"Apocalypse Now" e a civilização do massacre
Crítica à herança colonial e à lógica de guerra que ainda sustenta a ordem internacional e a política externa das potências ocidentais contemporâneas
Aqueles que assistiram à obra-prima de Francis Ford Coppola lembram da primeira cena: ao som da música da banda “The Doors” — “The End”, “O fim” — as hélices dos helicópteros passam em câmara lenta em frente a uma floresta aparentemente inexpugnável e insólita, até o momento em que as chamas de “napalm” tomam conta de todo o cenário, transformando a floresta em fogo e cinzas. O “horror” da guerra representado na obra-prima de Coppola com base na inspiração de uma outra obra-prima da literatura: “Coração das Trevas”, de Joseph Conrad. Diretores e escritores sempre tentaram usar da arte e da literatura para alertar sobre a estupidez da humanidade… infelizmente, sem grandes resultados.
O último discurso do estúpido Secretário de Estado Marco Rubio — o típico latino-americano com complexo de “vira-lata” — na Conferência de Segurança de Munique já mostrava um prólogo do que estava por vir: a recolonização brutal do Sul Global com o aval — e a união — das elites europeias que o aplaudiram efusivamente. Enquanto os mais altos dignitários da União Europeia o aplaudiam em Munique, a democracia ocidental, tão propalada e defendida pelos altos padrões ocidentais de direitos humanos, era enterrada debaixo dos escombros da hipocrisia “europeu-anglo-saxônica”, representada nas palavras de apoio de “lideranças acéfalas” como Kaja Kallas e Ursula von der Leyen. Finalmente, as nuvens não conseguem mais cobrir o Sol, e a verdade surge tal qual uma espada de Dâmocles que despenca sobre as cabeças dos iludidos e dos ingênuos defensores da “santidade” das Nações Unidas, do “mundo kantiano” e do “desenvolvimento sustentável da humanidade”. A verdade absoluta surge tal qual o monstro da lagoa: o que define e sustenta o sistema interestatal capitalista é a guerra e o poder das armas. “A guerra é o pai de todas as coisas”… como dizia Éraclito de Éfeso em 500 a.C.
Marco “gusano” Rubio, em seu discurso em Munique, afirmou, de forma ridícula e acachapante, que suas origens europeias — acho que falou algo em ser “italiano” (pausa para risos) — eram motivo de grande orgulho, assim como a expansão “civilizatória” pelo mundo afora desde que Cristóvão Colombo aportou em uma pequena ilha caribenha e deu início a um dos maiores genocídios da História. Para o Secretário de Estado, o genocídio causado no continente americano — em algumas regiões, como o litoral do Brasil contemporâneo e a Cordilheira dos Andes, cerca de 80 a 90% da população foi dizimada nos primeiros anos, segundo os últimos estudos — fruto da colonização, são motivo de orgulho e admiração, entornando palavras alucinantes tal qual um vinho barato comprado na esquina mais próxima, diante de uma plateia que (apesar da costumeira arrogância europeia) mal conseguia esconder a estupefação de tamanho descaro (afinal, é preciso preservar as aparências…). Faltou apenas a Rubio propor a canonização de Francisco Pizarro e Hernán Cortés como anjos enviados dos céus para salvar os pagãos da América, enviando suas almas ao paraíso. Diz o ditado popular que o inferno está cheio de almas com boas intenções, mas o “gusano” chegou a um novo patamar. Na realidade, esta é de fato a essência do fascismo — transformar tudo que é escatológico em nobreza.
Tzvetan Todorov, em sua obra de destaque “A Conquista da América”, fez questão de descrever a luta pela sobrevivência que os indígenas tiveram que travar contra os invasores europeus, assim como os poucos religiosos que, mesmo vendo-os como pagãos a ser evangelizados, ficaram assombrados com o grau de crueldade e os massacres perpetrados pelos invasores. Os indígenas haviam sido reduzidos a “sub-humanos” a serem abatidos por qualquer razão: às vezes até mesmo para testar se uma espada estava devidamente afiada. Os europeus colocaram os indígenas em uma categoria animalesca sem nenhum tipo de humanidade. Não é por acaso que o religioso Bartolomé de Las Casas, um dos maiores defensores dos indígenas nas primeiras décadas da colonização, afirmava que os espanhóis iriam para o inferno, porque o que faziam não era digno de “filhos de Deus”. Queimavam aldeias inteiras, matavam crianças com seus sabres ainda no ventre das mulheres, atiravam recém-nascidos contra as rochas e decepavam os membros dos indígenas por nenhum motivo aparente — estes são os ídolos de Marco Rubio, seus “tão orgulhosos” ancestrais — afinal ele é um europeu “puro” de alta estirpe, faltou apenas dizer que era “ariano”. Não, não… é preciso manter as aparências, os nazistas foram os outros… Nós somos a civilização, e nossa missão — divina? — é civilizar os bárbaros da América Latina, os selvagens do Oriente Médio etc.
Na obra de Tzvetan Todorov é possível encontrar relatos muito elucidativos sobre quem eram os verdadeiros selvagens, assim como o verdadeiro significado do desenvolvimento da civilização ocidental. Todorov distingue a “civilização do sacrifício” da “civilização do massacre”. A questão do sacrifício humano sempre foi um tabu no que diz respeito aos povos indígenas, seja entre o público leigo e até mesmo entre historiadores e antropólogos. O sacrifício humano — principalmente entre os astecas — foi uma das maiores justificativas para a conquista por parte dos cronistas e evangelizadores. O teólogo do século XVI, Juan Ginés de Sepúlveda, era um dos maiores defensores da “guerra justa” para “salvar” aqueles que eram sacrificados e civilizar os “selvagens” de suas práticas pagãs e dos costumes contra as “leis de Deus”. De fato, o sacrifício humano nas Américas é um fato incontestável na História e, apesar de não haver sido uma prática “geral” entre todos os povos “americanos”, o seu uso — principalmente entre os astecas — foi usado para justificar a invasão e o saque perpetrado pelos europeus. Sendo um tabu do ponto de vista “católico-cristão”, o sacrifício humano ainda hoje é contestado e posto em dúvida por alguns historiadores e antropólogos — ou guias de turismo em Machu Picchu — justamente por ter sido usado como justificativa da incalculável mortandade indígena — “todos cometem atrocidades” — e por ser julgado por uma lente moralista e hipócrita. Todorov, com certa maestria, demonstra a hipocrisia perante o julgamento moralista do sacrifício humano… a mesma hipocrisia que hoje aplaude Rubio em Genebra. Ao distinguir a civilização do sacrifício — a indígena — da civilização do massacre — a europeia — Todorov traz à luz uma distinção moral que não apenas é falsa, mas também desonesta: alguns povos da América de fato praticavam o sacrifício humano dentro de um código de valores pré-estabelecido… mas a civilização europeia trouxe o assassinato em massa como um novo paradigma, sem nenhum código de conduta, nenhum código de valor: esta seria a “civilização do massacre”. Todorov demonstra que o fato de os astecas e outros povos cometerem sacrifícios em nada os torna mais selvagens que os europeus, muito pelo contrário. A morte e a violência sempre esteve em paralelo com o desenvolvimento da civilização: a guerra sempre foi o motor do avanço “civilizatório”. Na realidade, como os indígenas detinham um juízo de valor e um código de conduta — mesmo no que diz respeito à prática do sacrifício — isto estaria em um patamar superior no que diz respeito tanto à “moral” quanto a um nível “civilizatório”: os europeus usavam de seus sabres em mulheres grávidas apenas pelo prazer do sofrimento alheio — um nível inferior ao dos animais… considerando que estes últimos agem apenas por instinto e não possuem o sentimento sádico de proporcionar a dor e o sofrimento naqueles que são da sua mesma espécie. A morte no Reino Animal sempre foi uma questão de sobrevivência. O sacrifício humano entre os povos indígenas sempre esteve relacionado ao religioso. O massacre europeu sempre esteve ligado à cobiça e à crueldade. Afinal, qual desses é o mais selvagem? Ou o mais imoral? E qual desses ainda persiste? Na realidade, Todorov quis demonstrar que a civilização — mais propriamente a civilização europeia — é uma “civilização selvagem”. E parece que não tem evoluído desde então, apenas estendeu a magnitude dos massacres a níveis exponenciais com a tecnologia de guerra.
A “civilização do massacre” — a mesma que aplaudiu Marco Rubio — persiste no mundo, cometendo seus genocídios mundo afora. “Sepúlveda” Rubio, e muitos outros “evangelizadores” da “missão divina” de pilhar e destruir, seguem em defesa desta “civilização” nos meios de comunicação mais conhecidos: BBC, CNN, SKY NEWS, FOX NEWS, New York Times, Guardian etc. Todos os jornalistas da imprensa corporativa são “evangelizadores” que, tal qual Juan Sepúlveda no século XVI, justificava a “guerra justa”, o massacre e o genocídio. E assim como Sepúlveda, são criminosos perante a História pelos crimes cometidos contra os povos do continente americano, os povos africanos, o Oriente Médio, a Palestina e agora o Irã. A cobiça “europeu-anglo-saxônica” parece não ter fim na História. Quando não massacram outros povos, “massacram-se” entre si — como foi na Segunda Guerra Mundial. Neste momento, depois do discurso de Marco Rubio, estão todos em harmonia para recolonizar o mundo… e massacrar. A vítima da vez é o povo iraniano — na realidade o Irã trava uma guerra não declarada desde 1979, ano de sua independência. A Palestina foi a quebra do paradigma de massacres da “Era Contemporânea” pós-1945: o recente bombardeio e destruição de uma escola, e a morte de mais de 160 meninas e professoras, demonstra esta triste realidade. Depois um ataque aniquilou todo um time de voleibol feminino de adolescentes. Assim como fizeram com os indígenas, agora estão exterminando o povo iraniano. A imprensa internacional segue impávida sobre estes massacres. A impudência da mídia corporativa não possui limites.
Enquanto avançam as hordas dos cavaleiros do apocalipse de Washington e do Complexo Militar, tal como bestas sedentas de sangue; enquanto Keir Starmer, Emmanuel Macron, Kaja Kallas e Ursula von der Leyen, defensoras da superior moral europeia, se colocam perfilados junto com Donald Trump; enquanto o Ocidente nutre e apoia “cortadores de cabeça” na Síria e qualquer organização ou país mercenário — como faziam os “conquistadores” — em qualquer região do planeta para massacrar e pilhar em nome da “missão civilizatória”, o Irã resiste. Nos contrafortes da resistência iraniana estão os BRICS, o Sul Global e todos aqueles que serão “recolonizados”, como disse o Secretário de Estado “Gusano Ítalo-Ariano”. Enquanto isso, as forças armadas iranianas bloqueiam o Estreito de Hormuz, já aumentando em 10% o preço internacional do petróleo — o sangue que jorra nas artérias da civilização ocidental. Nas ruas da capital e nas outras cidades do país, como bem testemunha o professor Mohammad Marandi, acadêmico e professor de literatura da Universidade de Teerã, grupos de centenas — e até milhares de pessoas — se juntam em juramento de que, antes da rendição, escolhem ser mártires da maior causa de suas vidas: a independência e sobrevivência de sua nação. Alastair Crooke, ex-MI6, já vaticinou que o objetivo final é mais que a “mudança de regime”: trata-se da balcanização e da total destruição do Irã — como fizeram na Líbia e na Síria. Inclusive já foram escritas distintas “constituições” para as diversas “nações” que seriam criadas num possível futuro de um país derrotado e fraturado. Este é o objetivo final: cria-se o caos e a destruição de uma cultura, para que o saque possa ser feito sem nenhuma resistência. Como a guerra anda de mãos dadas com a expansão capitalista interestatal, depois do Irã viria todo o resto do Sul Global. O importante é o saque dos recursos naturais para manter o dólar como moeda internacional e os altos padrões de vida da elite “Epstein”, para que assim possam continuar estuprando jovens e meninas em suas ilhas paradisíacas, enquanto “Hollywood” — a igreja evangelizadora global por excelência — continue pregando as maravilhas do mundo ocidental, seus valores universais nos filmes da “Marvel” e, principalmente, que os nazistas e os bárbaros são “os outros”.
A guerra que os “cavaleiros do apocalipse” iniciaram ao bombardear com 6 mísseis um chefe de Estado octogenário — e um dos principais líderes religiosos do Islã — em sua residência em Teerã junto com sua família, em um ato de inquestionável selvageria, pode ser o prelúdio da Terceira Guerra Mundial — e todos aqueles que vivem no “mundo líquido” de Bauman, sem se importar com a morte de milhares do outro lado do planeta, podem ter um choque de realidade sem precedentes na Era Contemporânea. Ou, como diz o eminente economista Michael Hudson, talvez o bloqueio do Estreito de Hormuz termine essa guerra em algumas semanas com a vitória inconteste de mais um país asiático contra o Ocidente coletivo. Acho que não preciso mais dizer quem são os verdadeiros selvagens e quem são aqueles que lutam pela preservação da humanidade. Como bem dizia Heráclito, “a guerra é o pai de todas as coisas”, e desta surgem deuses, reis, escravos e homens livres.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.
