Argentina, sim!

Maradona torceu pelo Brasil em todos os jogos. É mesmo impossível torcer pela Argentina?

Dia 13 de julho torcerei pela Argentina como consequência inevitável da torcida pela América Latina durante toda a Copa. A derrota da maior potência futebolística européia para uma seleção hermana coroará a#CopadasCopas, perfeitamente chamada de "Copa da CELAC" pela presidenta Dilma. Será a coroação porque, embora só com o início do Mundial um certo "patriotismo da Pátria Grande" difuso tenha se manifestado, foi um sentimento que cresceu entre a torcida brasileira.

O Brasil foi conduzido pela hegemonia histórica de elites subalternamente associadas aos EUA e à Europa a virar de costas para a América Latina. Nesta Copa, os brasileiros - como já se escreveu - puderam "ver" que os seus irmãos latinos de formação social, tragédia colonial, esperanças emergentes, existem. Mesmo o slogan #AmericaLatinaMenosArgentina foi um gigantesco salto nas representações brasileiras de pertencimento. O povo em geral começou a descobrir uma pátria mais universal e profunda que o Brasil em si. Em outras palavras: a dimensão cultural do desenvolvimento, que é a superação do rodriguiano complexo de vira-latas, condição essencial, ao menos de nossa parte, para uma aproximação com o caminho sugerido por Perón (e que segue sendo a grande plataforma da emancipação dos nossos povos): estarmos unidos para não estarmos dominados, em busca da independência econômica, soberania política e justiça social.

Será a coroação porque, para muito além do calor hospitaleiro de nossa gente e da paixão torcedora, crescendo e se impondo sobre o ódio da velha mídia comercial e da agressividade infantil de Black Blocks e seus simpatizantes, a gestão da Copa deu um banho. Provamos que o investimento feito via empréstimos (ou seja, com retorno aos cofres públicos) só correspondeu a um mês de educação, as principais obras logísticas foram entregues e aí estão para servir à população, não houve caos aéreo etc. Provamos, portanto, que a América Latina, que o "B" dos BRICS que orgulha o continente por ser isto diante do mundo, é capaz de organizar eventos deste porte, esportivos ou não. Isso é uma projeção simbólica do nosso potencial de desenvolvimento, ícone destes tempos de prosperidade, do "norte" ser o Sul, do South American Way. Nada melhor que o desfecho ser não permitir que a taça vá para o Atlântico Norte.

A integração regional avançou politicamente em muito com as tentativas de atualizar o Mercosul para além de um bloco comercial, a criação da Unasul e da CELAC e a recente "tomada" da OEA pelos governos latino-americanos. Contudo, para se falar dela como algo efetivamente concreto alguns passos adiante são imprescindíveis, como a integração logística e a cultural, sendo que, sem a primeira, a segunda passará por sérias dificuldades.

Ambas tem dilemas comuns, apesar das naturezas aparentemente distintas. A logística carece de um financiamento de peso, estatal e/ou privado, para projetos realmente de integração, que envolvam o interesse estratégico de mais de um país e da região como um todo e não uma obra aqui e outra ali dentro de cada território. A cultura sofre um impasse semelhante, que é o dos povos se valorizarem mutuamente, conhecerem o continente, quererem conhecer uns os países dos outros e terem um mínimo de consciência do que os une na tragédia do passado e nas oportunidades de futuro. Em suma, ao invés de alguém querer economizar para ver a neve no Central Park, ir às geleiras de El Calafate.

Aí entra a discussão da rivalidade. Ela esconde artimanhas seculares que faz com que argentinos e brasileiros não possam admitir a felicidade recíproca, cujas expressões mais explosivas se dão justamente neste terreno da paixão.

A rivalidade entre brasileiros e argentinos tem um pretexto futebolístico, mas foi há muito semeada para separar politica e culturalmente os dois gigantes do Cone Sul. Esta é a questão de fundo, muito diferente de rivalidades entre clubes de uma cidade ou de um estado, que começou lá nas comunidades, nos certames de várzea. Fazendo o caminho inverso, da política à economia, da economia à logística, da logística à cultura, a integração regional deve superar este entrave.

Os brasileiros conseguiram torcer pela Costa Rica, pela Colômbia, pelo Equador, até mesmo para a Celeste com o ex-fantasma de 1950 (que agora virou conto de terror germânico). Maradona torceu pelo Brasil em todos os jogos. É mesmo impossível torcer pela Argentina? Uns falam dos brasileirinhos que já estariam traumatizados ao assistirem à goleada de 7x1 sem nunca terem visto o país ganhar um título, final dos tempos para eles, então, se tiverem que ver a Argentina recebendo o troféu de campeã mundial pelas mãos da presidenta do Brasil em pleno Maracanã. Oras! Sequer o Brasil está na final! Será que é impensável considerar a felicidade dos "argentiniños", emocionados ao poderem assistir pela primeira vez esta cena tão marcante e especial? E ainda mais no solo pátrio da América Latina?

Acho até bom que os brasileirinhos, não podendo ver o Brasil levantar a taça por obra pura e simples da caixinha de surpresas que é um jogo de futebol, ver a Argentina ganhar e não chorarem e, sim, orgulharem-se de, ao menos, o troféu ter ficado aqui e não no além-mar.

Forma uma geração que não precisará ter como tabu dizer que admira Maradona ou que curte o estilo de jogo argentino. E isso sem precisar deixar de viver o clima concorrente de um bom Brasil x Argentina quando tiverem a oportunidade, com as brincadeiras naturais da rivalidade do jogo concreto.

O status de mega evento favoreceu a quebra das barreiras logísticas e permitiu a descoberta da Copa Latinoamericana. Agora, é hora de transformar este caldo em ingrediente da reforma cultural da integração e aplaudir, se for para ser assim, a conquista argentina e dizer, para o desespero dos Mervais da vida, que, não, isto não será um problema para Dilma, governo, PT, nem para a população. Isto é apenas o início da construção de um efetivo projeto regional de desenvolvimento (reforma das instituições da gestão da bola incluída!).

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