Apresentamos a Nova Moeda de Reserva Global Baseada em Recursos

"Uma nova realidade vem sendo criada: o mundo unipolar vai, irrevogavelmente, se tornando coisa do passado, e um mundo multipolar vem tomando forma"

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(Foto: Reuters)


Por Pepe Escobar 

(Publicado no site Strategic Culture, traduzido por Patricia Zimbres para o Brasil 247)

Foi algo digno de se ver. Dmitri Medvedev, ex-presidente russo, atlanticista impenitente,  atual vice-presidente do Conselho de Segurança Russo, decidiu improvisar em uma explosão comparável à de Mr. Khinzal, a estrela do combate, que desferiu choque e terror palpáveis abalando todo o OTANistão. 

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Medvedev disse que as "infernais" sanções ocidentais não apenas falharam em sua intenção de paralisar a Rússia, como também, muito pelo contrário, estão retornando sobre o Ocidente como um bumerangue". A confiança nas moedas de reserva está "se esvaindo como a bruma da manhã", e que abandonar o dólar e o euro deixou de ser irrealista: "A era das moedas regionais está a caminho".  

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Afinal, acrescentou ele, "quer queiram quer não, eles terão que negociar uma nova ordem financeira (...), e  a voz decisiva será a dos países com uma economia forte e avançada, contas públicas saudáveis e um sistema monetário confiável".  

Medvedev proferiu essa sucinta análise antes mesmo do Dia D - quer dizer, antes do prazo final desta quinta-feira estabelecido pelo Presidente Putin, depois do qual todos os pagamentos pelo gás russo por "nações inamistosas" só seriam aceitos em rublos.  

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O G7, previsivelmente, encenou uma valentia coletiva: nós não iremos pagar. "Nós", aqui, significa os quatro países que não são grandes importadores de gás russo. "Nós", além disso significa o Império das Mentiras ditando as regras. Os três que se verão em maus lençóis não apenas são grandes importadores, mas também, por acaso, são os perdedores da Segunda Guerra Mundial: Alemanha, Itália e Japão, que ainda são territórios ocupados de fato. A história é viciada no uso de truques pervertidos.  

A negativa não durou muito. A Alemanha foi a primeira a arregar - mesmo antes de os capitães da indústria, do Ruhr até a Bavária, terem se revoltado em massa. Scholz, o minúsculo chanceler, ligou para Putin, que teve que explicar o óbvio: os pagamentos estão sendo convertidos em rublos porque a União Europeia congelou as reservas de moeda estrangeira da Rússia - em uma violação crassa do direito internacional.

Com paciência taoísta, Putin afirmou também esperar que isso não venha a representar uma deterioração dos termos de contrato para os importadores europeus. Especialistas russos e alemães deveriam se sentar para, conjuntamente, discutirem os novos termos.  

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Moscou vem trabalhando em um conjunto de documentos que definam os termos do novo acordo. Em essência, o que isso significa é: sem rublos não haverá gás. Contratos se tornam nulos quando há violação de confiança. Os Estados Unidos e a União Europeia quebraram acordos de cumprimento obrigatório ao empregarem sanções unilaterais e, além de tudo, confiscarem as reservas de moeda estrangeira de um país - nuclear - do G20.

As sanções unilaterais fizeram com que dólares e euros perdessem todo o valor para a Rússia. Ataques histéricos não vão adiantar nada: tudo irá se resolver, mas nos termos impostos pela Rússia. Ponto final. O Ministério da Relações Exteriores já havia advertido que a recusa a pagar em rublos pelo petróleo levaria a uma grave crise global de inadimplência e a uma série de falências no nível global, uma infernal reação em cadeia de transações bloqueadas, congelamento de ativos garantidores e fechamento de linhas de crédito.  

O que irá acontecer em seguida é em parte previsível. As empresas da União Europeia irão receber o novo corpo de regras. Elas terão tempo para examinar os documentos e chegar a uma decisão. As que disserem "não" serão automaticamente excluídas do fornecimento direto do gás russo - com todas as consequências político-econômicas daí derivadas.

Haverá algumas concessões, é claro. Por exemplo, um bom número de países europeus irá aceitar o uso de rublos e aumentar o volume de suas aquisições a fim de vender o excedente a seus vizinhos e obter lucro. E alguns outros poderão se decidir por comprar gás por meio de trocas de energia.

A Rússia, portanto, não está impondo ultimatos a ninguém. Isso tudo vai levar tempo - uprocesso em andamento. Com algumas providências colaterais, inclusive. A Duma vem examinando a extensão do pagamento em rublos a outros produtos essenciais - como petróleo, metais, madeira e trigo. Tudo dependerá da voracidade coletiva dos chihuahuas da União Europeia. Todos sabem que sua incessante histeria pode vir a se traduzir em uma colossal ruptura das cadeias de fornecimento por todo o Ocidente.  

Adeus, oligarcas

Enquanto as classes dominantes atlanticistas enlouquecem por completo, embora continuem focadas em lutar até o último europeu para extrair qualquer remanescente palpável da riqueza europeia, a Rússia permanece impassível. Moscou vem sendo bastante leniente, na verdade, brandindo o espectro da falta de gás na primavera, e não no inverno.

O Banco Central Russo nacionalizou os dividendos de moedas estrangeiras de todos os grandes exportadores. Não houve inadimplência.  O rublo continua a subir – e agora está de volta a aproximadamente o mesmo patamar de antes da operação Z. A Rússia continua autossuficiente em termos de alimentos. A histeria americana quanto ao "isolamento" da Rússia é cômica. A totalidade dos atores eurasianos de alguma importância – sem falar dos outros quatro membros do BRICS e praticamente de todo o Sul Global – não demonizou nem sancionou a Rússia.  

Como bônus extra, o último oligarca que talvez fosse capaz de influenciar Moscou, Anatoly Chubais, se foi. Podemos chamar isso de um portentoso truque da História: a histeria das sanções, na verdade, teve o efeito de desmembrar a oligarquia russa – o plano favorito de Putin desde o ano 2000. O que isso implica é o fortalecimento do Estado russo e a consolidação da sociedade russa.

Não temos ainda todos os fatos, mas seria possível afirmar que, após anos de cuidadosa avaliação, Putin optou por partir para o tudo ou nada e quebrar a espinha dorsal do Ocidente – usando a tríade (blitzkrieg iminente no Donbass, laboratório de armas biológicas americanos e a Ucrânia tentando obter armas nucleares)  como o  casus belli.

O congelamento das reservas de moeda estrangeira tem que ter sido previsto, principalmente porque o Banco Central Russo já vinha aumentando suas reservas de títulos do Tesouro Americano desde novembro do ano passado. Há também a séria possibilidade de Moscou ser capaz de acessar reservas "secretas" de moeda estrangeira offshore – uma matriz complexa construída com o auxílio de especialistas chineses.

A súbita mudança de dólares/euros para rublos foi um judô geoeconômico barra-pesada, de nível olímpico. Putin induziu o coletivo ocidental a desencadear a demência histérica do ataque das sanções – para então voltar esse ataque contra o oponente com uma única e fulminante jogada.

E aqui estamos nós, agora, tentando absorver tantos desdobramentos simultâneos e revolucionários que se seguiram ao uso bélico dos ativos em dólar: rúpia-rublo com a Índia, o petroyuan saudita, a emissão pelos bancos russos de cartões de crédito de dupla bandeira Mir-UnionPay, o SWIFT alternativo Rússia-Irã, o projeto União Econômica Eurasiana-China de um sistema monetário-financeiro independente.  

Para não falar do golpe de mestre do Banco Central Russo de atrelar 1 grama de ouro a 5.000 rublos – que já vale cerca de 60 dólares, tendendo a subir.

Acoplado ao 'sem rublos-sem gás', o que temos aqui é uma fonte de energia atrelada de fato ao ouro. Os chiuhuauas da União Europeia e a colônia japonesa terão que comprar um bocado de rublos em ouro, ou comprar muito ouro para conseguir seu gás. E fica ainda melhor. A Rússia poderá reatrelar o rublo ao ouro em um futuro próximo. Poderia chegar a dois mil rublos, mil rublos ou até mesmo 500 rublos por um grama de ouro.

Hora de ser soberano

O Santo Graal das discussões que se desenrolam sobre um mundo multipolar, desde as cúpulas dos BRICS da década de 2000, estrelando Putin, Hu Jintao e Lula, sempre foi os modos de  superar a hegemonia do dólar. Agora, posta-se frente a todo o Sul Global, como a aparição benigna com um sorriso de gato Cheshire: o rublo de ouro, ou o rublo lastreado por petróleo, gás, minerais e commodities de exportação.

O Banco Central Russo, ao contrário do Fed, não pratica a flexibilização quantitativa e não irá exportar inflação tóxica para o resto do planeta. A Marinha russa não apenas garante todas as linhas marítimas russas, como também possui submarinos nucleares russos que conseguem aparecer por todo o planeta sem qualquer aviso prévio.

A Rússia está muito, mas muito à frente, e já vem implementando o conceito de "potência naval continental". Dezembro de 2015, no campo de batalha sírio, marcou o divisor de águas estratégico.  A 4ª divisão de submarinos com base no Mar Negro é a estrela do show.  

A frota naval russa agora consegue empregar mísseis Kalibr por todo o espaço que compreende o Leste Europeu, o Oeste Asiático e a Ásia Central. O Mar Cáspio e o Mar Negro, ligados pelo canal Don-Volga, oferece um espaço de manobras comparável ao Leste do Mediterrâneo e o Golfo Pérsico somados. Com 6.000 quilômetros de extensão. E não é sequer necessário acessar águas mornas.  

Isso cobre cerca de 30 países: a tradicional esfera de influência russa, as fronteiras históricas do Império Russo e as atuais esferas de rivalidade política-energética.

 Não é de surpreender que o Beltway esteja pirando.  

A Rússia garante transporte de mercadorias por toda a Ásia, no Ártico e na Europa, lado a lado à rede ferroviária pan-eurasiana da Iniciativa Cinturão e Rota.

E por último, mas não menos importante, não provoquem o Urso Nuclear.

Em essência, política de poder barra-pesada é isso aí. Medvedev não estava se gabando quando disse que a era da moeda única chegou ao fim. O advento de uma moeda de reserva global com base em recursos significa, em poucas palavras, que 13% do planeta não vai mais dominar os outros 87%.

Trata-se da volta do OTANistão versus Eurásia.  A Guerra Fria 2.0, 3.0, 4.0 e até mesmo 5.0. Não importa. Todas as nações do antigo Movimento Não-Alinhado (MNA) conseguem perceber para que lado os ventos geopolíticos e geoeconômicos estão soprando: o momento de afirmar sua verdadeira soberania está próximo, uma vez que a "ordem baseada em regras" está indo para o vinagre.  

Bem-vindos ao nascimento de um novo sistema mundial. O Chanceler Sergei Lavrov, na China, após encontrar vários de seus colegas eurasianos, não poderia ter resumido melhor:

"Uma nova realidade vem sendo criada: o mundo unipolar vai, irrevogavelmente, se tornando coisa do passado, e um mundo multipolar vem tomando forma. Trata-se de um processo objetivo. Nada poderá freá-lo. Nessa nova realidade, as potências "dominantes" serão mais de uma – será necessária uma negociação entre todos os principais estados que hoje detêm influência decisiva  na economia e na política mundiais. Ao mesmo tempo, dando-se conta de sua situação especial, esses países asseguram o cumprimento  dos princípios básicos da Carta das Nações Unidas, incluindo o princípio fundamental – a igualdade soberana dos estados. Ninguém neste planeta deve ser visto como um ator de menor importância. Todos são iguais e soberanos".  

Este artigo não representa a opinião do Brasil 247 e é de responsabilidade do colunista.

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