Aos 50 anos, o G7 administra o próprio declínio
Os sete já foram ultrapassados pelos BRICS em participação na economia global e tentam preservar influência em um mundo cada vez mais fragmentado
Em novembro de 1975, seis chefes de governo se fecharam no castelo de Rambouillet para enfrentar uma crise que nenhum deles conseguia administrar sozinho. O choque do petróleo de 1973 quadruplicara o preço do barril, o sistema monetário de Bretton Woods havia ruído dois anos antes e a inflação corroía as economias ocidentais. O presidente francês Valéry Giscard d’Estaing reuniu Estados Unidos, Alemanha, Reino Unido, Itália e Japão em um arranjo deliberadamente informal, sem sede, sem tratado e sem burocracia permanente. O Canadá ingressaria no ano seguinte, completando o grupo que passaria à história como G7.
A proposta original era simples: coordenar políticas econômicas entre as maiores democracias industrializadas para estabilizar moedas, juros e comércio. Durante décadas, a fórmula funcionou. O Acordo do Plaza, em 1985, reorganizou os mercados cambiais; nos anos 1990, o grupo patrocinou programas de alívio da dívida dos países mais pobres e ampliou sua agenda para temas como terrorismo e proliferação nuclear.
Foi também o período de máxima influência dos sete. Com a União Soviética dissolvida e a China ainda distante da posição que ocupa hoje, o bloco concentrava a maior parte da riqueza mundial e exercia enorme influência sobre organismos como o Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial. A entrada da Rússia, em 1997, parecia simbolizar a consolidação definitiva de uma ordem internacional liderada pelo Ocidente. A experiência terminou em 2014, após a anexação da Crimeia.
Cinco décadas depois, o cenário é outro. Reunidos esta semana em Évian-les-Bains, sob a presidência de Emmanuel Macron, os integrantes do G7 representam pouco mais de um quarto da economia mundial medida por paridade de poder de compra. Os BRICS ultrapassaram essa participação em 2018 e continuam ampliando sua presença. A diferença demográfica é ainda mais expressiva: enquanto os sete reúnem menos de 10% da população do planeta, o bloco emergente abriga perto de metade da humanidade.
O dinamismo econômico também mudou de endereço. As economias maduras do G7 crescem lentamente, enfrentam envelhecimento populacional e carregam níveis elevados de endividamento público. O peso que preservam decorre sobretudo da renda elevada, da produtividade, da força de suas moedas e do papel central que seus bancos centrais continuam exercendo sobre o sistema financeiro internacional.
Declarar a irrelevância do grupo, contudo, seria precipitado. Em valores nominais, o G7 ainda responde por parcela significativa do PIB global. O dólar, o euro, o iene e a libra continuam sustentando reservas internacionais e servindo de referência para o comércio mundial. Na prática, porém, a influência do bloco tornou-se cada vez mais dependente dos Estados Unidos, cuja economia supera a soma dos demais integrantes.
O Brasil acompanha essa transformação de uma posição singular. Convidado frequente das cúpulas, nunca se tornou membro permanente. As participações brasileiras se limitam às sessões de engajamento externo, nas quais os países convidados podem contribuir para os debates, mas não participam da redação dos comunicados finais.
Neste ano, a presença de Lula em Évian possui uma dimensão adicional. O governo brasileiro busca consolidar a distensão recente nas relações com Washington depois de meses de atritos comerciais e políticos. O Planalto trabalha para transformar a atual trégua em entendimento mais duradouro, evitando novas medidas tarifárias americanas. Ao mesmo tempo, Brasília preserva a estratégia diplomática tradicional de manter canais de diálogo abertos, especialmente com o segundo maior destino das exportações brasileiras.
Os sinais de desgaste do G7 vão além da economia. A expulsão da Rússia, as divergências sobre Gaza e Ucrânia, a ausência de uma posição comum diante da China e as disputas tarifárias promovidas pelo próprio Donald Trump revelam um grupo que gasta parte crescente de sua energia tentando produzir consensos internos antes de se apresentar ao restante do mundo.
A comparação com os BRICS costuma ser inevitável, mas ela exige cautela. O bloco emergente reúne países de sistemas políticos distintos, interesses muitas vezes conflitantes e rivalidades estratégicas importantes, especialmente entre China e Índia. O crescimento econômico ampliou seu peso internacional, mas ainda não produziu instituições equivalentes às construídas pelo Ocidente no pós-guerra.
Mesmo assim, a expansão dos BRICS foi suficiente para encerrar o monopólio de influência exercido pelos sete durante décadas. O mundo multipolar já é uma realidade; o formato definitivo dessa nova ordem ainda permanece em aberto.
O que Évian simboliza é a transição entre duas épocas. O grupo criado em Rambouillet para administrar uma crise específica tornou-se, cinquenta anos depois, gestor da própria longevidade. O centro de gravidade da economia mundial mudou, a distribuição do poder tornou-se mais difusa e nenhum bloco isoladamente consegue mais impor as regras do jogo.
Talvez a imagem mais reveladora da cúpula de 2026 seja justamente esta: um presidente brasileiro que atravessa o Atlântico em busca de uma conversa com o líder da maior potência do planeta — líder que sequer pertence formalmente ao grupo reunido na França.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

