As periferias não conseguem respirar

A pandemia do novo coronavírus atinge a todos, mas de forma muito mais grave a população que reside nas periferias e favelas. No país, milhões de pessoas moram de forma precária nas periferias, cortiços, ocupações e, sobretudo, nas favelas

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A pandemia do novo coronavírus atinge a todos, mas de forma muito mais grave a população que reside nas periferias e favelas. No país, milhões de pessoas moram de forma precária nas periferias, cortiços, ocupações e, sobretudo, nas favelas.As condições de vida da população que residem nessas comunidades já não eram favoráveis, mas com o advento da coronavirus passaram a ser ainda mais dramáticas, pois o contágio avança como um tsunâmi pra cima da população mais empobrecida.

Segundo o censo do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), em 2010, o Brasil contava com 11,4 milhões de pessoas morando em 6.324 favelas, espalhadas em 322 municípios brasileiros. São assentamentos precários, sem saneamento básico, com pouco ou nenhum sem acesso à água encanada, que garanta condições mínimas para prevenção e proteção contra a covid-19.Mapa divulgado pela prefeitura de São Paulo mostra que os 20 distritos com mais mortes suspeitas e confirmadas pela covid-19 são os que concentram o maior número de favelas, cortiços e conjuntos ou núcleos habitacionais. Tendo o Estado abandonado as periferias, deixando seus moradores sem acesso à direitos básicos indispensáveis à sobrevivência, como saúde, água, saneamento, moradia digna e renda. 

A omissão governamental predomina nas comunidades periféricas e a propagação em massa do vírus, tem levado à contaminação de milhares de pessoas que vivem em condições precárias e em ambientes absolutamente insalubres.Tamanha desigualdade social é resultado da falência do sistema capitalista em escala global, transformando as cidades em mercadoria, imperando os interesses do rentismo e da especulação imobiliária.  Sem atitudes firmes e concretas dos governos corremos o risco de levar à morte milhares de pessoas e ao consequente aumento da fome, miséria e desemprego. Percebe-se que ocorre nas periferias e favelas a menor adesão ao isolamento social, provavelmente por influência do discurso do presidente Bolsonaro, que tem estimulado o fim da medida. 

Outro fator que explica a baixa adesão é elevado índice de desempregados ou  de trabalhadores informais, que saem de suas casas à procura de renda.Se de um lado o isolamento social recomendado pela OMS (Organização Mundial da Saúde) tem sido a maneira mais eficaz para  diminuir, ou mesmo, evitar o aumento dos números de contaminações eo colapso do sistema de saúde, por outro, existe a preocupação de como estabelecer medidas para conter a disseminação do vírus nas comunidades mais pobres, onde moradores e vizinhos estão muito mais próximos uns dos outros, como é o caso das favelas, em que por vezes 4, 5 e até 8 pessoas  convivem num único cômodo.Pesquisa recente do Instituto Data/Locomotiva realizada em 269 favelas do país aponta que 80% dos moradores têm medo que falte comida para seus filhos, mas, mesmo assim, 71%, se opõem ao fim do isolamento. 

O levantamento revela ainda que 8 em cada 10 moradores tiveram queda de renda após o isolamento, apenas 13% têm mantimentos em casa suficiente para pelo menos dois dias e menos da metade para uma semana.Em 2 de abril, a CMP (Central de Movimentos Populares) lançou a Campanha Movimentos Contra a Covi-19. Desde então, entidades e grupos vulneráveis ligados à CMP organizaram 92 pontos de arrecadação e distribuição de alimentos e produtos de higiene e limpeza em todo o país. Já arrecadamos e distribuímos 99 mil cestas básicas, o que corresponde a duas mil toneladas de alimentos. 

Contudo, temos consciência de que nossa ação, embora seja muito importante, não é suficiente para a resolução do enorme problema social presente nas periferias e favelas.Para além do rápido pagamento do auxílio emergencial, defendemos ações urgentes de todos os níveis de governos (municipal, estadual e federal) para o enfrentamento dessa crise sanitária, econômica e social em curso, especialmente para proteger o emprego, a renda, a pequena e a média empresa.Sabemos que há muitas ações que dependem de vontade política, criatividade e articulação. Nesse sentido, os governos poderiam distribuir máscaras para a população de favelas, ocupações e cortiços, integrar ação de agentes comunitários e agentes da saúde para fazerem o mapeamento das pessoas em situação de maior risco (hipertensos, cardiopatas, diabéticos, em tratamentos oncológicos), entre outros.Abrir UBSs (Unidade Básica de Saúde) mais próximas às favelas, por 24 horas e disponibilizar linhas de microcrédito especial para os microempreendedores das favelas.

 O Estado tem a obrigação com toda a população, mas é preciso proteger de forma prioritária as pessoas mais vulneráveis moradoras das periferias e favelas.Somado à desigualdade social, a população moradora das periferias é a principal vítima do racismo estrutural, cultural e institucional, expresso na extrema violência praticada pelo braço armado do Estado: as polícias. Além do capitalismo, o racismo é fator direto da causa da desigualdade social e violência.  

Os assassinatos em massa de negros desarmados e inocentes, por parte de policiais brancos nos EUA, em outros países do mundo e, aqui no Brasil, em plena pandemia do novo coronavírus é algo que precisa de uma basta.Os casos mais recentes dos assassinatos de George Floyd no EUA, o de João Pedro e a morte do menino Miguel, infelizmente, são exemplos da morte de milhares de vítimas, abatidas todos os dias,  nas periferias e favelas do Brasil, um verdadeiro genocídio da população negra. 

Em 2017, os homicídios entre jovens negros eram quase três vezes maiores do que brancos e chegou a 185 por 100 mil, aponta estudo do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas).  Seja sufocado pela ausência de renda, condições precárias de habitação; - situação agravada com a pandemia do coronavírus - ou seja,  pelo racismo e violência policial, o povo das periferias do Brasil, assim como George Floyd, não consegue respirar.Mesmo compreendendo a importância do isolamento social como forma de evitar a propagação da covid-19, não resta outro caminho a não ser sair às ruas em luta contra o fascismo, o racismo , por melhores condições de vida e pelo afastamento do governo genocida de Bolsonaro.

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