As críticas ao programa do PT e os riscos de um ‘revival’ de socialchauvinismo

Um comentário sobre as críticas de Roberto Requião a respeito do "Plano de reconstrução e transformação” do PT para o Brasil e a análise de Valter Pomar a esta crítica

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Li duas críticas sobre o recém-lançado “Plano de reconstrução e transformação” do PT para o Brasil. A crítica de Requião e a análise do Valter Pomar a esta crítica. Estou basicamente de acordo com Pomar — e com Requião — quanto ao que parecem ser os limites do Plano.

E quais são estas críticas?

Vou citar uma passagem do artigo de Requião que me parece bem central: “Se não temos uma política radical de reversão de todas! as privatizações; de recuperação de cem por cento do pré-sal; de revogação de todas as reformas e medidas lesivas aos interesses dos trabalhadores e aos interesses nacionais; se o capitalismo financeiro continuar correndo solto, sem o bridão do Estado; se não recuperarmos total e incondicionalmente a soberania nacional sobre o solo e o subsolo, sobre o ar, os mares, os rios, as florestas; sem isso e muito mais, o que nos resta?”

Não há dúvida. Sem pôr questões como estas “o plano é mais de ‘reconstrução’, do que ‘transformação’,” segundo o disse Pomar — e ao fim e ao cabo termina por ter “bem pouco de desenvolvimentista e quase nada de socialista”.

Gostaria, porém, de me fixar em um ponto da crítica de Requião, e que remete ao título que escolhi para esta nota. Requião parece estabelecer um ‘trade off’, um jogo de soma zero entre as necessárias política de transformação e as políticas identitárias — ou afirmativas — agora sustentadas pela esquerda não só no Brasil, mas em todos os quadrantes do mundo. (O que são afinal as políticas de cotas nas universidades e no serviço público para os tibetanos sustentadas pelo Partido Comunista Chinês?)

Diz Requião: “é proporcional o aumento de espaço na agenda da esquerda para as política identitárias à diminuição do espaço para as propostas de transformação revolucionária da sociedade brasileira”. Ora, dito como está, parece que para sermos revolucionários deveríamos deixar de lado a defesa da luta das mulheres contra o machismo e a discriminação de gênero (dentro e fora dos ambientes de trabalho), a defesa das causas do movimento negro, as políticas contra a discriminação da população LGBT, e por aí vai.

Ou seja, um socialismo um tanto cavernícola, para usarmos a expressão de Pomar que demarca o governo Bolsonaro. O socialismo com uma lufada do “soberanismo populista” que agora grassa por toda parte.

De fato, o vento é forte e lembra uma espécie de revival do socialchauvinismo, como o disse recentemente o filósofo Stefano Azzarà caracterizando o patriotismo cego de uma fração da esquerda europeia — dita rossobruna entre os iltalianos — , incapaz de pensar, ao lado dos clássicos problemas postos pela luta socialista, os problemas do século XXI — incluindo a própria questão da integração continental, tema aliás de grandes progressos à época dos governos do PT e que a crítica de Requião não dá a mínima, tanto quanto o rossobrunismo europeu, diga-se, às vezes associado à extrema-direita nesta matéria (‘Sovranismo’ o questione nazionale? Il rinselvatichimento socialsciovinista nella politica odierna. in: Il secondo tempo del populismo. Sovrannismo e lotta di classe. Roma: Momo edizione, 2020).

Não custa lembrar que Stefano Azzarà foi aluno de Domenico Losurdo, o mesmo Losurdo que propunha uma leitura da luta de classe muito mais viva e concreta do que os esquemas rígidos que tanto nos atrapalharam. Uma articulação entre “genus” e “species“, insistia o grande filósofo italiano para propor uma “teoria geral do conflito social”, a rigor uma articulação dialética entre o “universal” e o “particular”. (A luta de Classes. Uma história política e filosófica. Trad. S. de Bernardinis. SP: Boitempo, 2015, pp. 63-4).

Por outras palavras: não se trata de ignorar simplesmente as políticas identitárias ou afirmativas, e menos ainda fazê-las o exato oposto das políticas de classe, tendência mesmo da ‘forma mentis‘ pós-moderna. Mas redefini-las conceitualmente — e assim também politicamente — como uma “specie” de luta de classe. Sem isso, será também muito difícil a qualquer partido de esquerda, nas atuais condições, organizar-se como um verdadeiro partido de massa.

Fica a dica.

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