Antes de içar o machado, o carrasco suplica ao condenado: “Você me perdoa?”

O carrasco ordena ao condenado que se ajoelhe e acople o pescoço ao talhe de madeira. Antes de içar a lâmina de seu machado, o carrasco suplica ao condenado: “Você me perdoa?”.

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(Foto: Luanna Falcão)
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Madri, dezembro de 2012, museu do Prado.

Ao deparar com o quadro Saturno devorando a um de seus filhos, do mestre espanhol Francisco de Goya y Lucientes, eu me lembro da sina de Natália, uma amiga querida a quem já não via há alguns anos. 

No quadro de Goya, um deus Saturno de cabelos desgrenhados, olhos vidrados e fúria totalmente tresloucada canibaliza o que resta do corpo de um de seus filhos como uma cloaca - a bocarra escancarada do pai canibal acabara de decapitar sua própria cria. (Não à toa, as pinceladas convulsas de Goya me golpeiam como ondas sônicas propagadas pela explosão do infanticídio.)

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Como uma filha de Saturno, Natália era acometida por uma doença autoimune, isto é, uma enfermidade que incita o sistema imunológico contra o próprio corpo que deveria defender, já que os glóbulos brancos, como sentinelas paranóicas, acreditam que as células, tecidos e órgãos são, na verdade, espiões estrangeiros prestes a dinamitar a saúde do anfitrião incauto que lhes deu guarida.

 A doença autoimune de Natália leva às últimas consequências o apocalipse de Goya: a cada ofensiva dos leucócitos contra seu próprio cérebro, sequelas potencialmente irreversíveis podem irromper, como os escombros humanos e cubistas a que a cidade de Guernica, eternizada pela tela-resistência de Pablo Picasso, se viu reduzida após os bombardeios criminosos da força aérea franquista em meio à guerra civil espanhola. 

 Saturno devorando a uma de suas filhas?

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 Não. 

 Saturno devorando a si mesmo.

 Em um dos ataques da doença onívora, Natália ficou radicalmente estrábica, como se seus olhos tivessem sido exilados em guetos incomunicáveis pelos decretos de um ditador. 

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 Em outro ataque - Natália começava a tremer como um cordeiro acossado por mil lobos com a mera nesga de memória do que lhe acontecera -, a doença autoimune sitiara o centro nervoso responsável pela respiração, e ela começou a ser asfixiada desde dentro, como se seus pulmões tivessem sido convertidos em uma câmara de gás.

Um dos ditos mais sádicos e cínicos com que já deparei ao estudar o bestiário da história humana vem dos carrascos que exerciam seu ofício mórbido sob o cetro do rei inglês Henrique VIII. 

O carrasco ordena ao condenado que se ajoelhe e acople o pescoço ao talhe de madeira. Antes de içar a lâmina de seu machado, o carrasco suplica ao condenado: “Você me perdoa?”.

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Ainda que torne indiscerníveis cinismo e morbidez, o carrasco real não dilacera e devora o próprio corpo. Cabe à doença autoimune a fusão mais umbilical e incestuosa entre o cordeiro e o lobo, o condenado e o carrasco, a cura e o pus, a sobrevivência e o suicídio, a vida e a morte. É como se o útero, o ninho da vida, lançasse mão do cordão umbilical para enforcar o feto. 

Numa das últimas vezes que conversamos - um arrepio gélido escala cada uma de minhas vértebras e morde minha nuca como um inseto peçonhento sempre que me lembro de tal ocasião -, Natália me disse, já sem lágrimas para desaguar sua revolta, que estava cansada - existencialmente cansada, mortalmente cansada. Súbito, ela engatilha os olhos em minha direção e sentencia:

Eu sou uma granada, uma granada que não explode. Pode ser implodida a qualquer momento. Eu sou um revólver, eu sou o tambor do revólver, eu sou a única bala que um maluco coloca no tambor do revólver para fazer roleta russa - eu sou o maluco e eu sou a roleta russa! Hoje, eu ainda não morri - é como um espaço vazio no tambor que eu sou do revólver que eu também sou. Amanhã - ou daqui a pouco, aqui com você -, a bala pode estar lá. Então, Ricardo, na próxima vez que você disser que está sofrendo, lembre-se de mim. 

 Ilustração de Luanna Falcão. Sigam seu Instagram: https://www.instagram.com/luanna.artworks/

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