplomado presidente Lula, foi impedido de se candidatar por causa do ex-juiz Moro e de seu bando de cupinchas do sistema de Justiça, que patrocinaram a maior e mais vergonhosa traição às instituições democráticas do Brasil, desde a redemocratização, a Lava Jato, não por acaso considerada uma organização criminosa por tantas e tantos juristas.

Moro traiu a toga ao ser parcial; traiu a Justiça ao se cumpliciar com o ministério público e a polícia; traiu o Poder Judiciário ao desonrá-lo; e pior, traiu o Estado brasileiro, por entregar de bandeja a soberania do país aos abutres do Imperialismo, cujo objeto de desejo sempre foram nossas riquezas até a última pepita de pedra preciosa, o último quilo de minério, o último hectare de terra, o último litro de petróleo.

Com a ajuda explícita de uma teatralização programada, Moro e cupinchas ajudaram a turbinar, ao lado do grande capital e da mídia corporativa, adesão social, parlamentar e até mesmo judicial para a aprovação de um impeachment absolutamente fraudulento contra uma presidenta legitimamente eleita, que jamais cometera qualquer crime de responsabilidade, a presidenta Dilma Rousseff.

E ao prender Lula, impedindo-lhe de se candidatar, escancarou as portas do país para o fascismo, que conseguir empurrar goela abaixo este projeto de ditador, ora saínte, e seu governo de bajuladores militares, milicianos, estelionatários da fé, sanguessugas do erário, neoliberais aporofóbicos com horror aos pobres.

E talvez tenha sido por contestar tudo isso de forma contínua e veemente, desde o impeachment fraudulento até a vitória eleitoral deste ano, passando sobre toda denúncia à Lava Jato e ao bolsonarismo, que o vereador Ronivaldo e a Comissão de Direitos Humanos tenham me considerado merecedor dessa Comenda. Porque, em nenhum momento, titubeei em defender a democracia desse país. 

Hoje, não é difícil criticar a Lava Jato, a prisão ilegal do presidente Lula ou o golpe contra a presidenta Dilma, mas há 6 anos era impossível fazer isso de dentro da Academia, em um Curso de Direito, sem ser considerado juridicamente desonesto ou intelectualmente ignorante, dado era o grau de miopia nacional, diria até internacional, sobretudo na América Latina tomada pela direita. 

E eu fiz isso com todas as minhas forças, dedicando todas as minhas energias físicas, competências intelectuais, minha própria reputação acadêmica e jurídica, comprometendo até mesmo o nosso escritório, por assumir a defesa intransigente de um lado indiscutivelmente minoritário, mas hoje demonstrado correto, o lado da verdade histórica, o lado da Justiça. 

Também fui um crítico constante dos desmandos na pandemia. Enquanto minha mulher, a Ivana (que tanto amo e admiro) ia para linha de frente, todo santo dia, tendo que tomar banhos e mais banhos, ao sair de casa para o posto de saúde, ao sair do posto de saúde para casa e, finalmente, novamente em casa, lavando roupas com água sanitária, usando máscara até dentro de nosso apartamento para não contaminar ninguém (e, mais, com o sofrimento de quem sequer pôde chorar o luto de uma colega que há anos trabalhava ao seu lado, vitimada pela Covid-19), a única coisa que eu podia fazer para chegar à minha linha de frente possível, e assim me irmanar com quem estava diretamente exposto ao vírus devido aos ofícios das corajosas profissões, era denunciar ao Brasil e ao mundo todo caos da situação nacional. 

Foram centenas de artigos, dentre textos de jornais em mídia independente, páginas de revistas, capítulos de livros, estudos acadêmicos e livros. Tantas Lives e palestras no país e no exterior, que nem sei dizer o número. Foi a forma como, de dentro de casa, vivi minha única linha de frente possível. Inclusive apoiando, com argumentos jurídicos, corajosas entidades médicas nacionais e locais que se impuseram contra o negacionismo científico do governo e contra o negacionismo de integrantes de suas próprias categorias profissionais.

Denunciei pessoalmente e, também, institucionalmente. Como membro da Secretaria de Relações Internacionais da Associação Brasileira de Juristas pela Democracia (ABJD), hoje uma das mais importantes instituições de defesa democrática do país, e depois do Grupo Prerrogativas, também de importância fundamental nos últimos anos, denunciei não só o golpe no Brasil, mas o golpe na Bolívia, o estado permanente de opressão imperialista em Cuba, na Venezuela, o martírio de Julian Assange, o asilo de Snowden, o Lawfare no Brasil, na Argentina, no Equador, a repressão policial na Colômbia, no Chile, as intrincadas relações da Lava Jato com o Departamento de Justiça dos EUA, que provocaram uma verdadeira nova Operação Condor na América Latina, e, óbvio, todo processo de desmoralização pública e judicial da Lava Jato (desde muito antes da propositura dos processos contra o Lula e após os processos: durante a prisão, durante as publicações da Vaza Jato e, também, durante as anulações processuais que permitiram ao presidente dar uma volta por cima antes considerada inviável). Até cerimônias públicas de apoio aos advogados de Lula providenciamos para ajudar naquela luta considerada impossível contra a opressão do sistema de justiça inteiro e do Estado movida pela criminosa Lava Jato.

E, além de tudo isso, também me dediquei à defesa intransigente da democracia, porque desde o primeiro ano de mandato presidencial, o irresponsável que agora conclui sua passagem à frente do Planalto (que já era para ter sofrido impeachment há muito tempo, dada sua inexorável relação com a delinquência), esta pústula jamais deixou de ameaçar o povo brasileiro com golpe de Estado, através do que chama “minhas Forças Armadas”. 

O desprezível jamais deixou de perseguir servidores em órgãos públicos. Nunca deixou de tentar aniquilar os movimentos sindicais, movimentos sociais, os públicos transversais de direitos humanos (mulheres, negros, comunidade LGBT, pessoas com deficiência, crianças e adolescentes, idosos, população de rua, as crenças afro-brasileiras, os católicos, protestantes, judeus, mulçumanos, budistas, crentes e não crentes, críticos a tudo isso). 

Para não falar da perseguição aos pobres e aos indígenas, que tanto vem tentando dizimar com sua política de destruição das florestas, que lhe representaram no escritório da procuradoria do Tribunal Penal Internacional, por genocídio, ao lado de outras denúncias por motivos diversos, como a da própria ABJD, a qual tenho a honra de ser um dos subscritores, por crimes contra a humanidade pela inação, posteriormente demonstrada proposital, durante a pandemia. 

Jamais deixei de denunciar essa sindemia, que misturava temor de morrer pela pandemia e temor de morrer por golpe de Estado, acompanhando a olhos nus a população sendo armada, o ódio e as Fake News sendo espalhadas em redes sociais e o minúsculo presidente disparando sua metralhadora verborrágica contra a imprensa, os poderes constituídos e os adversários políticos. 

O Brasil chegou às últimas eleições tomado pelo medo. Apenas em eventos com a participação do presidente Lula foram dois atentados. Outro atentado em evento do candidato a governador Marcelo Freixo. Disparos contra diretórios petistas em vários estados do país. Um Marcelo, petista como eu, foi barbaramente assassinado em plena festa de aniversário. 

Foi esse o legado de um governo que já começou precisando se explicar sobre a vinculação do seu núcleo duro com a execução bárbara e covarde da vereadora carioca, negra, feminista, militante da política LGBT e socialista, Marielle Franco, e que termina com ameaças abertas às instituições e mentiras levantadas contra o processo eleitoral e as urnas eletrônicas do país já comprovadamente íntegros. 

Nossa sorte, enquanto cearenses, é que por aqui sempre tivemos, durante todo interstício do pesadelo, governadores que se insurgiram contra a necropolítica do governo federal (Camilo Santana e Izolda Cela), os quais, não sei como, ainda conseguiram fazer o Ceará crescer e melhorar em muitos aspectos nas áreas sociais. Foram gigantes. 

E ainda elegemos bancadas estadual e federal e um governador, Elmano Freitas, que não tenho dúvidas de que fará um grande governo. 

E como cereja do bolo, o melhor do melhor, as reviravoltas da vida nos trouxeram à presidência o maior estadista que esse país já viu, o presidente Lula. 

Uma vez, Paulo Vannuchi, ex-ministro dos direitos humanos, me disse que quem milita nos direitos humanos tem que ser otimista, precisa acreditar que as coisas irão melhorar. Nunca esquecerei.

Pois bem e já finalizando. A luta pela efetivação dos direitos humanos é uma luta dura, constante e permanente. 

Como bem lecionara Joaquín Herrera Flores em seu já clássico La (re)invención de los derechos humanos: é uma luta contra a voracidade do capital, uma luta contra a narrativa reacionária, uma luta contra os opositores do Estado de bem-estar social, uma luta cultural, uma luta contra países imperialistas que insistem em oprimir países que querem se desenvolver, uma luta até contra o próprio Direito, que existe para libertar, mas, bem sabemos – e como sabemos! - também pode oprimir.

Mas estou otimista e tenho razões para isso. No final de novembro passado, fui convidado, muito honrosamente, pela ex-ministra dos direitos humanos Maria do Rosário, a integrar a área técnica do GT Direitos Humanos da Transição federal. 

A Transição foi um grande reencontro. Nos direitos humanos, muito mais do que um diagnóstico sobre um ministério que foi destruído no governo atual, aconteceu um reencontro de militantes de todo Brasil, que há anos vinham sofrendo com o risco de falar. 

Foram dezenas e dezenas de reuniões, mais de trinta escutas sociais nas mais diversas transversalidades. Apenas para citar uma, a que o companheiro Rubens Linhares (Rubinho) do Ceará coordenou, contava com mais de 100 entidades. 

Isso aconteceu em todas as áreas de gestão do governo. 

Imaginem a minha sorte! Nesse exato momento, enquanto o presidente Lula está sendo diplomado no TSE, escrevo este discurso e assisto ao ato histórico dos telões da principal sala de reuniões do complexo da Transição no Centro Cultural do Banco do Brasil, ao lado de companheiras e companheiros que conheci durante essa jornada. Muita honra!  

Entreguei todo o meu vigor físico e intelectual tentando dar o meu melhor na Transição. Ajudei ao jurista Silvio Almeida na análise das relações internacionais de direitos humanos do desgoverno e na análise das portarias e decretos arbitrários na área que serão objeto do futuro “revogaço”. E, sob coordenação da ex-ministra Maria do Rosário, relatei duas áreas muito sensíveis. Violência política e Memória, verdade e Justiça. 

Uma das frases mais impactantes de Dom Helder Câmara foi quando ele disse: “o que não se pode imaginar é que um cristão, que tenha consciência do que se denomina seguir ao Cristo, pense em eliminar outro irmão. Subjugá-lo à tortura. Diminuir-lhe os direitos.”

Foram temas assim que enfrentei diretamente. E enfrentei como filho que nasceu durante a clandestinidade política dos pais, os quais sofreram todo tipo de horrores da ditadura - a propósito, esta é a segunda condecoração que recebo nesta casa. A primeira foi a Cidadania de Fortaleza, proposta pela então vereadora Toinha Rocha, também aprovada por unanimidade dos pares, por não haver nascido nesta cidade onde deveria ter nascido e onde mantenho todos os meus vínculos, única e exclusivamente por causa da ditadura, que me obrigou a nascer na clandestinidade.

E enfrentei esta tarefa também como pai e esposo, que vê a responsabilidade de fazer o melhor para que o arbítrio, a violência ao Estado Democrático de Direito, a ameaça às instituições, à democracia e ao voto, à soberania popular não se repita nunca mais. 

Precisei ter muita força durante esses anos todos e essa força veio de vocês, companheiras e companheiros, que aqui estão e muitas outras e outros que conheci à distância na militância das redes, que nunca deixaram de lutar, sobretudo durante a pandemia. 

Contei, lógico, com muita força da família. Meus pais, Ângela e Inocêncio, que além de pais incríveis também são incríveis militantes, e minha mulher Ivana e meus filhos Júlia e Gustavo, que precisaram ter muita paciência para aguentar minhas manhãs, tardes e noites no gabinete, minhas canecas e mais canecas de café, minhas angústias com o país, e que, também, para meu orgulho e para minha imensa sorte, observam o mundo criticamente e militam, cada um à sua maneira, na defesa das melhores causas. Obrigado, pai, mãe, Ivana, filho e filha. 

A propósito, festejaremos nossa vitória contra essa batalha imensa no dia 1º de janeiro, na posse do presidente Lula. Merecemos isso. Todas e todos aqui presentes merecem festejar.

Muitas companheiras e muitos companheiros partiram deste plano para o outro entristecidos e infelizes com o país. Apenas para citar algumas pessoalmente, muito queridas e por todos aqui conhecidas: Tereza Albuquerque, Izaíra Silvino, Rosa da Fonseca, Sandrinha, Zélia Franklin.

Somos sobreviventes e, como sobreviventes, temos responsabilidades com os que não conseguiram sobreviver e igualmente com os que aqui estão, sobretudo aquelas e aqueles que mais sofreram a dureza da pandemia, a dureza da economia, a dureza da perseguição, a dureza desse desgoverno que tanto tem machucado o povo brasileiro. 

Temos, também, responsabilidades com os que virão. Não faz muito tempo tinha orgulho do país que construía para os meus filhos. Hoje, só penso que se meus filhos viveram para testemunhar esse pesadelo, que meus netos (que, espero, ainda demorem um pouco a vir), não tenham que viver o mesmo desprazer de passar por toda essa hecatombe humana novamente. 

Dom Hélder Câmara dizia “o segredo de ser jovem é ter uma causa a que dedicar a vida”.

Que todos aqui sejamos jovens e continuemos a dedicar nossas vidas à construção de um mundo melhor, mais justo e mais fraterno. Sem ódio, sem violência, sem egoísmo. Só amor, generosidade e esperança.

Os direitos humanos são de todas as pessoas. São para que a humanidade seja melhor. Para que haja paz e o Planeta possa sobreviver. Defender os direitos humanos deveria ser um imperativo categórico (ético e moral, mais que jurídico), como dizia Kant, para todas as pessoas e Estados. Se assim fosse, viveríamos felizes, de modo fraterno, imersos em alegria e em paz com nossas consciências.

No último dia 10, há apenas 5 dias, a Declaração Universal dos Direitos Humanos completou 74 anos. São apenas 30 artigos. Cada um deles cumprido significa mais dignidade para todas as vidas. Dom Helder Câmara lutou com afinco por isso. E, por isso mesmo, sua memória permanece mais viva do nunca, Brasil afora, e, com muita justiça, até aqui mesmo neste recinto dando nome à Medalha que carrego no peito.

Tentarei fazer valer a imensa responsabilidade que a Comenda me impõe. 

Muito obrigado! 

Fortaleza, 15 de dezembro de 2022.

Marcelo Uchôa

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.