As Ilusões Perdidas

É notável quantos democratas, socialdemocratas, esquerdo-progressistas acreditavam no legalismo democrático da oficialidade das forças armadas! Não lembravam das ilusões perdidas do “dispositivo militar legalista” de João Goulart? E a crença nas instituições judiciárias?

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Os dias de quarentena têm me possibilitado leituras, releituras e reflexões novas e/ou velhas sobre a(s) esquerda(s), seus discursos e práticas no Brasil, a partir de livros um tanto distantes ou um tanto recentes.

Nestes últimos dias, tendo me chegado às mãos “O colapso da democracia no Brasil: da Constituição ao golpe de 2016”, de Luís Felipe Miguel, não resisti ao cotejamento com a “A revolução faltou ao encontro: os comunistas no Brasil”, de Daniel Aarão Reis.

Ainda em choque pela leitura do primeiro; com aquela sensação de quem comenta um jogo já jogado, vencido pelo adversário; me pus a refletir sobre as marcas que me deixaram o segundo, quando o li, ainda em meados dos anos 90, mal saído da adolescência, vivida em grande parte sob a memória da ditadura.

Da leitura de ambos, me veio um sentimento de impotência por não poder mudar o resultado do jogo perdido, e, ao contrário do zagueiro perna de pau que puxa pelo chavão “erramos nos detalhes”, me abate uma outra impressão, mais inspirada em Reis que em Miguel: “como não percebemos?”; “Como nos deixamos iludir?”

Na releitura que fiz de “A revolução faltou ao encontro”, embora lhe reconheça o caráter memorialista, talvez mesmo autoindulgente, mais uma vez me chamou a atenção algumas das formulações conceituais nele usadas, especialmente aquelas que o autor chama de “estratégia da tensão máxima” e de “missão revolucionária do proletariado”!

Mas, também destaca Reis, e nisso, penso eu, talvez se aproxime da leitura que faz Miguel sobre os golpes de 2016 (deposição de Dilma Rousseff) e de 2018 (eleição de Jair Bolsonaro), entre as formulações acima, o “salvacionismo de esquerda”, segundo o qual a “justiça de nossas ideias e nossas boas intenções”, por si, “asseguraria a vitória de nossa causa”!

Afinal, como dizia uma antiga canção infantil, “o bem vence o mal!”

Talvez não seja coincidência que o tal proletário revolucionário não tenha ido ao encontro da revolução. E é provável que também não o seja o fato de que esteja entre os mais pobres, maiores benificiários das políticas sociais compensatórias dos governos petistas, uma das maiores rejeições ao PT.

É notável quantos democratas, socialdemocratas, esquerdo-progressistas acreditavam no legalismo democrático da oficialidade das forças armadas! Não lembravam das ilusões perdidas do “dispositivo militar legalista” de João Goulart? E a crença nas instituições judiciárias? Em algum momento, deixaram elas de serem representações do corporativismo patrimonialista das elites do atraso?

Pois é, o “povo, as classes trabalhadoras, faltaram ao encontro”! 

Mas, agora, perdido o jogo, perderemos nós, democrata-esquerdistas, as ilusões? Ou ainda vamos esperar o segundo tempo? A prorrogação? 2022?

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