Às vésperas da posse, há 16 anos, Brasília era uma festa com Lula e FHC

"No final de 2002, nesta mesma época do ano, às vésperas da passagem de poder de FHC para Lula, o Brasil era um outro país, movido a alegria e esperança; Brasília vivia dias de festa", relembra Ricardo Kotscho, membro do Jornalistas pela Democracia; contrastando com o período atual, onde se fala em esquemas de segurança para a solenidade de posse e medo: "é impressionante o contraste com o que vemos agora, a menos de uma semana da posse do governo Bolsonaro (...) o que era para ser uma festa da democracia agora virou uma guerra com data marcada para começar; bons tempos, aqueles"

Às vésperas da posse, há 16 anos, Brasília era uma festa com Lula e FHC
Às vésperas da posse, há 16 anos, Brasília era uma festa com Lula e FHC (Foto: ABr | Reuters | Ag. Senado)

Por Ricardo Kotscho, para Balaio do Kotscho e Jornalistas pela Democracia - Lauro Jardim no Globo desta quarta-feira:

“A uma semana da posse, Jair, Eduardo e Carlos Bolsonaro passaram o Natal ontem puxando briga no Twitter. Os alvos foram partidos de esquerda, a imprensa e até o Facebook. Um Natal em paz.”

***

No final de 2002, nesta mesma época do ano, às vésperas da passagem de poder de FHC para Lula, o Brasil era um outro país, movido a alegria e esperança.

Brasília vivia dias de festa.

Ninguém falava em esquemas de segurança para a solenidade de posse, ninguém tinha medo de nada, um clima de alto astral tomava conta da cidade..

Eu já estava lá há quase dois meses, trabalhando no governo de transição.

Não dava conta de ir a todos os almoços e jantares que varavam a madrugada, com jornalistas e funcionários do antigo e do novo governo, misturados nos mesmos bares e restaurantes, muitas vezes na mesma mesa.

Acho que foi nessa época que comecei a ficar gordo.

É impressionante o contraste com o que vemos agora, a menos de uma semana da posse do governo Bolsonaro.

Para lembrar como foram aqueles dias, recorro mais uma vez a meu livro de memórias (“Do Golpe ao Planalto _ Uma vida de repórter”, Cia. das Letras).

Antes do final do ano, Marisa convidou minha família para almoçar na Granja do Torto.

Não fosse a presença de Martins, o mordomo, dos garçons e seguranças espalhados dentro e fora da residência, eu não teria notado nenhuma mudança nos hábitos da família Silva desde a primeira vez que fui à casa deles na Vila Pauliceia, no ABC, em 1978.

Nem o cardápio mudara: arroz, feijão, bife, salada. Tinha-se a impressão de que ninguém ali vivia a ansiedade do momento histórico que antecedia a posse do primeiro presidente operário do Brasil.

Acho que o mais nervoso era eu, preocupado com o gigantesco esquema de cobertura da imprensa nacional e estrangeira que me consumira nos últimos dias.

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Tudo fora acertado em comum acordo com a equipe da minha amiga Ana Tavares, secretária de imprensa de FHC, e o pessoal do Itamaraty, como se pertencêssemos ao mesmo governo.

Após nossa derradeira reunião, Ana me deu o conselho final:

“Vou tirar todas as minhas coisas daqui até amanhã. No dia da posse, é bom você colocar alguns retratos da família e deixar a Mara aqui tomando conta. Se não, vão acabar te tomando esta sala…”

Eu já tinha ouvido falar de disputa de poder dentro de governos, mas não imaginava que elas envolvessem também salas, tamanho de mesas e tipo de cadeiras.

O dia da posse amanheceu bonito em Brasília, depois teve até arco-iris no cerrado.

Enquanto a multidão começava a tomar todos os espaços na Esplanada dos Ministérios, lá na Granja do Torto Lula ainda dava os últimos retoques no discurso que pronunciaria no Congresso Nacional, o mais importante do dia.

Mas não foi por isso que quase Lula se atrasou para a cerimônia.

Quando o comboio presidencial, que tinha até uma ambulância, já se preparava para sair do Torto, Marisa se lembrou que precisava prender Michele, a fox terrier do casal, que vivia correndo pelos jardins.

Pouco antes das três da tarde, hora marcada para o início da festa na esplanada, Lula e Marisa embarcaram no carro com a bandeirinha e as placas da Presidência da R$pública.

Naquele momento, descobriram que a vida deles passaria a ser cronometrada por dois militares, que logo se tornariam amigos do casal: Marco Gonçalves Dias, coronel do Exército, o chefe da segurança, e Rui Chagas Mesquita, tenente-coronel da Aeronáutica, chefe da ajudância de ordens. Estava na hora de partir.

Lula queria porque queria abrir as janelas do carro blindado que estavam travadas por questões de segurança.

Brincando com o coronel Gonçalves Dias, ameaçou pular do carro para cumprimentar as milhares de pessoas que se espalhavam por todo canto no caminho do Lago Norte até a catedral de Brasília, na entrada da Esplanada dos Ministérios.

O problema foi resolvido quando Lula passou para o Rolls-Royce modelo 1953, o conversível que o levaria primeiro ao Congresso Nacional.

No início da rampa do Congresso, onde o carro enguiçou e precisou ser empurrado por seguranças, Lula ficou comovido ao ver o povo se jogando nos espelhos d´água diante dele para saudá-lo.

Foi a imagem mais bonita que guardei da posse.

Depois, na subida a pé da rampa do Palácio do Planalto, era difícil saber quem estava mais emocionado: se o presidente que entrava ou o que saia.

Lula e Fernando Henrique pareciam dois velhos amigos se reencontrando na hora de um passar a faixa para o outro.

No final da cerimonia, ao se despedir do presidente que saia, na porta do elevador do segundo andar, Lula lhe estendeu a mão e disse: “Fernando, saiba que você terá sempre um amigo aqui”, o que deixou FHC com lágrimas nos olhos.

Como Lula e sua sucessora Dilma Rousseff foram reeleitos para um segundo mandato, esta seria a última passagem do poder de um partido para outro nos últimos 16 anos, um inesquecível exemplo de civilidade, dignidade e tolerância, algo tão em falta no Brasil de hoje, a exemplo do que se pode ver na abertura deste texto.

O que era para ser uma festa da democracia agora virou uma guerra com data marcada para começar. Bons tempos, aqueles.

Vida que segue.

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