Às vésperas do dia da Independência, FHC muda a história e inventa um novo Dia do Fico

"FHC quer um tempo para se imiscuir e 'ajudar' Bolsonaro, retornando ao palco dos acontecimentos, enquanto organiza o seu campo", escreve Denise Assis, do Jornalistas pela Democracia, após o tucano criticar a reeleição e defender mandato de cinco anos. "A tentativa de 'organizar' uma frente do 'eu sozinho' para se 'contrapor' a Bolsonaro, malogrou", afirma

Fernando Henrique Cardoso
Fernando Henrique Cardoso (Foto: NACHO DOCE - REUTERS)
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Por Denise Assis, do Jornalistas pela Democracia

Fernando Henrique precisa estar no centro das atenções e do poder, como a mariposa atraída pela luz. Acontece que, não fossem os amigos da mídia, a procurá-lo e ouvi-lo para quase tudo, e ele estaria se despedindo da vida pública. Seu partido derreteu. A tentativa de “organizar” uma frente do “eu sozinho” para se “contrapor” a Bolsonaro, malogrou. Assim, desconectado da ribalta, ele tenta uma via transversa para se colocar no cenário político nacional. Astuto, tenta se aproximar do que até anteontem queria combater: o governo bolsonarista, demonstrando para com ele uma benevolência fora de hora e lugar.

Sabe que costuma ser ouvido, principalmente por ser o arauto do mercado financeiro e do empresariado, que sempre defendeu. Tem certeza de que ao acenar de forma positiva para Bolsonaro vai conseguir, talvez, abrandar as críticas a ele, mantendo-o no posto com mais boa vontade por parte da mídia e da elite, do que tem conseguido até aqui.

“Agora se tem a sensação (pelo menos eu tenho) de que o presidente está bem acomodado na cadeira que ganhou”, escreveu em seu artigo, publicado nos jornalões de hoje (6 de setembro), sinalizando que é preciso tolerá-lo. Com este espetáculo de generosidade, mostra-se magnânimo a ponto de poder se oferecer para a aproximação. E o que Bolsonaro ganha com isto? Torna-se mais palatável à elite e à classe média alta, onde sua figura tosca ainda causa incômodo.

Quanto a Fernando Henrique, tentará fazê-lo meter-se numa aventura: trocar a reeleição, que mesmo com todo o caos econômico e pandêmico se delineia possível, por um aumento do mandato de quatro para cinco anos. Para tal, não economiza cinismo, usando um “mea-culpa” fajuto sobre o golpe que perpetrou contra o país, ao instituir uma reeleição que beneficiou a si mesmo.

Seus amigos comentaristas cansaram de crucificar Manuel Zelaya, ex-presidente de Honduras (2006 a 2009), golpeado sob a alegação de que buscava uma reeleição que a Carta do país proibia. Aqui, porém, trataram com naturalidade o fato de ele se presentear com mais quatro anos de mandato, alterando a Constituição do Brasil numa votação envolta em acusações de compras de votos. E ainda tem a pachorra de inventar para a história um novo “Dia do Fico”, como descreve: “Permiti, e por fim aceitei, o instituto da reeleição” (…). “De pouco vale desmentir e dizer que a maioria da população e do Congresso era favorável à minha reeleição: temiam a vitória… do Lula”.

Sem perder a chance de alfinetar Luiz Inácio Lula da Silva, – o seu principal fantasma -, parte para a cartada final e decisiva: “Devo reconhecer que historicamente foi um erro: se quatro anos são insuficientes e seis parecem ser muito tempo, em vez de pedir que no quarto ano o eleitorado dê um voto de tipo “plebiscitário”, seria preferível termos um mandato de cinco anos e ponto final”.

Mais límpido e evidente, impossível. FHC quer um tempo para se imiscuir e “ajudar” Bolsonaro, retornando ao palco dos acontecimentos, enquanto organiza o seu campo – ligeiramente mais moderado -, e mais ao gosto do seu eleitorado. Assim, ao fim de cinco anos, verá os seus seguidores recolocar em Brasília um fiel representante da burguesia brasileira. Quem sabe, até lá, Luciano Huck esteja pronto?

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