As histórias por trás da construção de Brasília

Algumas questões tornam-se substanciais: foi bom para quem? deu-se a que custo? quais suas consequências? Ao realizarmos esse exercício reflexivo, veremos que existe pouco a se comemorar...

No dia vinte e um de abril, a atual capital do país completou cinquenta e nove anos. Hoje, Brasília possui um dos metros quadrados mais caros do país e é conhecida por sua beleza que é exposta na arquitetura moderna. Conquanto, há mais nessa história do que pensamos saber.

Corria o ano de 1960. Juscelino Kubitschek era então presidente da república. Eleito com o slogan “cinquenta anos em cinco”, desde o início de seu mandato havia destacado-se por seu Plano de Metas, documento essencialmente econômico e dividido em trinta metas que visavam o aprofundamento da industrialização no país. Em poucas palavras, seu governo era resumido com as ideias de movimento, ação e desenvolvimento. Este linguajar, aliás, era um ponto fora da curva para o estilo da época e, por isto, era considerado como um diferencial. Ao contrário do que se pensa, a construção de Brasília não era uma das metas estipuladas por JK, mas foi incorporada à medida que sua campanha para a presidência da república avolumava-se. Porém, apesar de ter sido incorporada depois das demais metas, em um átimo tornou-se uma das prioridades do governo, que a considerava como uma “meta-síntese”, pois era uma cidade planejada e futura representação do esforço de afirmação da nacionalidade e da integração nacional.

Essa ideia de “meta-síntese” era simbólica para a época, porque material e, portanto, concreta para a população brasileira, daí o motivo de ter sido tão importante para o governo. A população estava encantada com a perspectiva de conceber uma cidade para além de seu próprio tempo, com arquitetura nova e diferenciada, em um rincão que abrigava menos de uma pessoa por quilômetro quadrado. Sua construção materializou-se em três anos: através da Companhia Urbanizadora da Nova Capital do Brasil (Novacap), empresa pública criada em 1956, sob direção de Israel Pinheiro; do projeto arquitetônico de Oscar Niemayer; e do conceito urbanístico de Lúcio Costa. Conquanto, como na História nem tudo são flores, a construção de Brasília deve ser problematizada.

Em primeiro lugar, foi um meio encontrado pelo governo de não entrar em conflito com interesses de forças antagônicas e conservadoras, qual seja, a oligarquia rural, pois esta tinha como projeto a manutenção de seus latifúndios. Firmou-se, aí, um pacto entre governo e oligarquia rural: o primeiro, buscava apoio no parlamento para a aprovação do projeto e os últimos a expansão das fronteiras agrícolas, aumentando seu mercado.

Ademais, não se sabe quantas vidas foram perdidas. Trabalhadores de todos os locais do país, sobretudo do Nordeste, de Goiás e de Minas Gerais, foram a força de trabalho responsável pela consumação da obra. Trabalhando, como sempre, em condições análogas à escravidão, puseram, suor e sangue – literalmente – para a realização da “meta-síntese”. É importante salientar, ainda, que Brasília expurgou a camada pobre da sociedade para as periferias da capital, criando aquilo que hoje conhecemos por cidades-satélites, isto é, zonas com grande índice de miséria. Criou-se, portanto, uma grande segregação entre abastados e pobres.

Por fim, a nova capital, ao isolar-se em uma região distante de boa parte da população, criou um grande abismo entre governo e população. O efeito disto, ora, é o “escanteamento” das demandas sociais.

Dito tudo isso, antes de celebramos qualquer acontecimento, devemos externar as outras histórias, pois como diria a intelectual nigeriana Chimamanda Adichie, a história única é perigosa. Sendo assim, algumas questões tornam-se substanciais: foi bom para quem? deu-se a que custo? quais suas consequências? Ao realizarmos esse exercício reflexivo, veremos que existe pouco a se comemorar...

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