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Urariano Mota

Autor de “Soledad no Recife”, recriação dos últimos dias de Soledad Barrett, mulher do Cabo Anselmo, entregue pelo traidor à ditadura. Escreveu ainda “O filho renegado de Deus”, Prêmio Guavira de Literatura 2014, e “A mais longa duração da juventude”, romance da geração rebelde do Brasil

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As tragédias de escritores

Quando olhamos as vidas de todas pessoas, nelas sempre vemos dramas e tragédias. Mas nas dos escritores elas trazem um imperativo, que destaco a seguir

Manoel Carlos (Foto: Divulgação / TV Globo)

Na Folha de São Paulo, vejo o obituário do escritor Manoel Carlos, falecido no sábado 10/01/2026:   

“Dramas da morte precoce e trágica da primeira mulher e dos três filhos. Maria de Lourdes, aos 37 anos, tropeçou no salto alto e morreu ao cair da escada de casa. Eles tinham dois filhos, que também morreriam prematuramente. O mais novo, Ricardo, portador de HIV, com 32, em 1988, e o primogênito, Manoel Carlos Jr., de infarto, aos 58, em 2012.

Traumatizado, Maneco falava da alegria inesperada de ter tido, já aos 60 anos, um filho caçula, Pedro, do terceiro casamento, com Betty —eles tiveram também uma filha, a atriz Júlia Almeida. Era uma espécie de pai-avô e tinha 81 anos quando o garoto, aos 22, morreu de mal súbito, em 2014, menos de dois anos após o primogênito...

Na sua novela ‘Sol de Verão’ (1982), sofreu o trauma pela morte de Jardel Filho, que fazia o papel do protagonista. Foi quando passou uma temporada de sete anos fora da Globo”. 

Quando olhamos as vidas de todas pessoas, nelas sempre vemos dramas e tragédias. Mas nas dos escritores elas trazem um imperativo, que destaco a seguir. 

Há dias, falei com um grande amigo sobre esses dramas e tragédias que acossam todo escritor: 

“Para quem escreve, raramente ou nunca existem as condições objetivas para que escreva. As chamadas condições ideais, quase nunca.  Aliás, nunca! E mais não digo nem falo porque me dói muito dizer o que já fiz para continuar a escrever. Que coisas terríveis cometi!”. 

Tragédias, erros, má fama, desgraças, sempre vêm. O que fazemos delas é o que nos salva, se houver salvação.  Assim foi, assim é, assim tem sido. Mas vivemos todos sob o exemplo de grandes amigos. Não saem da memória as presenças dos que resistiram sob a ditadura. E resistem até hoje, agora mesmo com bravura, a doenças e males, como Hugo Cortez, como Arnóbio Pereira, como Givaldo Gualberto. Que desculpas podemos ter para não realizar o melhor de nossas forças criativas? “Levanta-te e anda” é uma ordem necessária, sempre.  

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.