Antes de embarcar para a Rússia, como divulgou, Nicolás Maduro liga para Lula

"Ouviu o que sabia que ouviria: a crescente preocupação dos países da América do Sul sobre a questão do Essequibo", relata Denise Assis

Lula e Nicolás Maduro
Lula e Nicolás Maduro (Foto: Ricardo Stuckert/PR | REUTERS/Leonardo Fernandez Viloria)


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Com um pé no avião para embarcar para a Rússia, conforme foi amplamente divulgado, o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, hesitou. Sabe que ao cruzar os ares em busca do apoio de Putin, estará ampliando o conflito que ele agravou, ao organizar um plebiscito em seu país, para unir os venezuelanos em torno da causa da anexação de 74% da Guiana Inglesa, onde uma jazida de petróleo na margem equatorial multiplicou o PIB daquele país, elevando a arrecadação em 48%.

O resultado do plebiscito – questionável, pois a oposição alega que apenas 50% votaram, e não há, para os de fora, como dimensionar isto -, deu 96% de moral para Maduro, o que o animou a ir em frente na disposição de disputar o naco da Guiana Inglesa.

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Acontece que tinha um Brasil no meio do caminho. Do ponto de vista das relações externas, Maduro atrapalhou, e muito, um dirigente que lhe estendeu a mão em um momento de grande dificuldade e isolamento. Tão logo tomou posse, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva convidou Maduro para uma visita oficial, que pretendia trazê-lo para o diálogo com os seus pares da América do Sul, de quem andou afastado. Foi assim que, em troca, ao receber os líderes do Mercosul, no Rio de Janeiro, nesta semana, Lula teve o seu evento anuviado pelas estrepolias de Maduro.

No mínimo por gratidão – Lula apanhou muito da mídia tradicional, que foca nas atitudes autoritárias de Nicolás Maduro, sem aliviar um milímetro, levando em conta os apuros por que passa um país alvo de sanções estadunidenses –, para tentar reintegrar a Venezuela no conjunto de países vizinhos. Mesmo assim, o líder venezuelano seguiu adiante com a sua pauta, ignorando as dificuldades que criava para a liderança de Lula na região, num momento em que se discutia exatamente a integração comercial e das relações de amizade. Pouco se importou em turvar o brilho do encontro. Lula, com a perspicácia de sempre, tocou o evento e aproveitou a presença de todos para divulgar uma nota conclamando à paz na região. Somente a Bolívia e o Suriname ficaram de fora do documento.

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Enquanto isto, no calor dos acontecimentos, o presidente da Guiana, Ifaan Ali buscava dizer ao mundo que Lula estava ao seu lado. Talvez temendo a proximidade do presidente brasileiro com Maduro, numa eventual rodada de negociação. Ao mesmo tempo, recebia a ajuda dos EUA, a quem interessa defender a terra onde vivem 120 mil pessoas, mas, principalmente, de onde jorram desde 2015, cerca de 11 bilhões de barris de reservas provadas de petróleo bruto, ou cerca de 0,6% do total mundial, para os dutos da empresa estadunidense ExxonMobil.

É certo que Ifaan Ali estava na agenda para um encontro com Lula em Dubai, durante a COP-28, mas teve de retornar urgente para o seu país, exatamente para tentar estancar a sangria da escalada provocada pelo plebiscito organizado por Maduro, na Venezuela. É também efetivo que o presidente do Brasil enviou há cerca de duas semanas, o assessor especial da Presidência Celso Amorim para conversar com Maduro em Caracas e pedir que o governo venezuelano baixasse o tom, o que não aconteceu. Pelo contrário. Nesse caso, entrou em cena o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, que por telefone fez o dever de casa: ouviu os dois lados. Falou tanto com o seu par, o chanceler da Venezuela, Yvan Gil, quanto conversou com o presidente da Guiana, Ali.

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O que todos se perguntaram depois de finda uma semana em que os fatos só esquentaram, foi: para onde iria Nicolás Maduro? Audacioso, ele mandou dizer ao mundo que iria para a Rússia, buscar apoio – necessariamente bélico, pois se buscasse diálogo, os vizinhos seriam mais eficientes.

Sem aliviar para Maduro, Lula convocou a Defesa e mandou distribuir tropas pelo único caminho viável (a cidade de Pacaraima, em Roraima), para a Venezuela alcançar as margens do rio Essequibo, onde fincaria a sua bandeira. Ao mesmo tempo, sugeriu que o presidente de turno da Comunidade dos Estados Latino-Americanos e Caribenhos (CELAC), Ralph Gonsalves, trate do tema com as duas partes.

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O presidente venezuelano sentiu o golpe. Nesta manhã de sábado (09/12), ligou para o presidente Lula e ouviu o que sabia que ouviria: a crescente preocupação dos países da América do Sul sobre a questão do Essequibo. Lula expôs os termos da declaração sobre o assunto aprovada na Cúpula do Mercosul e assinada por Brasil, Uruguai, Paraguai, Argentina, Colômbia, Peru, Equador e Chile. Recordou a longa tradição de diálogo na América Latina e deixou claro que somos uma região de paz.​

Fez um chamado ao diálogo e novamente sugeriu que o presidente de turno da Comunidade dos Estados Latino-Americanos e Caribenhos (CELAC), Ralph Gonsalves, se incumba da questão.

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Ressaltou, também, que é importante evitar “medidas unilaterais que levem a uma escalada da situação”.

Não se sabe o que vai na cabeça de Maduro. Tampouco se manteve a viagem programada para a Rússia, onde deve tratar de apoio bélico. O que se pode subentender daí é que o Brasil não está para as manobras e pleitos imprevisíveis de Maduro, que escolheu péssima hora para mover com o mapa da região, atraindo para cá a mira dos mísseis da OTAN, sempre dispostas a comprar uma briga no quintal alheio.

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Espera-se que Maduro esteja apenas blefando, para levar, numa mesa de negociações, uma parcela significativa do petróleo de Essequibo, em sua opinião, pertencente à Venezuela. Se for assim, eles que se entendam, sem nos arrastar para uma briga na qual só temos a perder. O país e a América do Sul.

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