As bolhas de uma sociedade de classes
Memórias pessoais revelam como privilégios e desigualdades moldam percepções e expõem as fronteiras invisíveis entre classes sociais no Brasil
No café da manhã, conversava sobre as bolhas em que as pessoas vivem. Habitando nessas bolhas, todos achamos que o mundo todo é igual.
E de repente, nos surpreendemos que existam indivíduos tão estúpidos, primários, que formam a manada bolsonatista. A surpresa, no entanto, não deve nem pode evitar uma reflexão sobre o Brasil do atraso que sobrevive.
Mas no café, como sempre, falamos mais sobre o que está em nossa memória. Então ao pensar em bolhas, lembrei de uma estudante de História, jovem, bonita, que me perguntou em frente ao Bar Mustang, em 1979, pelo número do meu telefone. Respondi-lhe:
- Eu não tenho telefone, amiga.
A jovem ficou estarrecida. No mundo dela, todas as pessoas tinham telefone. Como poderia haver alguém que não o tivesse? Ela só não perguntou pelo meu zap ou instagram, porque à época tais avanços não haviam chegado.
A mesma jovem exclamou, em outra oportunidade, ao ouvir o imortal Gordo contar sua vida popular em Afogados, porque ele morava na Rua da Lama:
- Gordo, como eu queria morar nesse lugar!
E o Gordo:
- Já eu quero sair.
E finalmente, certa vez lá no Janga, eu conversava com ela à beira da pista, enquanto esperávamos um ônibus. Avisada, ela sempre deixava o carro em casa, para melhor “integração”. Ela de calça jeans importada, eu com a bem mais barata US Top (que nome). Ela, bonita, bem nutrida. Eu, muito feio na época..., cabelos crespos assanhados, barba por fazer. Então, ao nos ver assim tão “integrados”, o inesquecível Luiz Paulo observou:
- Cuidado com os donos de carros que passam! Eles vão dizer que o terrorista sequestra a burguesinha.
Eu sorri amarelo. Ela sorriu vermelha.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.
