As razões econômicas e sociais da crise afegã

"O futuro do Afeganistão continua sombrio e incerto", escreve o sociólogo Marcelo Zero. Para ele, "enquanto não houver um período longo de paz e estabilidade, combinado com fortes investimentos estruturantes em sua economia e, sobretudo, em sua população miserável, nada mudará"

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(Foto: Reuters)


Os maiores assassinos do Afeganistão não são os talibãs. Sequer são as forças de ocupação, que mataram cerca de 200 mil afegãos, incluindo crianças, sem que ninguém no Ocidente se comovesse. 

Os maiores assassinos do Afeganistão são a miséria, a fome e a guerra interminável. 

A mídia ocidental, que se comove com a imagem de mães que entregam seus filhos para soldados no aeroporto de Cabul, de modo a evitar que eles sejam perdidos ou pisoteados no caos reinante, não se comove com fato estrutural e muitíssimo mais grave de que o Afeganistão tem ainda uma das maiores taxas de mortalidade de infantil do mundo, seis vezes superior à do Brasil. 

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Cerca de 90% das famílias afegãs declaram que não têm renda suficiente para um adequado provimento a seus filhos e 72% delas estão abaixo da linha da pobreza.  A miséria, a extrema pobreza, afeta 36% da população afegã.

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Como resultado, 41% das crianças afegãs exibiam, em 2017, claros sinais de má nutrição, índice que deve ter aumentado bastante, nesses últimos anos. Um terço das meninas afegãs sofre de anemia. 

Há alta prevalência de carência das vitaminas A e do complexo B em crianças afegãs até os 5 anos e somente 43% delas são adequadamente amamentadas. 

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Apenas 28% da população maior de 15 anos do Afeganistão é minimamente alfabetizada.  Os poucos que conseguem estudar o fazem por somente 8 anos, em média. No caso das mulheres, apenas 4 anos. 

Muito embora a aplicação da sharia atrasada do Afeganistão explique essa diferença entre homens e mulheres, ela não explica o quadro geral de ignorância e analfabetismo. O que explica esse quadro geral é, novamente, a pobreza brutal e generalizada.  Há poucas escolas seculares e, hoje, cerca de 40% das crianças afegãs estão submetidas ao trabalho infantil. Nas zonas rurais, onde vivem 75% da população afegã, as famílias não tem condições de manter filhas e filhos nas escolas.

O Afeganistão não tem estatísticas muito confiáveis sobre o mercado de trabalho. Porém, em 2017, a OIT estimava que a taxa de desemprego real do Afeganistão estava em cerca de 30%, a mais elevada do mundo. O subemprego, entretanto, é bem maior. A informalidade é generalizada e não há rede de proteção social.

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Esse quadro estrutural de miséria, pobreza, desigualdade, falta de oportunidades, analfabetismo, desemprego e subemprego, carência de infraestrutura básica etc. não sofreu mudanças significativas para melhor, durante a ocupação norte-americana. 

Ao contrário, desde 2014, com a progressiva retirada das tropas e da ajuda financeira externa, esse quadro vem se deteriorando. Ademais, as mudanças climáticas também estão afetando o Afeganistão. Secas e enchentes prejudicaram bastante a agricultura afegã nos últimos anos, o que aumentou a fome e comprometeu as atividades econômicas que ocupam a maioria dos afegãos. 

Face a esse cenário, é fácil entender porque tantos afegãos queiram deixar o país. Mais do que escapar do Talibã, os afegãos querem escapar da miséria, do desemprego, dos conflitos e do caos. 

A bem da verdade, os afegãos estão emigrando em massa há bastante tempo. Somente no Irã, há cerca de 3 milhões de refugiados afegãos. Há também mais de meio milhão de deslocados internos.

É fácil entender também o estado de ânimo dos afegãos. Em 2019, foi feita uma pesquisa sobre isso. Perguntaram se eles se lembravam de terem rido ou sorrido no dia anterior. Apenas 36% disserem que sim.

A ocupação norte-americana criou uma economia artificial e insustentável. Cerca de 80% dos gastos públicos eram financiados pela ajuda externa. Além disso, os dispêndios com a imensa máquina de guerra ajudavam a dinamizar certos setores da economia afegã.

Os EUA gastaram mais de US$ 1 trilhão durante a ocupação. Não obstante, esse dinheiro foi quase todo apropriado pelos governos fantoches corruptos e violentos do país e por “contractors” norte-americanos. O grosso da população afegã não viu a cor dessa montanha de dinheiro. 

Assim, as expectativas positivas, de melhoria das condições de vida, que existiam no início da invasão dos EUA, foram rapidamente dissipadas. A extrema violência das forças de ocupação e das forças de segurança internas se encarregou, de outro lado, de aumentar o apoio ao Talibã, especialmente nas áreas rurais.

O rápido colapso do governo fantoche, após a saída definitiva das forças invasoras, só surpreende os mal informados. Esse governo nunca controlou, de fato, o Afeganistão. Controlou, mal e porcamente, as poucas cidades do país. O resto continuou entregue a chefetes tribais e, de forma crescente, nos últimos anos, ao Talibã. 

No início da segunda década deste século, já estava claro que o Afeganistão se havia convertido em um novo Vietnã. Uma guerra inútil, cruel e impossível de ganhar.

Deve ser dito, com todas as letras, que o Talibã controlou facilmente o país, praticamente sem nenhuma resistência, porque eles eram e são muito mais populares que o governo corrupto e violento que caiu. Claro está que o Talibã é uma força reacionária, atrasada e também muito violenta, mas boa parte da população, especialmente a maioria rural, o acha mais confiável que o antigo governo. Um mal menor que poderia assegurar um mínimo de segurança e estabilidade a um país imerso no caos.

É preciso considerar também que o Talibã mudou, ou foi forçado a mudar, de estratégia. Vem negociando a paz com os EUA e China há bastante tempo. Aos EUA, ainda no governo Trump, prometeu não atacar americanos e não perseguir adversários, em troca de uma retirada pacífica e definitiva. À China, prometeu não servir de abrigo para organizações terroristas islâmicas, em troca da inserção do Afeganistão na Nova Rota da Seda e investimentos estruturantes na economia afegã.  

Até agora, o Talibã parece estar cumprindo suas promessas. Apesar de o Talibã despertar fundadas suspeitas, não é hora de demonizá-lo e isolá-lo a priori, como pretendem fazer a União Europeia, boa parte da mídia ocidental e setores conservadores dos EUA, que parecem desejar a volta da guerra.

O futuro do Afeganistão continua, contudo, sombrio e incerto. Enquanto não houver um período longo de paz e estabilidade, combinado com fortes investimentos estruturantes em sua economia e, sobretudo, em sua população miserável, nada mudará.

O Afeganistão é chamado, com razão, de o “cemitério dos Impérios”. Mas a verdade crua e brutal é que os Impérios transformaram historicamente o Afeganistão em um cemitério de gente. Gente inocente massacrada por conflitos, miséria e fome. 

Portanto, a aposta mais racional e humana é apostar na paz, em negociações e na capacidade do povo afegão de resolver seus conflitos.

A democracia, por óbvio, jamais poderá ser algo imposto. Porém, num ambiente de paz e desenvolvimento, ela tem uma probabilidade muito maior de surgir e de se consolidar. 

Como escreveu magnificamente o poeta afegão Matiullah Turab, semianalfabeto, pobre e que vive em uma pequena oficina mecânica em Khost:

A guerra se transformou em comércio
Cabeças foram vendidas
como se tivessem o peso de algodão
e na balança sentam-se tais juízes
que sentem o gosto do sangue, e então decidem o preço.

Como diria aquele outro poeta, um britânico letrado e rico, é hora de dar uma chance à paz.

Ela não tem preço.

Este artigo não representa a opinião do Brasil 247 e é de responsabilidade do colunista.

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