As veias reabertas da América Latina e o Eterno Retorno de Nietzsche

Que a democracia, como aquela vivenciada no último pós-guerra, metamorfoseie-se e aprimore-se paulatinamente, que ela vire a regra dos episódios históricos e não seja um tímido lampejo de exceção

Troca da Bandeira Nacional marca festividades do aniversário de Brasília.
Troca da Bandeira Nacional marca festividades do aniversário de Brasília. (Foto: Pedro Ventura/Agência Brasí­lia)

Região-chave da geopolítica mundial desde os tempos da chegada europeia em suacosta, percebe-se novamente a América Latina como um dos palcos mais importantes das tensões sócio-político-econômicas vividas pela civilização mundo afora.

Tem-se como fato consumado, nesta parte do globo, suas riquezas naturais abundantese a cobiça recorrente gerada em consequência desta condição. Destarte, mergulhada neste duradouro processo de colonização e disputa política – primeiro com a Europa luso-hispânica contando com negociatas e ordens dos verdadeiros patrões anglo-saxões, desembocando na poderosa influência neocolonizadora norte-americana gerada a partir do século passado -, denota-se, lamentavelmente, que a América Latina conheceu até agora apenas pontuais elãs democráticos em sua complexa e efervescente história.

Na década passada, pois, houve uma vez mais este impulso de respeito a um sentidodemocrático entre os países do cone sul. Viu-se este processo, outrossim, dentro de seus territórios na relação Estado/sociedade. Sem falar, ademais, de um considerável grau de soberania atingido por essas nações em termos diplomáticos e a cooperação político- econômica constatada nos acordos e tratados do Mercosul. O Brasil, assim, funcionou como uma espécie de carro-chefe desta tentativa de emancipação latino-americana, bem como mediador de importantes desentendimentos políticos entre os Estados Unidos e a Venezuela.

As veias abertas da América Latina

Nesse sentido, é sabido que o período em que Eduardo Galeano lançou seu livro maiscélebre foi marcado pela Guerra Fria (1945-1991) e pelo início de um ciclo de regimes ditatoriais nos países latino-americanos. A crise do preço dos barris de petróleo em meados da década de setenta e o bloqueio econômico imposto a Cuba são ingredientes igualmente importantes no caldo deste enredo tensionado e imprevisível.

Havia uma ingerência velada das potências do hemisfério norte, notadamente dosnorte-americanos, vis-à-vis das decisões e nomeações políticas nos países sulamericanos, culminando em golpes de Estado e perseguições a opositores que contestavam os regimes autoritários. Um banho de sangue e violência através de mortes e tortura.

Foi revelado pela CIA décadas depois, por intermédio de documentos que datam daépoca em questão, a confirmação da imiscuição estadunidense nos rumos políticos brasileiros, chilenos, argentinos, colombianos, uruguaios etc.

Importante salientar, nesse diapasão, que certos episódios e tensões históricos não serepetem à risca, uma vez que seus personagens e determinadas conjunturas situados no tempo, inexoravelmente, variam, metamorfoseiam-se, enfim, mudam ao andarem lado a lado com a história que não para de se escrever em suas veredas. O que não deixa de ser relevante,  porém, é o diálogo entre certos momentos, contextos e episódios da história passada, dessa que se faz no agora e daquela que está por vir.

O Eterno Retorno

Por esse ângulo, um dos aspectos mais poderosos do Eterno Retorno diz respeito aosciclos repetitivos da vida e, por que não, da história: as pessoas estão sempre presas a um número limitado de fatos, fatos estes que se repetiram no passado, ocorrem no presente e se repetirão no futuro, como por exemplo, guerras, epidemias, pobreza, luta de classes etc.

Ou seja, considerando o tempo histórico infinito e as combinações de forças emconflito (países em disputa por hegemonia econômica como China e Estados Unidos por exemplo) que formam cada instante finitas, em algum momento futuro tudo se repetirá infinitas vezes. Nietzsche questiona, portanto, a ordem das coisas. Indica um mundo não feito de polos inconciliáveis, mas de faces complementares de uma mesma - múltipla, mas única - realidade. Dessa maneira, bem e mal, angústia e prazer, guerra e paz, fome e fartura, evolução e involução, progresso e regresso são, enfim, instâncias complementares da realidade - instâncias que se alternam eternamente.

A reabertura das veias

Lançados o cenário em que o autor supracitado estava inserido e a ideia do filósofopessimista, é passível de afirmação constatar certas e importantes similitudes nas histórias as quais a história oferece às civilizações em seus diferentes tempos.

Vive-se atualmente, dentre outros fatores, uma grave crise ligada ao petróleo e seusdetentores, à ganância que esse “sangue negro” gera nos grupos que o detêm. Destituições (e suas tentativas) bastante duvidosas de determinados líderes latino-americanos que põem em evidência maus hábitos que teimam em se reproduzir ao longo dos tempos, pelo menos entre o século predecessor e este. Antes foram golpes militares, hoje são guerras híbridas recheadas de fake news, manipulações e pós-verdades. O intuito, porém, aparenta ser o mesmo: a detenção do poder, seja ele geopolítico, econômico ou cultural, por parte de um punhado de oligarcas neofascista nem um pouco bem-intencionados.

Seria hoje a Venezuela, guardadas as devidas proporções de regime e de roteirohistórico-políticos, o ator que exerce o papel do personagem que outrora foi desempenhando por Cuba, sofrendo o bloqueio econômico imposto, mais uma vez, pelos Estados Unidos? As sublevações equatoriana e chilena e seus embates com o regime vigente, culminando em centenas ou milhares de prisões políticas e dezenas de mortos, seriam tão diferentes, caso perdurem no tempo, dos governos ditatoriais (como o de Pinochet), conhecidos por sua implacável perseguição e terrorismo aos que ousaram questioná-los? A morte de Marielle, que não para de estarrecer a sociedade, pelo desenrolar dos fatos a ela precedentes e subsequentes, não nos traz uma certa sensação de uma página já lida nos livros? Um déjà vu que corrói a  entranhas e assusta pela ameaça de um tempo sombrio que aparenta ressurgir de suas cinzas obscuras.

Vivencia-se, de novo, o exílio de dissidentes políticos brasileiros, ao que pareceameaçados de terem, similarmente, suas vidas tiradas deste mundo. Contempla-se, como no início dos anos trinta do século XX, o crescimento do ódio e da intolerância no que atine ao diferente, ao outro. A avultação do autoritarismo e do populismo de extrema direita que podem, como outrora, irromper em uma nova catástrofe de cunho genocida.

Nessa lógica, é difícil cunhar, categoricamente, se a história reproduz ou não seus ciclos de forma precisa. Sendo assim ou não, que a tolerância, o consenso e a ética se sobreponham aos seus antônimos nesta atualidade tenebrosa. E que a democracia, como aquela vivenciada no último pós-guerra, metamorfoseie-se e aprimore-se paulatinamente, que ela vire a regra dos episódios históricos e não seja um tímido lampejo de exceção. As veias da América Latina precisam de paz e estabilidade para irrigarem o seu coração forte e resistente a todas as doenças que teimam em prejudicar seu corpo tão complexo e incomparável – um corpo belo, profundo, diverso e imortal.

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