As mudanças sociais após o fim da Guerra Fria: o Mercado como ideologia

A chamada vitória do capitalismo liderada pelos Estados Unidos tem se mostrado na verdade uma vitória das elites econômicas capitalistas, que ampliaram sua acumulação de capital em detrimento das massas trabalhadoras

Operador do mercado de ações em meio à pandemia do coronavírus. 27/3/2020.
Operador do mercado de ações em meio à pandemia do coronavírus. 27/3/2020. (Foto: REUTERS/Kai Pfaffenbach)
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A Guerra Fria foi um período que se estendeu do final da Segunda Guerra Mundial até o final do século vinte, tendo como marco a queda do chamado muro de Berlim e posteriormente, a dissolução da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, conhecida pela sigla URSS, e do bloco socialista de partido único no leste europeu.

Este período ficou marcado pela rivalidade entre duas potências mundiais, os Estados Unidos da América, identificados pela sigla EUA, e União Soviética, em diversos setores, mas principalmente na esfera política, econômica, militar e social, cada uma advogando a superioridade de seu próprio sistema ideológico. De um lado, havia o liberalismo e a livre iniciativa nos EUA, enquanto do outro, estava representado o planejamento centralizado soviético. Esta luta era apresentada pelos dois lados como uma disputa entre os modos de produção capitalista e socialista, que os países do mundo deveriam adotar para seu desenvolvimento, apesar de haver outros modos de organização econômica e social dentro do próprio capitalismo e socialismo, como as experiências social-democratas no norte da Europa e a experiências chinesas e iugoslavas.

Embora esta rivalidade não tenha desembocado em um conflito armado entre as superpotências, esta constante ameaça serviu como máquina de propaganda para ambos os lados, para cooptar novos aliados e manter as suas populações sob controle. Conforme relata o escritor Eric Hobsbawm no livro “Era dos Extremos”, com a Guerra Fria, houve mudanças profundas do panorama mundial, com o fim do cenário político anterior, observando mudanças como o desaparecimento de impérios, supressão de monarquias e o rebaixamento da importância e influência de outrora grandes potências como Alemanha e Inglaterra. Além disso, a disputa entre os dois blocos congelou ou tutelou disputas e conflitos internacionais, para impedir que o desatino do aliado de alguma superpotência pudesse afetar a relação entre ambas, ao mesmo tempo em que influenciavam disputas internas principalmente nas nações do terceiro mundo. Por fim, os países do mundo foram cheios de armas e equipamentos bélicos, como demonstração de força e para firmar a sua posição diante do adversário no eterno jogo de ameaças. 

No entanto, um cenário que parecia durar por muitos séculos, se acabou no final do século vinte.  A URSS se desmanchou sob o peso de suas próprias contradições e levou consigo o sistema de economia planificada e partido único que se condicionou chamar de socialismo, restando aos EUA a posição de única superpotência e ao capitalismo o destino de ser o sistema hegemônico mundial. Este ponto final na guerra fria e no sistema ideológico rival deixou caminho livre para que as elites econômicas levassem adiante um processo de consolidação e expansão do chamado neoliberalismo, doutrina que prega a redução do Estado aos níveis mínimos possíveis e a hegemonia do mercado sobre as relações econômicas. Importante observar que a economia de mercado é uma estrutura institucional onde toda a renda deve vir da venda de alguma coisa e a produção pelo lucro toma o lugar da produção pela subsistência, característica de outras épocas. O aprofundamento das relações capitalistas acaba por submeter toda a sociedade aos padrões do mercado. Este sistema de dependência do mercado leva as relações sociais a  adotarem os imperativos da acumulação, da competição e da maximização do lucro.

Nesse sentido, se pode observar uma significativa mudança social no pós-Guerra Fria. Se por um lado não existem mais superpotências competindo ideologicamente entre si ou o risco iminente de conflitos atômicos, por outro lado, se observa que o individualismo e a competição são valores das novas sociedades, resultando em cada vez mais desigualdade social e consequentemente, novos conflitos principalmente no interior do países pobres e entre nações a partir de disputas que se encontravam congeladas. Ao mesmo tempo, a redução dos investimentos estatais na construção de Estados de bem estar social principalmente no continente europeu, bem como o papel dos governos como indutores das atividades econômicas, gerou um grande recuo na qualidade de vida das pessoas, ao mesmo tempo em que a proporção de riqueza acumulada pelas camadas mais ricas da sociedade explodiu.

Diante deste cenário, é possível observar novas mudanças sociais, principalmente causadas por crises econômicas que possuem suas raízes na desregulação do setor financeiro. As migrações em massa principalmente de pessoas fugindo dos conflitos do oriente médio, associada à queda da qualidade de vida nos países ricos, tem sido utilizada por grupos de extrema direita e populistas, que através das novas tecnologias de comunicação, como as redes sociais, passam a difundir sua retórica de racismo e xenofobia, apelando para o sentimento de medo e angústia das pessoas, conquistando posições nos órgãos de poder estatais e impondo sua agenda autoritária e preconceituosa. Exemplos desse tipo de líder ou partido que conseguiram alçar ao poder abundam nos dias de hoje.

Essa situação, caso não seja contida pelos grupos que mantêm posições humanistas e civilizatórias nacionais, pode desembocar em conflitos semelhantes aos observados no período entre guerras, onde líderes autoritários chegaram democraticamente a liderança de várias nações e arrastaram o mundo para um conflito sem precedentes. Pode-se dizer que o fim da Guerra Fria, embora tenha contribuído para que o mundo se tornasse de certa forma mais unido, também contribuiu para o nascimento da atual crise. A chamada vitória do capitalismo liderada pelos Estados Unidos tem se mostrado na verdade uma vitória das elites econômicas capitalistas, que ampliaram sua acumulação de capital em detrimento das massas trabalhadoras, gerando ambiente ideal para proliferação do caos por um lado e de novos conflitos globais, por outro.

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