Aniversário de Lima Barreto
No aniversário de 145 anos de Lima Barreto, revisita-se o gênio rebelde que denunciou o racismo e as elites do Brasil com coragem e lucidez rara
Neste 13 de maio, lembramos os 145 anos do nascimento de Lima Barreto, escritor fundamental da nossa literatura. A Wikipédia publica que “Afonso Henriques de Lima Barreto (Rio de Janeiro, 13 de maio de 1881 – Rio de Janeiro, 1 de novembro de 1922) foi um jornalista e escritor brasileiro, identificado com o pré-modernismo”
Mas já aí, em seu primeiro parágrafo começa a desinformação. Como identificar Lima Barreto com um chamado pré-modernismo? Isso quer significar que ele escreveu antes da famosa Semana de Arte Moderna? Mas como manter a vinculação de Lima Barreto a um pré-movimento que nada tinha a ver com os romances, contos e artigos do escritor? Então ocorre um atentado pior: quando clicamos no pré-modernismo da Wikipédia, eis o que se abre: “O pré-modernismo (ou ainda estética impressionista) foi uma fase literária, ou também considerado um período sincrético histórico-literário brasileiro, que marca a transição entre o simbolismo e o movimento modernista. Em Portugal, o pré-modernismo configura o momento denominado saudosismo”.
Com absoluta certeza, jamais os redatores do verbete leram Carlos Nelson Coutinho em “O significado de Lima Barreto na Literatura brasileira” . Se o tivessem lido, saberiam disto:
“Com Lima Barreto, iniciou-se para a literatura brasileira uma nova etapa – moderna e popular – do realismo. Tanto em sua obra estética quanto em sua produção jornalística, o romancista carioca rompe decisivamente com qualquer versão do ‘intimismo à sombra do poder’, colocando com grande clareza a dimensão social e humanista do ofício literário. Diante de todas as questões que enfrentou, como escritor ou periodista, Lima sempre tentou encontrar (e na esmagadora maioria dos casos efetivamente encontrou) uma resposta autenticamente democrática e popular, capaz de abrir novos horizontes – ideológicos e estéticos – para a cultura e para a arte de nosso país.”
Um alcance certeiro é dado por esta frase magistral, definidora do crítico Antonio Arnoni Prado:
“Ler os livros de Lima Barreto é de alguma forma participar do drama do intelectual sitiado. Mais talvez do que isso, é um exercício de consciência histórica que conta com a vantagem, como poucas noutro escritor brasileiro, de um difícil testemunho: constatar como a vida, e nesta a opressão e o fracasso, se converte em literatura”.
E como está em texto do pensador e crítico José Carlos Ruy:
“Crítico ferino e mordaz dos hábitos e formas de pensar da elite de seu tempo, defensor persistente de reformas profundas na sociedade brasileira, necessárias para melhorar a vida do povo, Lima Barreto viveu em uma época que, sob muitos aspectos, assemelha-se à nossa. De um lado a alienação de setores da elite, plasmada na imitação servil do estrangeiro, no deslumbramento daqueles que pensam que somente com a modernização, isto é, adoção de hábitos, modos de vida e formas de pensar brancos e europeus, é que o Brasil poderá vencer o atraso e embarcar no bonde da história rumo ao progresso. De outro lado as entranhas reais do país, escondidas sob o tênue verniz modernizante: a permanência de estruturas sociais arcaicas e injustas que oprimem a enorme maioria do povo e nutrem as elites.
Lima Barreto não só enxergou essas estruturas, mas conviveu com elas em seu cotidiano e sofreu na carne as pesadas restrições que elas impunham aos que ficavam de fora”.
O gênio de Lima Barreto foi pioneiro da propaganda do marxismo no Brasil, acompanhou a Revolução Russa com entusiasmo. Sobre o marxismo, que ele chamava de maximalismo, escreveu mais de um artigo. Aqui, uma pequena amostra do seu texto publicado no dia primeiro de março de 1919:
“Tenho tocado nessa questão de maximalismo; mas, lendo na excelente Revista do Brasil, de São Paulo, o resumo de uma conferência do eminente sociólogo argentino, Senhor doutor José Ingenieros, lembrou-me voltar à carga, tanto mais que os nossos sabichões não têm nem uma espécie de argumento para contrapor aos apresentados pelos que têm meditado sobre as questões sociais e veem na revolução russa uma das mais originais e profundas que se tem verificado nas sociedades humanas. Os doutores da burguesia limitam-se a acoimar Lênin, Trótski e seus companheiros de vendidos aos alemães.
Há por aí uns burguesinhos muito tolos e superficiais, porém, que querem ir além disto; mas cuja ciência histórica, filosófica e cuja sociologia só lhes fornecem como bombas exterminadoras dos ideais russos a grande questão de tomar banho e a de usar colarinho limpo...
Se a convulsão não trouxer ao mundo o reino da felicidade, pelo menos substituirá a camada podre, ruim, má, exploradora, sem ideal, sem gosto, perversa, sem inteligência, inimiga do saber, desleal, vesga que nos governa, por uma outra, até agora recalcada, que virá com outras ideias, com outra visão da vida, com outros sentimentos para com os homens, expulsando esses Shylocks que estão aí, com os seus bancos, casas de penhores e umas trapalhadas financeiras, para engazopar o povo. A vida do homem e o progresso da humanidade pedem mais do que dinheiro, caixas-fortes atestadas de moedas, casarões imbecis com lambrequins vulgares. Pedem sonho, pedem arte, pedem cultura, pedem caridade, piedade, pedem amor, pedem felicidade; e esta, a não ser que se seja um burguês burro e intoxicado de ganância, ninguém pode ter, quando se vê cercado da fome, da dor, da moléstia, da miséria de quase toda uma grande população”.
Com Lima Barreto, talvez mais que em outros grandes autores, conjugam-se vida e obra. O grande crítico e escritor comunista José Carlos Ruy escreveu: “Seu Diário Íntimo (publicado postumamente, em 1953) é um relato humano e sensível da consciência que tinha do absurdo que é separar os homens pela cor de sua pele, considerar inferiores aqueles de pele mais escura. E também uma comovente denúncia do racismo”. Assim está em “Um longo sonho do futuro”, que reúne diários, cartas e confissões do autor. No Diário do Hospício, incluído nesse livro, Lima Barreto mostra o desprezo contra o seu gênio literário, “ofuscado” pela cor da pele, que depois veríamos na internação hospitalar do poeta negro Miró da Muribeca, do Recife, em anos mais recentes. Com Miró, um médico relatou que estava pensando em chamar um acompanhamento psiquiátrico. A razão: “Ele está alegando que é poeta, mostrando um comportamento estranho, recitando uns poemas..”. Que triste e terrível coincidência! Antes, com Lima Barreto, psiquiatras anotaram incrédulos e zombeteiros no seu prontuário: “diz-se escritor”. Ou como está no Diário do Hospício:
“Esperei o médico. Era um doutor Airosa, creio eu ser esse o nome, interrogou-me, respondi-lhe com toda a verdade, e ele não me pareceu mau rapaz, mas sorriu enigmaticamente, ou, como dizendo: ‘você fica mesmo aí’, ou querendo exprimir que os meus méritos literários nada valiam”.
Ainda no Diário do Hospício, vemos esta página definitiva:
“Digo com franqueza, cem anos que viva eu, nunca poderá apagar-me da minha memória essas humilhações que sofri. Não por elas mesmo, que pouco valem; mas pela convicção que me trouxeram de que esta vida não vale nada, todas as posições falham e todas as precauções para um grande futuro são vãs.
Eu tinha tudo, ou tenho tudo, para não sofrê-las, tanto mais que não as provoquei. Sou instruído, sou educado, sou honesto, tenho procurado o mais possível ter uma vida pura. Parecia que sendo assim, que – sendo eu um rapaz que, antes dos dezesseis anos, estava numa escola superior (que todos me gabavam a inteligência, e mesmo até agora ninguém nega) – estivesse a coberto de tudo isso. Mas eu e a sorte, a sorte e eu, nos juntamos de tal sorte, nos irmanamos, que vim a passar por transes desses.
Desde a minha entrada na Escola Politécnica, que venho caindo de sonho em sonho e, agora que estou com quase quarenta anos, embora a glória me tenha dado beijos furtivos, eu sinto que a vida não tem mais sabor para mim. Não quero, entretanto, morrer; queria outra vida, queria esquecer a que vivi, mesmo talvez com perda de certas boas qualidades que tenho, mas queria que ela fosse plácida, serena, medíocre e pacífica, como a de todos.
Penso assim, às vezes, mas, em outras, queria matar em mim todo o desejo, aniquilar aos poucos a minha vida e sumir-me no todo universal. Esta passagem várias vezes no hospício e outros hospitais deu-me não sei que dolorosa angústia de viver que me parece ser sem remédio.
Vejo a vida torva e sem saída. A minha aposentadoria dá-me uma migalha, com que mal me daria para viver. A minha pena só me pode dar dinheiro escrevendo banalidades para revistas de segunda ordem. Eu me envergonho e me aborreço de empregar, na minha idade, a minha inteligência em tais futilidades. Ainda tenho alguma verve para a tarefa do dia a dia; mas tudo me leva para pensamentos mais profundos, mais doridos e uma vontade de penetrar no mistério da minha alma e do Universo”.
Agora, recupero breve o que publiquei sobre Lima Barreto em outra oportunidade:
A Francisco de Assis Barbosa, o maior biógrafo de Afonso Henriques de Lima Barreto, todos devemos uma apaixonada pesquisa, o levantamento e publicação da obra de Lima. Mas fazer justiça é o contrário de fechar os olhos a tudo: a Francisco de Assis também devemos um olhar caridoso, pio, sobre o mártir Lima Barreto. Francisco de Assis foi o santo pesquisador que viu em Lima o ressentido, o ofendido, o magoado, o desgraçado mulato cuja obra era uma toalha onde imprimiu uma face de sangue. E não sabemos se tão grande foi a sua pesquisa que marcou a visão de futuro do escritor, ou se o preconceito da sua visão é o da sociedade, tão velho, tão Brasil, tão presente. Num acordo sensato, digamos que as duas coisas: o seu trabalho de pesquisador é de uma força tal que imprime a cara do biógrafo, quando queria ser a do biografado, e pela aceitação que recebeu e recebe, imprime a própria cara da sociedade brasileira. Isto quer apenas dizer, não se vê na revolta de um ofendido uma revolta que saia da própria pele. Pelo contrário, pensa o vulgar: "se você se revolta, você se indigna apenas porque está sendo oprimido". Ou seja, "no dia em que você chegar lá, no dia em estiver no poder, será mais um opressor". É claro que nada disso se escreve no trabalho de Francisco de Assis, mas nele está inscrito, por força e consequência.
Entenda-se, ninguém pode ser biógrafo de Lima Barreto com a omissão do sofrimento da pessoa do escritor. Mas a ênfase no "ressentimento", na ferida, na "tragédia" de ser mulato numa sociedade hipócrita, mestiça por espírito e carne, é mais que uma redução: é um erro, e que erro!
Vejam o autor de contos essenciais, cheios de graça e verve e feroz humor, como “O homem que sabia javanês”, como “A nova Califórnia”, leiam o romancista de Triste fim de Policarpo Quaresma. Ele prescinde de abordagens cheias de dó e pena. Lima Barreto é um escritor que escreve a gema rara desse pensamento sobre uma personagem, sobre Olga, que "tinha a alma tão ao alcance dela mesma". Ele está muitos e muitos pontos acima de um coitado infeliz, digno de pena. O imenso Lima Barreto é superior a qualquer condescendência.
Ressaltam nele mais particularmente a mágoa de um mulato infeliz. Mas por que desse modo, dessa redução, não se fala do próprio Machado de Assis? Por que este não é o caso de Mário de Andrade? Por que este não é também o caminho seguido pelos russos para o gênio de Pushkin? Não temos ainda robusta certeza, mas acreditamos que a razão venha de Lima Barreto ser um escritor de um tipo novo na atrasada sociedade do Brasil. Ele é de um gênero, que mal nasceu é caçado para ser extinto, de escritor que não recua de entrar em luta contra os desmandos e desconcertos do mundo brasileiro. De modo franco e aberto. Queremos dizer, ele não é o escritor que recua diante do abismo, ainda que isso lhe custe a sobrevivência física. Como ele assim ousava, isto somente poderia vir, conclui-se, de um ressentido, de um alcoólatra, de um louco: o que vale dizer, na sociedade dos bem-nascidos, ou dos que conseguiram ir a esse nível por educação, do intelecto e dos olhos, que se puseram míopes e turvos, nesta sociedade, diz-se, a olhar para o escritor intransigente e inflexível: "Ele não é um dos nossos. Afastemo-nos do seu mal, ou seremos a próxima vítima".
Tanta coisa escrevi que se torna pálida diante deste grito em silêncio, no Diário do Hospício:
“Não quero morrer; quero outra vida”.
A sua outra vida se tornou esta posteridade.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

