Aos 50, a única regra sobre como se vestir é que não há regras

"Tenho 52 anos. E nunca me senti tão livre quanto agora para me vestir. A despeito destas regras todas, o que está dentro de uma mulher de 50 é justamente o contrário: a sensação de que ela pode fazer (e usar) o que quiser", escreve a jornalista Cynara Menezes, do Jornalistas pela Democracia

Por Cynara Menezes, no Socialista Morena e para o Jornalistas pela Democracia 

Em abril, a supermodelo dinamarquesa Helena Christensen, que acabou de completar 51 anos, foi criticada pela ex-editora da Vogue britânica, Alexandra Shulman, por aparecer usando um bustiê na festa de sua colega, a também modelo Gigi Hadid. “Desculpa, Helena, mas você é velha demais para usar isso”, sentenciou.

Óbvio que muita gente protestou e a própria modelo lamentou que viesse justamente de uma mulher esse tipo de ataque. “São sempre mulheres que perguntam a idade (em uma entrevista). Homens nunca falam desse assunto, porque os homens não estão nem aí, mas uma editora, uma jornalista ou uma escritora mulher irão mencionar isso. É tão estranho como não nos ajudamos”, disse.

Nunca me senti tão livre quanto agora para me vestir. A despeito destas regras todas, o que está dentro de uma mulher de 50 é justamente o contrário: a sensação de que ela pode fazer (e usar) o que quiser

Desde os 20 eu ouço esse tipo de regras. “Uma mulher depois de certa idade não pode usar minissaia ou roupa curta”. “Mulher depois dos 50 não fica bem com cabelo comprido demais. Cabelo curto deixa a mulher mais nova.” “Mulher com 50 anos não pode usar roupa apertada.” Mulher de 50 não pode, não pode, não pode…

Tenho 52 anos. E nunca me senti tão livre quanto agora para me vestir. A despeito destas regras todas, o que está dentro de uma mulher de 50 é justamente o contrário: a sensação de que ela pode fazer (e usar) o que quiser. Há algo no passar do tempo que faz a gente se importar cada vez menos com o que os outros pensam e cada vez mais em não abrir mão de quem somos. A única regra é que não há regras.

Acho que era isso que se chamava de “rabugice” em relação aos velhos “teimosos”. Teimosos por quê? Por só fazer o que tem vontade? Por não se sentir obrigado? Isso é liberdade. Lembro de, aos 35, ter escrito um artigo em que falava da minha inveja dos velhinhos que não estavam dispostos a fazer mais nenhuma concessão na vida. Nenhumazinha. Acho que vou chegar lá.

Há algo no passar do tempo que faz a gente se importar cada vez menos com o que os outros pensam e cada vez mais em não abrir mão de quem somos. A única regra é que não há regras

Hoje de manhã vi uma senhora no supermercado de uns 65 anos, usando uma camisa de botão amarrada na cintura. Dava para ver um pedaço da barriguinha dela e tudo. E o que é que tem? Não é maravilhoso quando você pega no guarda-roupa algo que quer vestir e sai por aí sem a menor preocupação de agradar alguém a não ser a si mesma?

Eu raramente usei short esportivo antes. Tinha vergonha de sair de short, principalmente por conta do assédio masculino na rua. Agora, que nem tenho mais as pernas de uma “novinha”, eu ando todos os dias pela rua com meu shortinho, sem dar a mínima para o que irão pensar. É gostoso andar de short, as pernas tomam sol e é fresquinho. Por que parar? Alguém tem algum poder para decidir isso ou sou eu que decido?

Gosto de usar meus cabelos compridos, secos ao natural, sem escova. Quem é que inventou que mulher mais velha não pode ter cabelo longo, gente? A mulher também era cobrada a pintar os cabelos “porque rejuvenesce”, enquanto o homem “é charmoso grisalho”, mas hoje muitas assumiram os fios brancos. Pintar ou não pintar os cabelos passou a ser uma decisão da mulher, não uma obrigação para nós. Pequenas escravidões das quais nos libertamos.

Acho que aos 50, com sabedoria, começamos a nos tornar de fato quem a gente é. Daí esse sentimento de liberdade sobre se vestir, sobre como se comportar ou como ser. A única pessoa a quem você precisa prestar contas é a você mesmo

Além do mais, à medida em que a gente vai ficando mais velha, vai tendo mais segurança sobre que tipo de roupas gostamos realmente de usar e quais nos favorecem. Hoje, sei exatamente o que fica bem em mim e o que não fica. Nunca mais comprei coisas que ficam encalhadas no guarda-roupa porque não tem nada a ver comigo. Então, quando a gente fica mais especialista em produzir a nós mesmas com as roupas que mais gostamos, temos que parar de usar algumas peças em função da idade? Não parece nada lógico isso.

Aos 50 pode andar de bicicleta? Pode. Pode jogar futebol? Pode. Pode aprender a tocar atabaque? Pode. Pode sair para dançar? Deve. Pode brincar de pega-pega? Pode. Pode usar fantasia? Pode. Pode ir à praia de biquíni? Claro. Aos 50 (e aos 60, aos 70, aos 80…) a mulher pode fazer tudo que ela quiser, o que não pode é forçar a natureza, forçar a barra de si mesma, fingir ser o que não é. Se for para agradar os outros, então, piorou.

Nietzsche fala sobre “como a gente se torna quem a gente é”. Acho que aos 50, com sabedoria, começamos a nos tornar de fato quem a gente é. Daí esse sentimento delicioso de liberdade sobre se vestir, sobre como se comportar ou como ser. A única pessoa a quem você precisa prestar contas é a você mesmo. Vale em qualquer idade, mas aos 50 é como se isso fosse marcado em seu corpo feito tatuagem, que ninguém pode apagar.

Aliás, pode fazer tatuagem aos 50? É lógico que pode.

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