Apropriação cultural ou branquinização comercial

A questão principal, ou pelo menos a que eu vejo como a mais relevante, é o fato de que quando assimilamos a cultura de outros povos, não temos o direito de tomá-la como originária, exclusiva e legitimamente nossa

A questão principal, ou pelo menos a que eu vejo como a mais relevante, é o fato de que quando assimilamos a cultura de outros povos, não temos o direito de tomá-la como originária, exclusiva e legitimamente nossa
A questão principal, ou pelo menos a que eu vejo como a mais relevante, é o fato de que quando assimilamos a cultura de outros povos, não temos o direito de tomá-la como originária, exclusiva e legitimamente nossa (Foto: Nêggo Tom)

O uso de um simples turbante foi capaz de provocar uma grande polêmica e muita falácia nas redes sociais. Uma jovem branca, de nome Thauane Cordeiro, fez uma postagem em seu Facebook questionando o conceito de apropriação cultural, após, segundo ela, ter sido repreendida por uma mulher preta no metrô, por estar usando o adereço. O desabafo da jovem paranaense, que está em tratamento contra a leucemia e por isso faz uso da peça para disfarçar a queda dos seus cabelos, já rendeu mais de 35 mil compartilhamentos e outras tantas mil bobagens ditas sem conhecimento de causa.

Podemos definir o ato de se apropriar de algo, como o de se tornar dono de algo que não lhe pertence. No sentido cultural é necessário termos um cuidado com essa definição e buscarmos por sinônimos menos agressivos. Digamos que culturalmente falando, a apropriação pode ser vista como uma maneira de tornar própria, adequada ou pertinente, a adoção de elementos que compõe uma determinada cultura. Podemos classificar como uma aculturação ou como a assimilação de hábitos e costumes característicos de uma cultura diferente.

A questão principal, ou pelo menos a que eu vejo como a mais relevante, é o fato de que quando assimilamos a cultura de outros povos, não temos o direito de tomá-la como originária, exclusiva e legitimamente nossa. O meu pensamento não se aplica ao caso do turbante, mas vamos botar um pouco de lenha nessa fogueira. Eu substituiria o termo apropriação cultural, por branquinização comercial e não me venham dizer que isso é racismo reverso ou citar Lênin com a sua frase "Separe a sociedade em grupos antagônicos", porque não vai colar. Sejamos maduros e menos corporativistas.

Era uma vez um gênero musical denominado Rock'n Roll. Derivado do R&B e do Blues e com raízes no Gospel e no Spirituals, ele é conhecido por sua atitude e sua vertente de protesto. O bom, velho, rebelde e originariamente Black, Rock'n Roll, com o passar dos tempos se tornou um gênero musical destinado culturalmente aos brancos de cabelos lisos e compridos, que fazem o sinal de chifre com as mãos, botam a língua pra fora e exclamam "Oh, Yeah!", sem terem conhecimento de que duas dessas manifestações têm origem no sofrimento dos escravos americanos, que após as costumeiras sessões de açoite as quais eram submetidos, colocavam a língua pra fora e soltavam um "Oh, Yeah" de dor e lamento.

Estou usando a história do Rock como exemplo, para deixar claro que apropriação cultural que se preze, sabe descartar o pioneirismo e a importância de nomes como Lead Belly, Little Richard, Chuck Berry, Fats Domino (entre outros pretos precursores do Rock), coloca o branco Elvis como o rei do gênero e convence a geração Slipknot com Nutella - que nunca leu um livro sobre a história da música na vida - de que Rock é música culturalmente branca e que não combina com preto. Aliás, não foram apenas os olhos verdes de Elvis Presley que o sistema usou com a finalidade de dar uma aparência mais aceitável socialment e a algo de relevância cultural e de interesse comercial. Nem Jesus Cristo escapou desse remake e passou a ser retratado de acordo com o padrão romano. O homem loiro de cabelos dourados e olhos cor de esmeralda, pode até ser o Thiago Lacerda ou o Brad Pitt, mas Jesus Cristo não é mesmo. O sol do deserto e a sua árvore genealógica não me deixam enganar.

Esse processo de branquinização comercial dos elementos culturais de outros povos acaba sendo absorvido com naturalidade por boa parte da sociedade, principalmente pelos favorecidos por ele e por aqueles que desconhecem os fatos históricos. O uso do turbante é apenas uma pontinha do iceberg. A discussão sobre o tema é bem mais profunda e não deve ser banalizada em função de um caso isolado, que nem sabemos se realmente ocorreu ou se foi relatado da maneira que realmente aconteceu. Tenho certeza que alguns, ou muitos dos defensores da postagem da jovem Thauane, ao verem uma jovem preta de turbante ou usando roupas e colares característicos da cultura pre ta, torcem o nariz e olham com diferença e reprovação. Isso quando não associam a macumba e a outros rituais de origem africana, tão ou até mais praticados por brancos do que pelos próprios pretos nos dias de hoje.

O que percebemos é que tudo que os pretos criam ganha mais valor quando os brancos compram, usam, praticam, executam ou consomem. Já li em algum lugar que a feijoada foi um prato europeu trazida pelos Portugueses para o Brasil. Mas não se come lá muita feijoada em Portugal hoje em dia. O Samba passa por um processo semelhante. Antigamente visto como coisa de vagabundo e marginal, por ser coisa de preto, o gênero começou a ser "clareado" na maior cara de pau e sem que muitos percebam. Será que para não deixar o samba morrer é preciso branquinizá-lo para torná-lo mais agradável aos olhos dos preconceituosos? As rodas de samba na z ona sul do Rio de Janeiro mais parecem um arrasta pé nórdico, e em breve será necessário cota para pretos.

O Funk é outro exemplo de branquinização comercial recente. Rotulado como som de preto e de favelado, mas que quando toca ninguém fica parado, o batidão quando virou "Ostentação", teve que ser protagonizado pela cútis alva de Mc's como Gui e Guimê. Já que é pra vender o luxo, não pode ter preto, senão não convence. Esse processo de branquinização é covarde, fake, ganha autenticidade graças aos interesses comerciais do sistema e pode ser sim visto como apropriação cultural, quando descarta e não dá o devido crédito a origem da cultura criador a do produto e ganha mais valor e reconhecimento em outra cultura tida e havida como superior.

Então fiquemos atentos, porque além do turbante, estão tentando colocar mais coisas na nossa cabeça, para assim, se apropriarem dela.

Viva a resistência!

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