Argentina acelera sua corrida às urnas

"Como se não bastasse o caos econômico e a mais profunda crise social vivida pelos argentinos em 18 anos, o país vive uma situação insólita. O atual presidente, Mauricio Macri, já não governa. E o futuro presidente, Alberto Fernández, só assume no dia 10 de dezembro", analisa Eric Nepomuceno, Jornalista pela Democracia

Presidente da Argentina, Mauricio Macri
Presidente da Argentina, Mauricio Macri (Foto: REUTERS/Agustin Marcarian)

Por Eric Nepomuceno, para o Jornalistas pela Democracia - Como se não bastasse o caos econômico e a mais profunda crise social vivida pelos argentinos em dezoito anos, o país vive uma situação insólita. O atual presidente, Mauricio Macri, já não governa. E o futuro presidente, Alberto Fernández, só assume no dia 10 de dezembro. 

É nessa atmosfera esdrúxula que os argentinos decidirão, no domingo que vem, qual o tamanho da derrota de Macri. 

A essa altura ninguém duvida (a única exceção, talvez, seria o próprio Macri) que a vantagem de Alberto Fernández e sua candidata a vice, a ex presidenta Cristina Fernández de Kirchner, sobre o responsável direto pelo desmantelamento do país será fulminante. 

As pesquisas mais conservadoras divulgadas por esses dias apontam uma diferença de 16 pontos. Outras preveem 20 ou 22. E nenhuma admite a possibilidade de segundo turno.

É bem verdade que no sábado dia 19 Mauricio Macri tentou o gesto mais radical de sua campanha. Convocou uma estrondosa ‘marcha do milhão’ no obelisco que está cravado na avenida Nove de Julho, no cruzamento com a avenida Corrientes. 

Buenos Aires é, por tradição, uma capital essencialmente anti-peronista. Natural, portanto, que tenha sido o ato que atraiu mais gente em toda a campanha, e não só dele: de todos os candidatos. Ainda assim, não chegou à metade do tal milhão anunciado.

É verdade que até agora Alberto Fernández não detalhou qual será seu programa econômico. Enquanto não abre o jogo, tem mantido contato constante e estreito com os mais poderosos dirigentes empresariais e circula firme entre agentes do mercado financeiro. E o que se constata é que tanto uns como outros dão por liquidada a chance, por mais ínfima que seja, de que aconteça uma virada e Macri consiga se reeleger. Já assimilaram que seu tempo acabou, e tratam de estabelecer pontes firmes com o futuro presidente.

Outra clara mostra de que o atual mandatário não manda mais foi dada pelo Fundo Monetário Internacional, o FMI. A parcela de cinco bilhões e quatrocentos milhões de dólares prevista para setembro foi adiada para outubro, e depois de novo, para um futuro incerto e não sabido. Antes da posse do novo presidente dificilmente aparecerá.

Embora no mercado oficial o dólar continue estável, rondando a casa dos 60 pesos, nos últimos dias o mercado negro experimentou um aumento sensível, rondando a casa dos 66. 

Enquanto isso, outubro chega ao fim com o consumo médio das famílias argentinas em queda. Com isso, já são 21 meses de caída consecutiva. Desde o derretimento da Argentina em 2001, quando o país teve cinco presidentes em pouco mais de uma semana, não ocorria um desastre dessas proporções.  

A não ser pela blindagem que ainda é oferecida pelos grandes meios hegemônicos de comunicação e pelo que restou de seus seguidores mais devotos, Macri é alvo da ira vinda de todos os lados: sindicatos, universidades, estudantes, artistas, intelectuais. 

O mais grave, em todo caso, é o seu total descrédito: nada do que ele diz é levado a sério. Medidas para levar adiante a reforma trabalhista, e também a previdenciária, são temas abandonados por Macri. 

O grande problema é que enquanto o governo não governa, a crise continua firme e voraz. Devora salários, as reservas do país em divisas, engole empresas de todos os tamanhos, corrói ainda mais o já tão corroído poder de compra dos salários. 

Assim que foram divulgados os resultados das prévias de agosto, quando a vantagem de Suárez sobre Macri surpreendeu a todos, o dólar deu um salto de 48 para 60 pesos. E agora, o que acontecerá?

Entre as eleições e a posse do novo presidente há um espaço de 31 dias úteis. Seria o tempo de Macri se entender com a equipe do futuro governo. 

Seria: tudo indica que o país terá pela frente outros 31 dias inúteis. E perigosos, muito perigosos.

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