Assim como Nero, que incendiou Roma, Trump fez o mesmo em Washington antes de bater em retirada

"Historiadores do futuro tomarão este 6 de janeiro como referência para narrar a longa agonia de um império, cujo fim se aproxima cada vez mais", avalia o jornalista José Reinaldo Carvalho sobre a invasão do Capitólio por extremistas estimulados por Donald Trump

Donald Trump e invasão do Capitólio por apoiadores de Trump
Donald Trump e invasão do Capitólio por apoiadores de Trump (Foto: Reuters)
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Por José Reinaldo Carvalho, editor internacional do Brasil 247 - O processo de declínio dos Estados Unidos teve neste 6 de janeiro de 2021 um momento marcante. Dele fez parte uma inaudita ofensiva antidemocrática e golpista que se traduziu literalmente por atos de violência que podem ser equiparados a incêndios já perpetrados por outros chefes decadentes de impérios de antanho.

Sob a conclamação e incitação do chefe de turno da superpotência imperialista, hordas de milicianos supremacistas, agentes de um novo tipo de fascismo que grassa no país norte-americano e se espalha pelo mundo, atacaram o Capitólio, sede do Poder Legislativo daquela que se considera a mais sólida democracia no mundo e apanágio das liberdades individuais e coletivas. 

O que muitos intuíam em silêncio mas se recusavam a crer, finalmente aconteceu: a intentona de golpe nos Estados Unidos, que começaria pela anulação dos resultados eleitorais, sob o pretexto de que foram fraudados. Muito embora sem o apoio das instituições permanentes e mesmo da maioria dos políticos reacionários que acompanharam Trump em sua eleição há quatro anos e compartilharam com ele seu mandato, respaldando as suas decisões, e ainda que momentaneamente conjurado e fracassado, o episódio reveste-se da maior gravidade. Expõe as vísceras apodrecidas do sistema político estadunidense. 

Doravante, a vida política nos Estados Unidos será marcada pelo fato de haver sido feita pelo chefe de Estado e de governo, com respaldo em setores fanatizados de massas, uma intentona golpista num país que sempre se jactou de ser não apenas modelo de democracia mas também de estabilidade política. E, mesmo considerando a repercussão mundial negativa na maioria dos círculos políticos dominantes, é incontornável que a instabilidade revelada no coração do sistema imperialista vai extravasar para outros países. 

A consequência mais previsível, no plano interno, é que o mandato de Joe Biden, finalmente ratificado pelo Congresso na madrugada desta quinta-feira (7), sofrerá as injunções dessa crise política. No plano externo, a intentona golpista, com todos os atos violentos típicos dos grupos do neofascismo emergente insuflados por Trump, assanha os neofascistas de outras latitudes, cuja metodologia de ação, com aclimatação de formas, tem seus replicantes mundo afora. 

O Brasil, cujo governo se comporta como um inescrupuloso sabujo de Trump, talvez seja o exemplo mais evidente disso. Por aqui o titular do Poder Executivo já emitiu todos os sinais de que está disposto, com seu clã e milicianos, a atacar a democracia e os direitos do povo, caso sofra derrotas. O cariz do regime que pretende impor ao Brasil torna essa possibilidade factível. 

Mas voltemos ao olho do furacão. A intentona golpista fracassou, refletindo a derrota política das forças mais reacionárias, o que faz parte do prolongado processo de declínio do imperialismo estadunidense. Mas os fatores que lhe deram origem permanecem e não se extinguirão com o afastamento de Trump da Casa Branca.

Quando a União Soviética foi extinta, a superpotência do Norte sentiu a embriaguez do triunfo. George H. Bush proclamou então que "com a graça de deus", finalmente os Estados Unidos se tornaram a única potência dominante no mundo. Nas três últimas décadas,  mesmo sob Clinton (1993-2001) e Obama (2009-2017), e principalmente com George W.Bush (2001-2009), teve lugar a aplicação de uma política unilateral pretensamente voltada para a consolidação do domínio hegemônico dos EUA, designado como "unipolar". Foi uma política de força e agressividade que suscitou inquietação e insegurança nos demais atores da política internacional. Trump levou a tentativa hegemônica ao paroxismo, no momento em que era visível que estava sendo perdida.

Durante o período “áureo” da "globalização" liderada pelos EUA, a economia parecia dar razão aos que acreditavam na perenidade da hegemonia norte-americana. Esse equívoco foi praticado não só por direitistas e conservadores, mas também por centristas e sociais-democratas e até alguns "neocomunistas", facilmente adaptáveis aos cânones da Academia e do Departamento de Estado estadunidense. Não se davam conta de dois fenômenos que estão na raiz da profunda crise que assola o país: a polarização social, o crescimento em flecha da pobreza e da desigualdade, no rastro da crise econômica e financeira; e a perda de força econômica e geopolítica, com a emergência de outros atores de peso no cenário mundial. 

Hoje, com a obra realizada, tornou-se mais visível o fenômeno que muitos queriam contornar mas já não podem: o declínio estadunidense e a emergência da China, um país socialista que, com suas peculiaridades, soube tirar proveito da nova realidade econômica. 

O fenômeno Trump é resultado desta realidade em movimento. Seu mandato representou o empenho para evitar o declínio do imperialismo estadunidense e enfrentar os problemas ligados à polarização social intensificando os aspectos mais sórdidos e reacionários da sociedade americana. 

A exacerbação do supremacismo branco, a violência e o golpismo são algumas manifestações políticas e ideológicas disso, que poderá resultar em guerra civil e na realização de guerras de agressão contra os países que estão indexados como inimigos dos interesses nacionais estadunidenses. 

Por ser um corolário de uma situação objetivamente incontornável, são fenômenos que tendem a permanecer, porque o trumpismo não vai desaparecer depois da saída de seu chefe da Casa Branca, mesmo nas circunstâncias em que a partir de 20 de janeiro será empossado um governo que poderá portar com habilidade e astúcia as bandeiras da democracia, dos direitos humanos e do multilateralismo em política externa. 

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