As omissões dos monarcas Roberto Carlos e Pelé

Vou tratar de um assunto polêmico: as omissões de duas figuras públicas intituladas de reis. O rei Roberto Carlos e o rei Pelé

Vou tratar de um assunto polêmico: as omissões de duas figuras públicas intituladas de reis. O rei Roberto Carlos e o rei Pelé.

Não falarei aqui do talento musical, reconhecido por muitos, de um, nem da habilidade em campos de futebol de outro, nem da omissão de Roberto Carlos em defender abertamente a luta contra o preconceito aos deficientes físicos, nem do escamoteamento de Pelé sobre a questão do genocídio, da perseguição e do preconceito contra os negros. Tampouco vou falar da subserviência da dupla em relação à ditadura militar. Iiiii, falei!

Pensei em escrever este texto após assistir, recentemente, no Canal Brasil, o documentário Jovem aos 50 — A História de Meio Século da Jovem Guarda, de Sergio Baldassarini Junior. O filme retrata a cena musical na década de 60, destacando o programa Jovem Guarda, da TV Record, que durou três anos, de 1965 a 1968. Eu era então uma criança e minha família, como a família da maioria dos brasileiros na época, assistiam ao programa, ouviam o tempo todo as músicas de mais de uma dezena de cantoras e cantores.

A grande maioria dos personagens dessa época deu depoimento ao documentário, no qual Roberto Carlos é justamente a figura mais destacada nos relatos. Mas adivinhem quem se recusou a dar depoimento para o filme? Sim, ele, o rei Roberto Carlos.

Lá estão, entre outros, o parceiro fiel Erasmo Carlos, a "maninha" Wanderléa, o "queijinho de Minas", Martinha, Valdirene, Nilton César, Prini Lorez, Ary Sanches, Ed Carlos, Wanderley Cardoso, Netinho (Os Incríveis), Leno e Lilian, Golden Boys, Trio Esperança, Cyro Aguiar, Sérgio Reis, The Jordans, Deno da dupla com Dino, Jerry Adriani... Mas ele deu bolo. O rei, com suas manias, não deu as caras. Certamente, sobrou persistência ao batalhador Sergio Baldassarini Junior, que, pelos créditos, só faltou servir cafezinho para os entrevistados.

E, assistindo a esse belo documentário, que me reportou à infância, eu me lembrei do documentário, também comemorativo de um cinquentenário, do cineasta e meu grande amigo José Carlos Asbeg, realizador do filme 1958 – O Ano em que o Mundo Descobriu o Brasil. A produção, lançada em 2008, conta toda a trajetória da conquista da Copa do Mundo de Futebol de 1958 pelo Brasil. O incansável Asbeg entrevistou todos os grandes jogadores brasileiros e estrangeiros que participaram do campeonato. Um não deu depoimento. Sabem quem? Sim, ele mesmo, Pelé, o rei do futebol.

Custaria tanto assim se ombrear a Nilton Santos, Djalma Santos, Didi (Asbeg tinha uma entrevista antiga com o craque), Zagallo, Mazola, Moacir, Dino Sani, Zito e Pepe? Isso sem contar os grandes craques que enfrentaram o Brasil e demonstraram orgulho em falar da vitória brasileira, os dirigentes suecos.... Sim, pelo jeito custaria muito.

Bom, mas se o rei Pelé não está lá no filme, dando seu depoimento, ele está jogando. Asbeg não brigou com os fatos, como um grande documentarista e jornalista que é. Lá está Pelé ao longo de todo o maravilhoso filme de Asbeg.

O filme sobre 1958, ano em que eu nasci, aliás me fez chorar de emoção, assim como o documentário sobre a jovem guarda.

Que reis são esses? Que reis são esses que não descem dos seus tronos para falar aos seus súditos sobre aqueles momentos mágicos?

Que reis são esses que emocionam as pessoas ao cantar e ao jogar, mas que se recusam a juntar-se a seus parceiros de música e futebol – parceiros que foram fundamentais para que ambos chegassem ao reinado?

O importante é que emoções eu vivi. Mas que a ausência deles dói, isso dói muito. O descaso e o alheamento não combinam com a nobreza de um rei. Um soberano não deveria ser engolido pela soberba.

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