Autismo e política: por uma clínica da delicadeza
Ciência, política e mercado moldam diagnósticos, práticas educacionais e modos de silenciar a subjetividade dos autistas
Pode-se dizer que o termo “autismo” surgiu em 1908, forjado pelo psiquiatra suíço Eugen Bleuler (1857–1939), como um sintoma fundamental da psicose esquizofrênica, na forma de retraimento social, com a correlata fuga da realidade externa para o mundo interior. Conforme o psicanalista lacaniano francês Jean-Claude Maleval (79 anos): “Segundo Jung, o termo bleuleriano seria uma contração de ‘autoerotismo’” – conforme a Carta de Jung, de 13 de maio de 1907. In: S. FREUD; C. G. JUNG, Correspondência completa. Organização de W. McGuire. Rio de Janeiro: Imago, 1976, p. 86.
Com os estudos clínicos de Leo Kanner (1894–1981) e Hans Asperger (1906–1980): “um em 1943, em Baltimore (EUA); outro em 1944, em Viena (Áustria), sem que conhecessem os trabalhos um do outro, isolaram um quadro clínico muito semelhante e o denominaram com o mesmo termo: ‘autismo’”, de acordo com Maleval. Kanner o descreveu como “Distúrbio Autístico do Contato Afetivo” e Asperger como “Psicopatia Autística”.
Embora o autismo tenha sido destacado e isolado na década de 1940, conforme dito, o termo vai aparecer oficialmente somente em 1952, na primeira edição do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM) – uma espécie de “bíblia” universal em matéria de saúde mental –, mas citado apenas como um sintoma da esquizofrenia infantil. Somente em 1980, com a publicação do DSM-III, o autismo tornou-se uma entidade clínica nosográfica independente, com o nome “Autismo Infantil”, evoluindo para “Transtorno Autista” no DSM-III-R (1987). O DSM-IV, publicado originalmente em 1994, também sofreu uma revisão no ano de 2000, resultando no DSM-IV-R. Segundo o psicanalista francês Éric Laurent, o “autismo foi reduzido ao contexto de TID (Transtornos Invasivos do Desenvolvimento)”. Nessa nova versão revisada, o “Autismo Infantil” foi associado à Síndrome de Asperger e ao Transtorno Desintegrativo da Infância. Desde então, é importante salientar, inclusive na abordagem contemporânea, que a causa do autismo é atribuída a fatores biológicos, genéticos ou ambientais, embora vários psicanalistas lacanianos, eminentemente Rosine e Robert Lefort, tenham proposto uma via de abordagem radicalmente diferente e subversiva, privilegiando o inconsciente e o último ensino do psicanalista francês Jacques Lacan (1901–1981), sobrelevando o autismo à quarta estrutura subjetiva, ao lado das neuroses, psicoses e perversões.
Em 2013, foi publicado o DSM-V, sua versão atual, provocando “uma mudança paradigmática acerca da classificação do autismo, isto porque o conceito de espectro, tão defendido por Lorna Wing, passou a ser utilizado. A nova classificação foi denominada Transtorno do Espectro Autista (TEA)”.
Entrementes, na esteira da “batalha do autismo” de Laurent: “desde o final dos anos 1960, os pais pressionaram a favor do diagnóstico de autismo, pois era a única forma de distúrbio de aprendizagem que não estava classificada como ineducável no Reino Unido”. Portanto, era preciso enquadrar o autismo no campo da “deficiência” – diferente de doença –, para que os pais reivindicassem direitos de acesso dos filhos autistas a instituições de educação especializada.
Nos Estados Unidos da América (EUA): “o retardo mental da irmã de John Kennedy também favoreceu a sensibilização dos poderes públicos no tocante a esses direitos”. Dessa forma, o autismo se espalhou feito epidemia, o que obrigou maiores investimentos em pesquisa e ofertas de créditos para a educação das crianças autistas.
O deslocamento de foco, da “doença incurável” para a “deficiência educável”, pode ser atribuído também à falta de eficiência dos medicamentos prescritos para a patologia autista, especialmente os neurolépticos (antipsicóticos), o que “torna, sem dúvida, mais necessário o anúncio de progressos decisivos nas pesquisas genéticas ou ambientais – ainda que apenas para diminuir a angústia dos pais e familiares dos autistas”, de acordo com Laurent. O autismo não era mais uma doença a ser tratada, mas uma “deficiência” a ser educada.
Nos Estados Unidos da América e na Inglaterra, “os partidários das terapias comportamentais e educativas propõem mobilizar os pais e crianças num esforço intensivo e sem descanso, exigindo o investimento máximo de cada um – tanto financeiro quanto relacional, e em todos os momentos do dia”, levando um número expressivo de pais ao esgotamento e colapso, com consequências trágicas e letais.
É importante destacar ainda o impacto retumbante produzido pelo texto-manifesto de Jim Sinclair (63 anos), militante autista e ativista norte-americano, Não chore por nós (“Don’t Mourn for Us”), escrito e apresentado na Conferência Internacional sobre Autismo de 1993, em Toronto. Ao lado da brilhante escritora e artista australiana, também autista, Donna Williams (1963–2017), são considerados pioneiros na defesa intransigente dos direitos dos autistas pelo mundo, em palestras, conferências, artigos e livros, fundadores do Movimento de Direitos dos Autistas na década de 2000, com a participação expressiva de autistas, familiares e simpatizantes da causa, também críticos ferrenhos da onda mundial ultradireitista da pecha antivacina.
No ensaio Não chore por nós, destinado aos autistas de diferentes habilidades, pais e cuidadores, J. Sinclair propõe, fundamentalmente, uma outra discursividade sobre o autismo, deixando de tratá-lo como uma doença focada na cura para ser mais do que uma “deficiência diferenciada das outras”, tornando-se uma nova “cultura autista”, como forma de ser no mundo.
Desde então, a influência de Sinclair foi decisiva para tentar desvincular o autismo da narrativa hegemônica trágica e vitimista, na qual ele sempre esteve profundamente detido, para sobrelevá-lo a um novo enunciado discursivo, que passou a ser utilizado pelas mais diversas associações de autismo no mundo, como a Associação Portuguesa Voz do Autista. “Autismo não é uma doença. Doença implica estar doente, e inclusive pode morrer da doença. Ninguém morre de autismo, nem existe qualquer cura”.
No caminho posto, o significante “doença” se deslocou para um outro significante: “deficiência”, mas tão logo deslocado para “neurodivergência”, forjado “pela comunidade autista e popularizado em 1998 pela australiana Judy Singer, socióloga e autista, que classificou certas condições neurológicas como variações naturais da diversidade humana, e não como doenças ou perturbações”.
Assim, o autismo deixa de ser uma doença e se torna um “desenvolvimento neurológico atípico (neurodivergente), pois não é uma doença a ser tratada. Trata-se antes de uma diferença humana que deve ser respeitada como outras diferenças (sexuais, raciais, entre outras)”, modelo defendido ferrenhamente por grupos militantes da causa autista, sobretudo os portadores da síndrome de Asperger, contudo, na contramão de grupos de pais de filhos autistas e profissionais que buscam uma cura para a doença, investindo em pesquisas diversas, com avanços no campo da genética, fenótipos, genoma, neuroimagens e outras áreas das neurociências.
O autismo, que nasceu na forma de um sintoma isolado na esquizofrenia de Bleuler, decomposição do autoerotismo freudiano, não é mais uma espécie de “vilão a ser tratado” e se torna “uma celebridade a ser adestrada”, um verdadeiro fenômeno cultural em voga, definitivamente capturado pelo discurso capitalista copulado com as ciências, oferecendo, em seu mais recente menu, os novos e infalíveis gadgets tecnológicos para o cuidado do autismo: a moda é o adestramento da psicologia comportamental associado ao cognitivismo do método ABA, pois o TEA passa a ser perfeitamente mensurável e tipificado em gradações relativas ao prejuízo cognitivo do autista: leve, moderado e grave, conforme a “bíblia” DSM.
Portanto, “controlar a gramática do sofrimento [e do autismo, digo eu] é um dos eixos fundamentais do poder” capitalista até a sua atual versão ultraliberal, produzindo, em escala planetária, de forma cultural e industrial, a dessimbolização da vida em sociedade e o seu processo correlato de imaginarização e objetificação do humano, destruindo subjetividades, mas ofertando ilimitadas tecnologias de gozo, de falsa completude imaginária, conforme nos presenteia o filósofo francês Dany-Robert Dufour (nascido em 1947) no livro A arte de reduzir cabeças: sobre a nova servidão na sociedade ultraliberal.
Assim sendo, a gramática do autismo capitaneada pelo discurso capitalista inunda o campo da Educação, pois “a principal consequência da mudança de abordagem do autismo consiste em não buscar cuidar deles, e sim educá-los, resultando disso que seu sofrimento psíquico não seja levado em consideração”, sublinha Jacqueline Berger, jornalista norte-americana, mãe de duas crianças autistas e autora do livro Sortir de l’autisme, citada pelo psicanalista Jean-Claude Maleval.
Chega ao Brasil o discurso retórico cidadão da inclusão do autista na comunidade escolar; todavia, o que se vê cotidianamente, principalmente nas escolas públicas, é a sua exclusão iatrogênica, uma vez que a falta de formação especializada de professores e demais profissionais da educação é um fato incontestável, claro e cristalino, especialmente em países como o Brasil, onde parte significativa de sua população acredita que a causa do autismo está relacionada às vacinas. Ora, conforme o ditado popular, de boas intenções o inferno está cheio. A falta de preparo emocional e especializado da maioria do corpo técnico e administrativo das escolas e da Educação em geral, em face da questão do autismo, tem produzido efeitos radicalmente contrários àqueles propostos pelo discurso político, quais sejam, o bullying e a correspondente exclusão do autista: “Mesmo os educadores mais sensíveis aos problemas específicos dos autistas não podem ter permanentemente a disponibilidade necessária”, pois, conforme Jacqueline Berger, “as perturbações de uma criança autista, que só para ela demanda tanta atenção quanto a sala inteira”. Para Maleval, “é preciso ousar levantar o problema da exclusão escolar dos autistas, assim como faz J. Berger: estamos integrando verdadeiramente, pergunta ela, ou – ao lhes infligir sofrimentos insuportáveis por falta de meios – estamos, ao contrário, desintegrando alguns deles?”.
Frise-se que a Psicanálise, pioneira no tratamento do autismo, desde o caso da criança Dick, tratado pela psicanalista austríaca Melanie Klein (1882–1960), na década de 1930, tornou-se refém de um murmurinho universal ignóbil acerca de seu edifício teórico-clínico na batalha do autismo, isso atribuído até hoje às interpretações psicanalíticas selvagens de alguns de seus teóricos e simpatizantes, ao cravarem o termo “mãe geladeira”, culpabilizando as mães pelo autismo dos filhos. O preço dessa conta caiu inicialmente no colo de Bruno Bettelheim (1903–1990), reconhecido psicólogo austríaco que desenvolvia seu trabalho com crianças nos Estados Unidos da América (EUA), provocando, assim, o afastamento de pais de crianças e adolescentes autistas dos consultórios e clínicas psicanalíticas.
A apologia ortopédica da modelagem comportamental-cognitivista, com a sua nova estrela ABA – utilizada indiscriminadamente em consultórios e clínicas públicas e privadas, quase sempre com objetivos financeiro-ideológicos para “laudar” os sujeitos “neuropsicossociais e pedagogicamente diferentes” matriculados nas escolas herdeiras e reprodutoras do controle e da disciplina militar –, ocorre “em razão da lógica de mercado que se insinua com força no domínio da saúde, para a qual é necessário constranger o humano numa abordagem contável e objetivante”. Esse modelo operacional da indústria do autismo, no que se refere ao treinamento e condicionamento do autista em busca de padrões comportamentais aceitáveis pela normatização e normalização social, tem servido de certo acalento, embora caro e fugaz, aos pais dos autistas que buscam alguma luz, mesmo que refratária, uma vez que o rótulo diagnóstico resultante da confecção epidêmica de laudos neuropsicopedagógicos lhes seja excessivamente dispendioso, assim como é extremamente exaustivo para os pais e seus filhos autistas todo o processo avaliativo e a sua terapêutica prescrita, que, diga-se de passagem, em alto e bom som, demite o sujeito do inconsciente (alíngua), exorta o singular e pisa na subjetividade. A lógica é a padronização de indivíduos, “lógica que converge com a ideologia científica, para esquecer aquilo que todo epistemólogo sabe: que a eficácia da ciência só advém ao custo considerável de uma sutura da subjetividade”.
Diante disso, não é difícil perceber as pesadas consequências sociais para o tratamento das crianças autistas, pois “o conceito contemporâneo de autismo, forjado na internet pelos partidários do ‘todo biológico’, passado adiante por centenas de associações de pais de autistas, é construído em torno da iminência da descoberta de sua orgânica”. Tal suposição joga na lata do lixo trabalhos importantes e inovadores já realizados por pesquisadores, teóricos e clínicos que se dispuseram a “escutar” e sobrevalorizar a subjetividade de sujeitos autistas, como Bruno Bettelheim (com Joey), Melanie Klein (com Dick), Rosine e Robert Lefort (com Robert e Françoise). Conforme o psicanalista Jean-Claude Maleval, uma das maiores autoridades mundiais na pesquisa clínico-teórica do autismo, esses trabalhos, “tão inovadores e exemplares, tão comprobatórios no que se refere às abordagens psicodinâmicas do autismo, podem, dentro de alguns anos, ser considerados negligenciáveis a título de uma priorização da busca de um fenótipo sempre inapreensível”.
Todavia, na contramão da indústria ultraliberal capitalista, especialista em produzir e vender constantemente ilusões por meio da mercantilização de seus objetos de completude imaginária, conforme dito, a Psicanálise se insurge, de forma subversiva, contra os ideais da ciência baseada em evidências mercantis monetárias que insiste em universalizar e tornar homogêneas as singularidades. “A psicanálise repousa num saber testemunhado há mais de um século, mas não é uma ciência: é um trabalho artesanal, orientado por aquilo que escapa à ciência, a saber, a subjetividade, bem como as suas produções.” E ainda: “Deve-se a ela não só o estudo da lógica dos sonhos, lapsos e fantasias, mas também essas descobertas mais recentes que são os objetos transicionais (Winnicott) e os objetos autísticos”.
Este profissional, pós-graduando em Psicanálise e Autismo, ouviu recentemente de uma psicóloga cognitivista-comportamental, em um serviço de saúde mental público – Centro de Atenção Psicossocial Infantil (CAPSi) –, que “a psicanálise atrasa o desenvolvimento psicológico e cognitivo das crianças autistas, demora muito tempo e é incerta quanto aos seus resultados”. No momento de seu enunciado, a psicóloga estava envolta com os apetrechos da ferramenta ABA (Análise do Comportamento Aplicada), avaliando gráficos e buscando as suas evidências científicas padronizadas. Ironicamente, havia apenas os componentes corretivos do gadget cognitivista-comportamental ABA na sala; a criança referência de sua avaliação estava ausente, assim como a sua subjetividade, não percebida e não escutada, totalmente substituída pelo dispositivo tecnológico “batizado” da indústria ultraliberal capitalista. De fato, a psicóloga do CAPSi está correta: “a psicanálise é um saber que não se sabe”, portanto sem previsão numérica padronizada de seus resultados, pois a Psicanálise é uma aposta decidida na subjetividade e no sujeito do inconsciente autista (no falasser), que, embora possa parecer não falar, é um especialista em linguagem. De acordo com Éric Laurent: “Em que consiste, então, a aplicação da psicanálise no autismo?”. Na trilha de Rosine Lefort, Laurent responde: “Trata-se de permitir ao sujeito livrar-se de seu estado de retraimento homeostático no corpo encapsulado. Isso supõe tornar-se o novo parceiro desse sujeito, com exclusão de qualquer reciprocidade imaginária e sem a função da interlocução simbólica”.
Enfim, é preciso o analista se fazer presente na borda aberta pelo autista e se deixar levar por ele, não se esquecendo do trabalho magistral dos psicanalistas Rosine e Robert Lefort, empenhados na causa desde a década de 1950: “Como consegui-lo sem que o sujeito sofra uma crise impossível de suportar? O suporte de um objeto – e para isso, para além de qualquer dimensão de jogo – é necessário para se tornar parceiro do autista: ‘Sem objeto, não há Outro’”.
Hoje já é do conhecimento da comunidade psicanalítica lacaniana, do Campo Freudiano, que o trabalho educacional não basta para tratar o autista; “em última análise, apenas por intermédio de uma escolha decisiva e dolorosa de abandonar as satisfações do seu mundo assegurado é que certos autistas chegam a uma atividade de alto funcionamento”, ultrapassando, portanto, as restrições de sua imutabilidade e solidão para se tornarem sujeitos portadores de uma subjetividade singular, capazes de fazer escolhas pessoais.
No Brasil, onde grande parte da população flerta com o fascismo – mesmo com a recente prisão do criminoso Jair Bolsonaro –, a falta de informações adequadas da maioria de nossos políticos, principalmente no campo da gestão da saúde pública, em que a prioridade é o marketing político baseado em resultados esperados pelo estabelecimento de metas e indicadores a serem cumpridos, regidos pelo furor sanandi da produtividade capitalista, faz com que as notícias para os autistas não sejam nada boas. Ao contrário, a realidade atual e o horizonte que se desponta são bastante preocupantes, pois nossos dirigentes políticos não apresentam o menor pudor em se desnudar em praça pública, desprovidos das necessárias reflexões éticas, técnicas e políticas na abordagem do autismo. “A busca de uma solução única é uma tentação forte. Os métodos comportamentais, baseados na aprendizagem repetitiva de condutas pré-definidas, encarnam especialmente bem o engodo que o modelo ‘problema-solução’ constitui”, afirma Laurent, que prossegue: “O caráter autoritário e reducionista dessa abordagem educativa é denunciado, em particular, pelos ‘autistas de alto nível’, que manifestam sua hostilidade contra a ‘indústria ABA-autismo’”.
Nos passos sonoros e escritos de Bartyra Ribeiro de Castro, eminente psicanalista da Escola Brasileira de Psicanálise (EBP) e professora da pós-graduação em Psicanálise e Autismo da Escola Mineira de Humanidades: “Seja qual for a origem ou a causa do autismo – genética, psiquiátrica, neurológica, alimentar, ambiental, psíquica –, seja qual for a causa, há crianças, adolescentes e adultos autistas que necessitam que cuidemos deles”. O foco da psicanálise é a subjetividade única do sujeito, do falasser no real da clínica. Cada autista é único, apesar das tentativas de apreendê-lo num leque sintomatológico nosográfico reducionista operado pela Associação Americana de Psiquiatria com as suas “bíblias DSM” e seus sectários. O que se vislumbra no real para a psicanálise é “uma clínica da delicadeza” (Bartyra Ribeiro), do esvaziamento do saber para quem escuta.
Para o psicanalista Éric Laurent: “Um sujeito não cessa de ser um sujeito, mesmo que seu corpo seja ‘deficiente’ [...] o fato de haver algo biológico em jogo não exclui a particularidade do espaço de constituição do sujeito como ser falante. Nesse sentido, como nota Lacan, a psicanálise não supõe uma psicogênese das doenças mentais”.
Por fim, é absolutamente importante destacar a advertência da professora Bartyra Ribeiro: “Autistas crescem. Seus cuidadores e responsáveis, pais, familiares, morrem. Eles precisam ter condições de habitar o social e de manter minimamente alguns laços essenciais à sua sobrevivência, além de alguns poderem e deverem sustentar seus meios de vida”.
Fica a dica aos astros e às estrelinhas de plantão que sempre mostram as suas caras, ao lado de gestores leigos, aparecendo Brasil afora, lançando pelos ares vozes embebidas em jargões repetitivos, às vezes ultrapassados, fazendo coros e odes aos janeiros brancos, setembros amarelos. Muitas cores ainda virão ao longo de 2026; estamos apenas em janeiro. Como se a vida, a saúde e os dias do ano fossem, de fato, todos coloridos. Embora se trate de “mídia política de alta intensidade”, frequentemente do tipo “marketing de influência”, já há sinais de saturação de mídia. Isso não interessa verdadeiramente à saúde mental nem ao autista, que deve ser o principal protagonista de seu tratamento, pois Lacan nos ensinou que é preciso escutar o silêncio ensurdecedor dos autistas, pois são seres verborrágicos: se é certo dizer que o autista está fora do discurso (laço social), é tremendamente equivocado dizer que o autista está fora da linguagem.
A psicanálise não apenas pode, como deve ser ofertada para escutar os autistas nos serviços públicos brasileiros. Não perceber isso é uma tremenda gafe política desastrosa, especialmente para os gestores dos campos da Saúde e da Educação. E, lembrando Bartyra, autistas crescem.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.
