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Heraldo Campos

Graduado em geologia (1976) pelo Instituto de Geociências e Ciências Exatas (UNESP), mestre em Geologia Geral e de Aplicação (1987) e doutor em Ciências (1993) pela USP. Pós-doutor (2000) pela Universidad Politécnica de Cataluña - UPC e pós-doutorado (2010) pela Escola de Engenharia de São Carlos (USP)

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Alguém tem dúvida?

A disputa por recursos hídricos, agravada pela escassez e pela geopolítica, expõe a água como fator central de conflitos e poder no Oriente Médio

Alguém tem dúvida? (Foto: Reuters)

“As águas atmosféricas, que iniciaram o ciclo hidrológico, formaram-se a partir do resfriamento e do escape de gases das rochas há mais de 3,5 bilhões de anos. Para formar essa atmosfera, também um grande número de cometas, compostos essencialmente por água congelada, foi sendo capturado pela órbita da Terra num passado remoto. Deste modo, o caminho das águas na crosta terrestre é bastante complexo. Por causa da energia solar, uma molécula de água, por um número infinitamente grande de estímulos, pode ser evaporada do oceano e a ele retornar precipitada pelas chuvas. Pode, também, cair sobre os continentes, infiltrando-se solo abaixo, ser absorvida pelas plantas ou retornar indiretamente aos mares pelos rios e ribeirões.

Em outras palavras, a água que bebemos todos os dias é a mesma água que beberam os dinossauros há 200 milhões de anos e Moisés, Jesus e Maomé nos últimos 2 mil anos. Aliás, é nas regiões de origem destes três senhores, no Oriente Médio, que o controle, a distribuição e a utilização do petróleo e da água são, historicamente, um motivo de tensões e de conflitos. Ali se mata há séculos pelo domínio dos dois recursos, que são tratados nitidamente como mercadoria de guerra. A Terra já teve que aguentar inúmeras guerras entre os povos e passou por vários efeitos estufa ao longo de sua história geológica. Nestes efeitos estufa do passado, basicamente, a água foi alterada em seu estado físico e hoje, comprovadamente, nós, seres humanos, é que estamos aumentando a temperatura do planeta com o lançamento de gases à atmosfera e acelerando esse efeito". [1]

“A importância da água como fonte de vida, riqueza e poder faz, portanto, com que ela seja fonte de conflito. Em Israel, na Cisjordânia e em Gaza, o desequilíbrio no uso da água é constante motivo de ressentimento para os palestinos. Entre as questões de fundo da Guerra dos Seis Dias (1967), estava a preocupação do governo israelense com um projeto jordaniano de desviar o curso do Rio Jordão. Israel foi em parte fundado com base na irrigação e exploração agrícola do deserto; a água é questão, e questão particularmente delicada, de segurança nacional. Ao assumir o controle da Cisjordânia em 1967, o país ganhou acesso não apenas ao rio, mas também às fontes subterrâneas da região". [2]

Na projeção do estresse hídrico para várias partes do mundo para o ano de 2050, de acordo com estudo da UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) de 2012 [3], observa-se a localização do Oriente Médio com potencial de severo estresse hídrico. Na guerra atual no Oriente Médio, deflagrada pelos Estados Unidos e Israel, parece que, além do petróleo, como um dos alvos econômicos do conflito, a água pode também estar sendo um dos panos de fundo na ocupação e na disputa dos territórios. Alguém tem dúvida?

Fontes

[1] “Matando pela água”, artigo de Heraldo Campos, de 08/04/2007, publicado pelo Jornal Gazeta de Ribeirão e que faz parte do e-book “Por onde a água passa – coletânea de artigos”, que pode ser acessado, gratuitamente, pelo Sistema de Bibliotecas da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), nesta direção a seguir, escrevendo Heraldo Campos no campo Pesquisar: https://acervus.unicamp.br/Resultado/Listar?guid=1730017507822

[2] “Oriente Médio: disputas pela água”. Smith, Dan. O atlas do Oriente Médio: o mapeamento completo de todos os conflitos. São Paulo: Publifolha, 2008. p. 132 e 133. In: Adas, M. & Adas, S. Expedições Geográficas. 2ª edição. São Paulo, Editora Moderna Ltda., 2015. 288 p.

[3] United Nations World Water Development Report 4: Managing Water under Uncertainty and Risk. Paris: UNESCO, 2012. p. 391. v. 2 https://unesdoc.unesco.org/ark:/48223/pf0000215644

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.