Washington Araújo avatar

Washington Araújo

Mestre em Cinema, psicanalista, jornalista e conferencista, é autor de 19 livros publicados em diversos países. Professor de Comunicação, Sociologia, Geopolítica e Ética, tem mais de duas décadas de experiência na Secretaria-Geral da Mesa do Senado Federal. Especialista em IA, redes sociais e cultura global, atua na reflexão crítica sobre políticas públicas e direitos humanos. Produz o Podcast 1844 no Spotify e edita o site palavrafilmada.com.

402 artigos

HOME > blog

Ao recitar Whitman, Serrat expõe o erro das nossas medidas

Entre um fiapo de grama e o curso das estrelas, Whitman desmonta hierarquias e Serrat devolve à palavra o espaço onde o silêncio completa o sentido

Nem toda grandeza chega fazendo barulho, e talvez por isso tantas passem despercebidas num mundo que confunde intensidade com volume e presença com insistência. Em 1974, Joan Manuel Serrat (1943–) — nascido em Barcelona, uma das vozes mais influentes da canção ibérica contemporânea, conhecido por transitar entre poesia e música — optou por recitar em vez de cantar, criando um espaço raro em que a palavra pudesse respirar sem urgência. Nesse intervalo, os versos de Walt Whitman (1819–1892) — poeta do século XIX, autor de Leaves of Grass e uma das vozes fundadoras da modernidade literária nos Estados Unidos — ocuparam o centro com naturalidade, enquanto a música, ao recuar, parecia reconhecer que havia ali algo que não precisava ser ampliado, apenas escutado com atenção.

Whitman não escreve para tornar o mundo mais bonito nem para buscar impacto imediato; ele escreve para ajustar o olhar. Ao afirmar que um fiapo de grama não é menor que o caminho das estrelas, não propõe uma imagem decorativa, mas corrige uma escala silenciosa que aprendemos a aceitar sem questionar. O que parecia pequeno não cresce, não se transforma em algo maior, apenas deixa de ser visto como inferior, e essa mudança altera a forma como nos relacionamos com o que nos cerca.

A sequência de imagens — a formiga, o grão de areia, o ovo do sabiá — não funciona como preenchimento, mas como afirmação contínua de presença. Cada elemento sustenta um mundo inteiro, lembrando que o real não se organiza pelo que chama mais atenção, mas pelo que existe com plenitude, ainda que passe despercebido.

Já faz tempo que as máquinas ampliam tudo — velocidade, alcance, repetição —, e, com isso, torna-se mais difícil perceber aquilo que não se impõe de imediato. Ao escrever que a menor articulação da mão pode humilhar todas as máquinas, Whitman não exalta o humano por vaidade, mas delimita um campo que a técnica não alcança: o da consciência do gesto, da escolha, da hesitação.

A imagem da vaca, de cabeça baixa, superando todas as estátuas, não oferece explicação nem pede interpretação rápida. A estátua foi feita para durar e ser vista, para afirmar memória; a vaca simplesmente existe, e, ainda assim, há nela uma inteireza que nenhuma construção consegue fixar. O que está em jogo não é oposição entre natureza e cultura, mas a diferença entre aquilo que precisa parecer e aquilo que simplesmente é.

Quando Serrat recita esses versos, temos aí um momento em que a música se recolhe o suficiente para que a palavra permaneça, e esse gesto reorganiza a experiência sem chamar atenção para si. Talvez por isso o aplauso imediato soe inadequado, não por falta de admiração, mas porque interrompe algo que ainda está em curso, algo que continua a se formar dentro de quem escuta.

Certas experiências que pedem intervalo, um tempo em que as palavras possam repousar antes de serem convertidas em resposta. Whitman chama a vida humana de a maior das maravilhas sem separá-la do mundo, aproximando-a do que é mínimo e vivo, e, com isso, impõe uma exigência silenciosa: abandonar grandezas construídas sobre a diminuição do restante.

Serrat compreendeu isso naquele palco, e talvez tenha compreendido também que há momentos em que o maior elogio não está no som das mãos, mas no silêncio que permanece quando já não há o que acrescentar. É nesse intervalo, discreto e persistente, que um fiapo de grama encontra o seu lugar.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.