As facções das fake news devem ser enfrentadas nos pântanos em que vivem
“Se a guerra contra os mentirosos tivesse dado certo, o inquérito das fake news não completaria sete anos em 2026”, escreve Moisés Mendes
Circula pelas redes sociais e pelos grupos de zap mais um abaixo-assinado para que a Câmara abra processo de cassação de Nikolas Ferreira por disseminação de fake news. É preciso, mas é pouco.
Não serão os recursos formais e as instituições que irão conter hoje um Nikolas Ferreira e outros das mesmas facções. Não serão o sistema de Justiça nem as normas de conduta do Congresso. Se fossem, eles já teriam sido contidos.
Hoje, Nikolas é muito mais um caso para a guerrilha das redes sociais, e menos para o governo ou para as autoridades das polícias, do Ministério Público e do Judiciário. As estruturas institucionais não têm nenhuma efetividade nessa guerra, com decisões pontuais apenas na área eleitoral.
Nenhum Hugo Motta levará adiante uma proposta de cassação do mandato do deputado da peruca, se ele não for visto como galinha morta do fascismo. Essa é uma briga de rua, na barra pesada da esfera pública que eles dominam.
Na semana passada, ao mostrar uma reportagem sobre a isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5mil, o Jornal Nacional ouviu a funcionária de escritório de uma empresa.
A moça apareceu sentada no seu local de trabalho e disse em resumo o seguinte: falei com a minha contadora e ela me assegurou que é isso mesmo, que é verdade que não vou pagar Imposto de Renda esse ano.
Não abordaram uma pessoa na rua, andando apressada e pensando nas contas. Entrevistaram uma funcionária de escritório, bem acomodada, para que ela dissesse que só teve certeza de que estará isenta porque falou com a contadora.
Alguém conhece um motorista de uber, um engenheiro, um motoboy, um médico, uma diarista, um trabalhador de qualquer área convencido de que um deputado federal não está errado ao disseminar sistematicamente que o governo irá tributar trabalhadores de baixa renda.
Eles podem não acreditar na mentira, mas acreditam que o mentiroso tem o direito de mentir, por ter informações que só eles teriam. E por isso a maioria finge acreditar que acredita. A mentira é a arma a ser usada sem medo por um fascista.
O esforço da Receita em desmentir o sujeito não é suficiente para se contrapor às mentiras. O desmentido não se dá no mesmo ambiente e com a mesma linguagem com que a fake news foi produzida e no mesmo tom com que foi espalhada.
Não é só pela via da comunicação institucional dos esclarecimentos protocolares no rádio, na TV e mesmo na internet que os criadores de fake news serão enfrentados. Não hoje, não agora. Já está provado que não é.
Daqui a alguns dias poderemos ter nova fake news sobre o PIX, e o mesmo contingente irá acreditar na mentira. Não resolve avisar que os deputados mentirosos serão processados e que o conselho de ética da Câmara pode investigá-los.
Porque a reação às fake news que eles produzem ou disseminam não é suficiente para reparar danos. Pouco esclarece e não reverte certezas ou desconfianças de quem acredita nos seus criadores. E tampouco evita novos ataques.
O embate político convencional e as reações institucionais terão de contar com o suporte de quem sabe como esses ataques funcionam. Nikolas é uma criatura do pântano e é lá que deve ser enfrentado. Só as fake news dão sentido à sua existência.
Não se imagina que o combate se dê com os mesmos métodos do jogo sujo, mas com as armas e a língua das redes que a extrema direita domina desde 2018. Já funcionou na derrota imposta à PEC da Bandidagem, quando as redes sociais das esquerdas venceram o bolsonarismo.
Abordagens pretensamente éticas e morais ou baseadas em regras dos bons modos não funcionam. Não funciona dizer que Nikolas está errado. Não surte nenhum efeito assegurar que ele age de forma desleal e criminosa.
Os disseminadores de fake news devem ser enfrentados com a guerrilha do escracho. Principalmente com escracho. É preciso esculachar com o fascismo, para que as mensagens cheguem principalmente aos jovens, porque ninguém irá mudar a cabeça de tios do zap. Esses ainda acreditam que Bolsonaro ouve vozes saídas de uma tornozeleira.
Os criadores de fake news precisam ser expostos no mesmo ambiente em que se reproduzem, para que só assim os recursos convencionais com algum sentido de justiça funcionem, se é que irão funcionar.
Os fabricantes de mentiras não serão alcançados em ano de eleição pelos contrapesos da política antiga, pelo sistema de Justiça e pelas táticas pré-tiktok.
Se fossem alcançados, se tivéssemos regras e leis funcionando, se as big techs temessem punições, não existiriam Nikolas Ferreiras e já teriam sido indiciados, julgados e condenados os investigados no inquérito das fakes news, que completa sete anos em 2026.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

