As lágrimas de Darcy Ribeiro e Leonardo Boff

Confesso que me emocionei mais que o normal quando vi Leonardo Boff aproximando-se, com a sua bengala, da porta do estúdio da TVPE, no Centro do Recife, onde gravaríamos uma entrevista de quase uma hora de duração para o Trilhas da Democracia

Leonardo Boff em frente à PF em Curitiba, após ser impedido de visitar Lula
Leonardo Boff em frente à PF em Curitiba, após ser impedido de visitar Lula (Foto: Joka Madruga/Agência PT)

Confesso que me emocionei mais que o normal quando vi Leonardo Boff aproximando-se, com a sua bengala, da porta do estúdio da TVPE, no Centro do Recife, onde gravaríamos uma entrevista de quase uma hora de duração para o Trilhas da Democracia – entrevista esta que teve a sua primeira parte exibida no domingo, 8 de dezembro, centrada nas discussões sobre as transformações pelas quais vem atravessando a Igreja Católica sob a liderança do Papa Francisco e a superação dialética da teologia da libertação pela ecoteologia da libertação.

Imediatamente, me veio à mente a cena do seu curto depoimento, quando lhe foi proibida a visita ao ex-presidente Lula, em abril de 2018, na sede da Polícia Federal em Curitiba, junto ao Prêmio Nobel da Paz, no ano de 1980, Adolfo Pérez Esquivel. Naquela ocasião, Leonardo Boff, com a voz embargada, chorou.

Ato contínuo, lembrei-me do relato feito pelo próprio Leonardo Boff sobre o encontro que teve com o antropólogo Darcy Ribeiro, nos seus últimos momentos de vida. O encontro entre dois grandes intelectuais “separados pela fé”: um homem de profunda crença em Deus e um homem convictamente ateu, que sentia a proximidade do seu fim e que se propunha a refletir sobre o tema da morte de um ponto de vista metafísico. De acordo com Leonardo Boff, depois de lhe ter afirmado que Deus o receberia de braços abertos no céu, Darcy Ribeiro replicou dizendo: “Como gostaria que fosse verdade! Minha mãe morreu cheia de fé e morreu tranquila, eu invejo você, que é um homem inteligente e de fé. Eu não tenho fé. Como gostaria que fosse verdade”. Naquela ocasião, Darcy Ribeiro derramou uma lágrima, silenciou, sofreu uma queda acentuada de pressão e teve que ser levado. Desde que me deparei com o relato de Leonardo Boff sobre o encontro acontecido nos idos de fevereiro de 1997 - mês e ano da morte de Darcy Ribeiro - em todas as ocasiões nas quais atravessei momentos de dor e sofrimento, repeti comigo mesmo em voz baixa: “Eu não tenho fé. Como gostaria que fosse verdade”. Frente a frente com Leonardo Boff, já sentados, tendo ao fundo o cenário do Trilhas da Democracia, a lembrança de Darcy Ribeiro voltou a me rodear. Dessa vez, em 1986, quando, depois de quatro anos à frente do revolucionário projeto dos Centros Integrados de Educação Pública (CIEPs), como vice-governador de Leonel Brizola, Darcy Ribeiro concorre à sucessão do governo do estado do Rio de Janeiro e perde a eleição para Moreira “gato angorá” Franco – o candidato do PMDB que prometia acabar com a violência no estado em seis meses.

Naquela ocasião, fui eu a chorar, pela primeira vez por motivações políticas.

ps. a segunda parte da entrevista com Leonardo Boff será veiculada no domingo, 15/12, às 17h. Em questão: a conjuntura política brasileira, em particular, o antagonismo existente entre os projetos representados por Lula e Bolsonaro.

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