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Silvio Almeida

Ex-ministro dos Direitos Humanos

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Apresento a vocês um pequeno manual do linchamento

Como acusações sem prova, racismo e espetáculo público moldam a destruição de reputações no Brasil, analisa o colunista Silvio Almeida

Mulher vítima de linchamento verbal (Foto: IA /Dall-E)
Selo Fonte Preferida no Google do Brasil 247

O método serve para muitos alvos, mas tem especial eficácia quando aplicado a homens negros.

A técnica exige poucos instrumentos: convicção performática, fontes anônimas, redação teatral, covardia, cumplicidade de quem prefere repetir a verificar e, naturalmente, um ambiente social preparado para acreditar que a culpa de um homem negro dispensa prova, contexto e contraditório.

Vamos ao método.

1. Se for jornalista, comece dizendo que apurou durante meses. A duração da apuração importa mais do que sua qualidade. “Meses” soa grave, laborioso, quase científico. Pouco importa se, ao final, o que se tem são boatos, versões interessadas, ressentimentos antigos e frases soltas organizadas como se fossem indícios. O tempo, quando bem narrado, substitui a prova com uma elegância quase burocrática.

2. Use alegações sem comprovação como matéria-prima. Trate-as como atmosfera. Atmosfera é excelente: envolve o leitor, produz suspeita, dispensa demonstração e permite que qualquer gesto do alvo seja reinterpretado como sintoma de algo monstruoso.

3. Escolha um alvo politicamente exposto. De preferência, alguém que já desperte incômodo em diferentes grupos. Pessoas de risco político rendem melhor. Elas permitem que a destruição seja vendida como coragem jornalística, serviço público. Com sorte, o operador do linchamento ainda ganha o selo de “derrubador de autoridades”, o que pode gerar convites, contratos, temor reverencial e aquela respeitabilidade que nasce quando a reputação alheia vira ativo profissional.

4. Continue se apresentando como “antirracista” e aliado das minorias. A performance pública resolve quase tudo. Não há problema em desprezar, ignorar ou ferir concretamente mulheres ligadas ao alvo (mãe, companheira, filha etc.), desde que a linguagem correta seja aplicada no momento certo. A etiqueta de “antirracista” funciona como desinfetante. Ela limpa a cena antes que alguém perceba o sangue no chão.

5. Produza uma reportagem longa. A extensão ajuda muito. Textos longos intimidam. O leitor costuma imaginar que, se há tantas páginas, alguma coisa sólida deve haver ali. Preencha o texto com fontes anônimas, impressões psicológicas, frases de bastidor e depoimentos de pessoas que já não gostavam do alvo. Regra essencial: evite a todo custo qualquer versão que atrapalhe a arquitetura do linchamento. O contraditório, nessa técnica, é sinal de péssimo gosto literário.

6. Como quase ninguém lerá a reportagem inteira, produza também um vídeo curto. Escolha uma foto em preto e branco do alvo. O preto e branco ajuda muito, especialmente se o alvo for preto: dá ao material um ar de arquivo policial, prontuário antigo, documento secreto, foto de perícia necrológica. Sobre a imagem, coloque uma voz em off narrando os trechos mais escabrosos da versão acusatória. A voz precisa soar limpa, segura, impessoal. Quanto menos corpo tiver, melhor. Voz sem rosto parece instituição. Voz sem rosto parece verdade. Assim, o espectador não escuta uma versão sem prova e sem contraditório; recebe uma peça estética de condenação. A fotografia imobiliza o alvo e a narração enterra.

7. Faça esse vídeo circular bastante. Ele é mais eficiente que a reportagem. A reportagem ainda exige leitura, comparação, paciência, alguma inteligência e um mínimo de honestidade. O vídeo resolve o problema. Ele entrega a acusação em estado puro, sem o incômodo das mediações. A voz em off seleciona, recorta, dramatiza e conduz. A imagem fixa impede qualquer humanidade de escapar. O público não precisa pensar; basta sentir que está diante de algo terrível. Na economia moral das redes e do racismo que nos constitui enquanto sociedade, sentir já basta para condenar.

8. Caso a reportagem comece a ser questionada, procure um podcast amigo, uma mesa confortável ou um evento fechado onde todos concordem previamente com você. Explique seus “métodos” com serenidade, mesmo que você não tenha um. Diga que o jornalismo precisa ouvir vítimas, proteger fontes, desafiar poderosos. Evite falar das lacunas, das contradições, das omissões e dos interesses em jogo. A melhor defesa de um método frágil é uma boa iluminação, uma plateia dócil e meia dúzia de frases sobre coragem.

9. Recrute dois ou três negros para falar mal do alvo. Eles não precisam conhecê-lo bem. Se houver mágoa, disputa antiga, ressentimento ou oportunismo, melhor ainda. A presença deles será útil para a liturgia. O linchamento parecerá autorizado pela própria comunidade negra, como se a violência ganhasse legitimidade ao ser carimbada por algumas vozes convenientemente selecionadas. Ter um negro segurando uma pedra ou uma tocha na mão faz com que o racista não sinta culpa, afinal, outros negros também concordam com o linchamento.É o capuz da Ku Klux Klan, mas com as cores da diversidade.

10. Narre versões recebidas como se você estivesse na sala quando tudo aconteceu. Use detalhes sensoriais, componha cenas, atribua intenções, descreva silêncios, olhares, hesitações. Se alguém perguntar de onde veio tanta certeza, invoque o New Journalism. Declare-se jornalista, escritor, artista, alquimista da verdade narrativa. Com habilidade suficiente, a imaginação deixa de parecer invenção e passa a ser vendida como estilo.

11. A expressão New Journalism é ótima, porque confunde muita gente. Diga que jornalismo também é literatura, que o perfil exige cena, que a verdade tem “atmosfera” (olha ela aí de novo). Evite explicar que Truman Capote, Joan Didion, Tom Wolfe e Gay Talese, com todos os limites e contradições de suas obras, jamais disseram que seu estilo era uma autorização geral para converter ressentimento em prova e bastidor de fato. A técnica literária pode enriquecer a apuração; usada sem freio, vira maquiagem para a condenação prévia.

12. Cite Gay Talese para parecer refinado. É sempre útil invocar “Frank Sinatra Has a Cold”, como se toda frase bem escrita fosse uma espécie de habeas corpus estético. O detalhe é que até Talese, com talento literário incomparavelmente superior, viu sua obra cercada por discussões sobre método, verificação e dependência de fontes problemáticas, sobretudo no caso de The Voyeur’s Motel. Imagine, então, o que acontece quando alguém tenta imitar o brilho do perfil literário sem carregar junto a disciplina da apuração. Sobra a pose do grande repórter e falta o que interessa: evidência sólida, contexto, contraditório e honestidade narrativa. Detalhe: o inconveniente é que, em Talese, a cena literária vinha depois da apuração, e seria difícil imaginar seu melhor jornalismo apoiado na esmagadora maioria de fontes anônimas.

13. Não diga diretamente que o alvo é incompetente, relapso ou moralmente defeituoso. Isso seria grosseiro, pouco sofisticado e, pior, poderia abrir a desagradável hipótese de que é racismo. Faça melhor: construa cenas. Escolha episódios, apague o contexto, ouça pessoas que já tinham problemas com ele, trate ressentimento como fonte qualificada e transforme impressão pessoal em retrato psicológico. Deixe que o leitor complete a frase. A boa técnica consiste em fazer o público acreditar que chegou sozinho ao ponto em que você o conduziu desde a primeira linha. O estereótipo racial, quando bem manejado, dispensa anúncio. Ele aparece como atmosfera, como suspeita, como incômodo, como aquele mal-estar antigo que o Brasil conhece muito bem e finge não reconhecer.

14. Transforme hábitos comuns em sintomas. Se ele vai a um samba, sugira frivolidade. Se trabalha muito, sugira ambição desmedida. Se estudou demais, sugira que é muito intelectual para ocupar um cargo. Se se cala, sugira culpa. Se se defende, sugira arrogância. Se está abatido, sugira encenação. Se tenta seguir vivendo, sugira frieza. O segredo é impedir que o alvo permaneça uma pessoa inteira. Uma pessoa inteira tem contradições, afetos, limites, erros, virtudes, dores e circunstâncias. Um personagem linchável precisa ser reduzido a uma função narrativa: o vilão conveniente.

15. Compare o alvo com criminosos notórios. A comparação não precisa ser justa. Basta ser eficiente. O leitor não guardará a cautela, guardará a associação. É assim que se fabrica uma equivalência moral sem o preço da demonstração. Diga também que ele é “poderoso”. A palavra resolve muitos problemas. Mesmo que o alvo esteja isolado, acuado, demitido, investigado, exposto e ferido, chame-o de “poderoso”. O ressentimento social contra o poder fará o resto.

16. Quando faltarem provas, aumente o volume da indignação. A indignação é um recurso narrativo extraordinário. Ela desvia a atenção do vazio probatório e cria a impressão de que pedir cautela já é cumplicidade. Quem exige prova passa a ser suspeito. Quem pede contexto vira cúmplice. Quem lembra a presunção de inocência recebe o papel de inimigo das vítimas. O linchamento perfeito transforma garantias em obscenidade.

17. Comemore cada etapa da investigação como se fosse condenação definitiva. Pedido de diligência, depoimento, relatório, manifestação, denúncia, despacho, recebimento de denúncia, tudo deve ser narrado como se a culpa já estivesse formada. Não explique ao público que investigação não é condenação, que denúncia não é sentença, que processo não é pena e que, no vocabulário constitucional brasileiro, ninguém será considerado culpado até o trânsito em julgado de sentença penal condenatória. Esse detalhe atrapalha a dramaturgia.

18. Depois de destruir a presunção de inocência, finja defendê-la. A fórmula é simples: diga que o alvo “precisa virar réu”, que “tem que ser julgado”, que “precisa responder pelo que fez”, como se você já tivesse acesso integral às provas, às contradições, aos elementos de defesa e à própria verdade dos fatos. Em seguida, para preservar a aparência civilizada, acrescente que ele “naturalmente tem direito ao contraditório e à ampla defesa”. A ordem é importante. Primeiro vem a condenação. Depois, como ornamento de rodapé, aparecem as garantias.

19. Seja seletivo também na sua crítica à seletividade penal. Durante anos, fale sobre encarceramento em massa, racismo institucional, violência policial e sobre o modo como o sistema de justiça produz culpados antes de produzir provas, sobretudo quando o acusado é homem negro, jovem negro, pobre negro. Depois, diante do homem negro que você escolheu como alvo, esqueça tudo. Torça para que o mesmo sistema que você dizia combater confirme a sua narrativa. A coerência, nessa hora, seria um estorvo.

20. Chame essa torcida de compromisso com a justiça. Fica mais bonito. Ninguém precisa perceber que você já deixou de acompanhar um caso e passou a defender a própria reputação. Se o alvo não for processado, sua reportagem enfraquece. Se não virar réu, sua indignação perde solenidade. Se for absolvido, sua coragem pode ser lida como precipitação. Por isso, cada ato do sistema precisa ser celebrado como ratificação moral do linchamento. O juiz já não deve julgar apenas o processo; deve salvar a biografia pública de quem condenou antes da prova.

21. E, se vier algum resultado desfavorável ao alvo, trate-o como confirmação de tudo o que você dizia saber desde o início. Não mencione que o próprio sistema de justiça pode reproduzir seletividades, pressões, vieses, assimetrias e constrangimentos externos. Não aplique ao caso concreto a crítica que você recita nos seminários, nas colunas, nos manifestos e nos eventos de direitos humanos. Para os outros, análise estrutural. Para o alvo, punição exemplar. É assim que se conserva a boa consciência progressista sem perder o prazer antigo da condenação.

22. Use a linguagem das garantias como decoração. Diga “com direito de defesa”, “respeitado o devido processo legal”, “sem prejuízo da presunção de inocência”. Essas expressões são úteis porque dão verniz humanista à condenação antecipada. O truque consiste em esvaziar as garantias na primeira frase e citá-las na segunda, quando já não servem para proteger ninguém. A presunção de inocência, assim, deixa de ser princípio e vira etiqueta de boas maneiras. Um pequeno guardanapo constitucional sobre a mesa onde já serviram o linchamento.

23. Se você estiver numa ONG de direitos humanos, em uma entidade de advocacia ou em uma organização que trata de segurança pública, se apresse em emitir uma nota ou propor uma discussão sobre o caso, ainda que em grupos de WhatsApp. A prudência pode prejudicar o engajamento. Repudie, condene, solidarize-se com as supostas vítimas, exija responsabilização e entregue o acusado à fogueira das redes. Só depois, para manter a embalagem institucional, diga que a ele devem ter assegurados o contraditório e a ampla defesa. Essa cláusula funciona como um incenso jurídico: perfuma a cena depois que a fogueira já foi acesa. Afinal, é muito mais fácil chorar diante do corpo de um negro morto do que defender um negro vivo quando a multidão exige sua cabeça. Defender direitos humanos contra a corrente dos linchadores cobra coragem, independência e algum desprendimento em relação a financiadores, editais, premiações, painéis internacionais e salões onde a virtude circula bem vestida bem-vestida. Melhor seguir a onda. É mais seguro, mais elegante e costuma render ótimas fotografias.

24. Quando o linchamento começar a correr risco, pressione o sistema de justiça. O problema de toda destruição pública é que ela precisa ser confirmada depois, porque a vergonha do linchador seria grande demais caso se descobrisse que a acusação não tinha a solidez vendida ao público. Então, torça. Escreva. Sugira. Insinue. Diga que a Justiça precisa agir, que o Ministério Público precisa denunciar, que o Judiciário precisa dar uma resposta. Já não se trata de verdade, prova ou justiça. Trata-se de impedir que a infâmia perca a chancela institucional de que precisa para continuar parecendo virtude.

25. Continue afirmando que nada disso tem relação com racismo. Mesmo que um colega (progressista), num podcast, mande o alvo se lascar e logo depois diga “vamos esquecer esse cara”, como quem fecha a tampa de um caixão simbólico, sustente a pose. A sociedade brasileira adora esse tipo de assepsia. Ela destrói homens negros todos os dias, mas exige que a destruição venha acompanhada de boas credenciais morais, linguagem progressista e uma lágrima protocolar no mês de novembro.

26. Nunca subestime a utilidade dos antirracistas de ocasião. Eles farão o trabalho com entusiasmo. Postarão frases sobre privilégios, compartilharão cards, citarão autoras negras que nunca leram direito, chamarão homens negros para palestrar em datas comemorativas e, quando um homem negro real estiver sendo publicamente moído sem prova suficiente, pedirão prudência apenas para os algozes. Para o alvo, bastará a velha pressa punitiva de sempre.

27. Conte com o silêncio dos cautelosos, a preguiça dos repetidores e a covardia dos bem situados. Eles são indispensáveis. Alguns sabem que há algo errado, mas preferem não se indispor. Outros desconfiam da história, mas aguardam que alguém fale primeiro. Há ainda os que percebem a injustiça e calculam o custo de defendê-lo. O linchamento público depende menos da coragem de quem acusa do que da administração coletiva do medo.

28. Por fim, use a palavra “justiça” sempre que possível. Ela embeleza a violência. Faz parecer que a destruição de uma pessoa sem contraditório é uma etapa necessária da moral pública. A palavra “justiça” tem ótima circulação social, especialmente quando ninguém quer discutir processo, prova, responsabilidade, contexto, dolo, interesse, contradição e reparação. Em tempos de virtude instantânea, justiça virou também uma forma de decoração do ressentimento.

Seguindo esses passos, você terá tentado destruir uma pessoa sem precisar demonstrar quase nada.

“Tentado”, eu disse.

Convém frisar, porque o linchamento é sempre uma aposta, e nenhuma aposta traz garantia de êxito. Talvez receba aplausos. Talvez seja convidado para falar sobre ética, democracia, jornalismo, combate ao racismo e defesa das mulheres. O mundo é generoso com linchadores. Pelo menos por algum tempo.

Há, porém, um risco pouco calculado. Toda tentativa de destruição deixa vestígios. A mão que aponta também se denuncia. A voz que acusa sem prova registra a própria impostura. A montagem que pretendia fixar o alvo em preto e branco pode, com o tempo, revelar o negativo inteiro da fotografia.

A história tem ironias desagradáveis para os administradores da infâmia. Mandela entrou na prisão como inimigo do regime e saiu dela como a medida ética de um país inteiro, quiçá do mundo. Luiz Gama morreu antes da Abolição, sem o reconhecimento formal que sua inteligência merecia, e mais de um século depois foi inscrito entre os heróis da pátria. Toussaint Louverture morreu numa prisão francesa, e o Haiti independente nasceu logo em seguida. Gramsci foi encarcerado para que seu cérebro parasse de funcionar, e seus cadernos atravessaram o século como uma das obras mais vigorosas do pensamento político moderno.

Convém, portanto, ter cuidado com certas tentativas de destruição. Algumas parecem eficientes no momento em que são executadas. Produzem medo, isolamento, ruído, silêncio interessado. Depois, com o tempo, começam a trabalhar contra seus próprios autores. O alvo que deveria desaparecer retorna com outra espessura. Volta carregando documentos, memória, testemunhas, método e uma paciência que seus linchadores confundiram com derrota.

Processo é documento. Jornalismo é documento. Livro é documento. E documento vira história. E, para horror de muita gente, alguns dos condenados da terra, dos “fodidos”, sabem a escrever e a registrar o que acontece em suas vidas.

Gente preta conhece há muito tempo a pedagogia brutal dos golpes. Às vezes, quem pensa estar batendo muito forte apenas ensina ao outro a medida exata da própria resistência. Às vezes, quem tenta fabricar a ruína cria uma presença mais difícil de controlar.

Talvez seja esse o detalhe que os fabricantes de destruição quase nunca calculam: certos ataques não encerram uma biografia. Apenas antecipam o dia em que ela voltará acompanhada da verdade que tentaram enterrar.

E a verdade, quando começa a se mover, tem uma qualidade que supera toda e qualquer encenação. Ela organiza os fatos, recoloca as peças no lugar e mostra que, muitas vezes, quem dizia expor um monstro estava apenas revelando o próprio retrato.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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