Alice no país das balas perdidas

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Sai ano, entra ano, e, literalmente, nada muda quando o assunto é segurança pública. Logo no primeiro minuto de 2021, mais uma vida foi ceifada pela violência que tomou conta da cidade maravilhosa. Mais uma criança pobre, mais uma vida preta e mais um sonho interrompido por uma rotina bélica que nos afasta da civilidade e nos imerge no caos.

As aventuras da pequena Alice Pamplona da Silva na metrópole da maravilhas, não durou mais do que cinco anos. Ao contrário de sua homônima personagem do clássico conto infantil britânico, “Alice no país das maravilhas”, que caiu na toca de um coelho e foi levada à mundo mágico, a nossa Alice, a do morro do Turano, zona norte do Rio de Janeiro, caiu numa armadilha do destino.

Enquanto a sua família comemorava a virada do ano, observando à queima de fogos da janela de sua casa, uma bala, dessas que criança nenhuma gostaria de receber, a atingiu no pescoço e pôs fim ao ano - pelo menos para aquela família - que acabara de começar. Destino mais cruel impossível, se a tragédia não tivesse ocorrido na cidade maravilhosa. Aqui, a vida de crianças pretas e periféricas é bem diferente do que no país da Alice da obra de Lewis Carroll.

No “Hell de Janeiro” a realidade é dura e bem menos lúdica, o que transforma o cotidiano dos nossos pequenos numa rotina de apreensão e incertezas. Nem o colo da mãe mais protetora do mundo, é capaz de evitar tamanho infortúnio, quando a fatalidade é uma desgraça institucional e quase previsível. Foi no colo de sua mãe que a menina Alice foi atingida pela estupidez de uma sociedade adoecida e humanamente falida.

De onde parte o tiro já não faz nenhuma diferença. A questão é entender por que ele acerta sempre o mesmo alvo? Talvez, por ele estar sempre no lugar e na hora certos.  No Brasil, mais especificamente nesse inferno maravilhoso e turístico chamado Rio de Janeiro, pretos e pobres parecem já nascer com os dias contados. Um conto de fadas às avessas que revela a face mais obscura de seus autores. Estado e sociedade são cúmplices desse genocídio étnico, que promove uma eugenia social e sistêmica, disfarçada de violência urbana.

Quantas crianças pobres e pretas ainda precisarão morrer, para punirmos os responsáveis por esse derramamento de sangue inocente? Quantas vidas ainda precisarão ser sacrificadas, para fazermos a mudança estrutural que pode nos poupar de tanta dor e sofrimento? A quem interessa a manutenção desse desequilíbrio social e a naturalização dessa perversão moral como parte dos nossos costumes? A normatização da morte de crianças pobres e inocentes, é o clímax da barbárie como instituição. É pérfido! É mal! É diabólico!

Nossa sociedade acende uma vela para Deus e outra para o seu mito genocida, com a mesma naturalidade com que defende o armamento de “cidadãos de bem” e lamenta o assassinato de inocentes, vítimas do uso irresponsável das armas que eles clamam pela liberação. Distopia ou mau-caratismo? Eis mais uma questão. Enquanto não solucionamos esta equação, vamos enterrando mais corpos de crianças pretas e periféricas, abatidas pela incapacidade que alguns possuem de exercerem a sua liberdade, sem serem selvagens.

Se Alice não vai à estrutura, a estrutura tem que ir à Alice. Chega de passar pano nesse chão sujo de sangue. As mãos que tentam esconder as marcas dessa realidade, são as mesmas que preparam o cenário para o próximo crime. É preciso implementar políticas públicas que deem dignidade e preservem a vida dos moradores de comunidades. Não podemos continuar sepultando sonhos, legitimando esse processo de desumanização e destruição de tantas famílias. Que a pequena Alice possa descansar em paz e desfrutar das maravilhas de um mundo bem diferente deste que ela conheceu tão brevemente.

Uma paz que nunca experimentaremos plenamente, enquanto permitirmos que a morte de inocentes faça parte de nossas vidas.

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