Algum dia

O passado pode nos ajudar a enxergar a barbárie não como algo natural, mas como produto de escolhas políticas que podemos, algum dia, mudar



(originalmente publicado na Carta Maior)

Leio nos jornais de hoje que o Exército Islâmico teria massacrado “pelo menos 400 pessoas em Palmira”, cidade síria que é reconhecida pela Unesco como patrimônio da humanidade.  Na verdade,  trata-se de mais um episódio de barbárie, que deu sequência às respostas das comunidades fundamentalistas locais, em série – desde a Guerra do Golfo e a ocupação do Iraque – aos massacres de civis e aos campos de concentração do Estado americano, na chamada “Guerra ao Terror”. A mesma guerra que promoveu até legislações de “exceção”, nos Estados Unidos da “Era Bush”, como o “Patriot Act”, que chega ao requinte de permitir e legalizar a tortura contra prisioneiros e suspeitos. O massacre de Palmira tem o mesmo sabor de barbárie e desumanidade que as intervenções das grandes potências, na busca de garantir seus interesses econômicos nos países que são alvo das suas ações militares.
 
Vivemos sob uma ordem internacional falida, em que as Nações Unidas, independentemente das boas intenções dos seus dirigentes, é refém do financiamento das potências econômicas e militares, que promovem uma nova repartição geopolítica do mundo. Esta intervenção é baseada em dois movimentos convergentes: de uma parte, promovem as ações militares convencionais, através de intervenção com tropas regulares, permitidas ou não pelas decisões da ONU, articuladas com intervenções militares – organizadas clandestinamente –  armando grupos dissidentes locais, que, por motivos religiosos ou políticos, estão prontos para a guerra civil; de outra parte, promovem intervenções nos Estados – de natureza política e econômica – para garantirem a rentabilidade do capital financeiro e terem acesso às últimas fontes estratégicas de energia fóssil, com seus governos amigáveis, sejam “democráticos” ou não.
 
Às vezes esta intervenção se faz em nome da “democracia”, especulando com as legítimas aspirações libertárias dos povos, como na “Primavera Árabe”, que, agora já se sabe, é um verdadeiro “inverno da nossa desesperança”, para lembrar um grande romance de Steinbeck. De onde saem as armas?  Todo o cidadão de bom senso deveria se perguntar, para tentar formar um juízo sobre estes massacres. Estas armas são fabricadas, testadas, vendidas, transportadas e chegam às mãos assassinas dos “regulares” e dos “irregulares”, com marca de origem e são levadas por caminhões, navios, aviões, que tem registros e locais de partida. Se são fabricadas e levadas, clandestinamente, é óbvio que isso é feito com a cumplicidade dos “governos invisíveis” do ocidente e de outras bandas, compostos por altos mandos militares, fabricantes de armas, serviços secretos e agências financeiras, que financiam ou “bancam” estas operações.
 
Nos anos 70, década que marca o início da chamada “crise da subjetividade”, como diz Beatriz Sarlo, no seu admirável  “Tempo Passado, cultura da memória e guinada subjetiva”, foi decretada “morte do sujeito”. Era o estruturalismo triunfante que constatava que uma humanidade sem subjetividade organizada, para lhe dar um rumo, seria afetada pelas leis da naturalidade: um processo “sem sujeito”, um  “processo da natureza”, como já pensava Lukács,  lá no início dos anos sessenta. Mas o processo social “sem sujeito”, reclamavam os hegelianos e os marxistas, seria, na verdade, ou dirigido  por um sujeito “oculto”, ou orientado por um “predicado” (um movimento), que lhe substituiria. A substituição seria só aparentemente espontânea, pois corresponderia a interesses bem orientados e claros, numa ordem mundial já sem um centro hegemônico absoluto. O mundo teria, então, uma força normativa superior aos estados e à política: o capital financeiro, aparentemente sem dono, passeando no globo, especulando e promovendo a acumulação sem trabalho. O sujeito inexistente agora tem face e se expressa pelos bancos centrais, agências de risco e instituições especulativas.
 
Não é de graça que, naquela época do reinado estruturalista, surgiu também, como “mote” de um futuro desenhado sem a intervenção do sujeito, a receita mais contundente do “fim da política”. Era o “there is no alternative”, que transformava a força normativa do capital financeiro em força especial para decisões de estado, que subjugariam a política e capturavam-na. Beatriz Sarlo, no mesmo livro, lembrando um outro grande escritor, o italiano Italo Svevo, traz uma reflexão deste, que serve para o todos os tempos: “O presente dirige o passado assim como o maestro, os seus músicos.”  Olhemos bem os fatos do passado, recentes ou remotos, eles podem nos dirigir para não aceitar a desumanidade e a barbárie como “coisas da natureza”, mas como produtos de escolhas políticas que podemos, algum dia, mudar.
 
Tarso Genro foi governador do estado do Rio Grande do Sul, prefeito de Porto Alegre, Ministro da Justiça, Ministro da Educação e Ministro das Relações Institucionais do Brasil.

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