Michelle Catarine Machado avatar

Michelle Catarine Machado

Jornalista com experiência em comunicação institucional, política, mídias sociais e produção de conteúdos acessíveis e inclusivos

10 artigos

HOME > blog

Autonomia econômica e deficiência: os desafios da inclusão financeira no cooperativismo brasileiro

Como a exclusão do crédito limita a autonomia das pessoas com deficiência e aponta o cooperativismo como caminho para inclusão econômica no Brasil

Autonomia econômica e deficiência: os desafios da inclusão financeira no cooperativismo brasileiro (Foto: Marcello Casal Jr./Agência Brasil)

A autonomia econômica é um pilar da cidadania, mas, no Brasil, ainda é um direito frequentemente negado. Dados da PNAD Contínua do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) indicam que o país possui cerca de 18,6 milhões de pessoas com deficiência, das quais apenas 26,6% estão inseridas no mercado de trabalho. O dado evidencia uma exclusão estrutural persistente, sustentada por um modelo biomédico que reduz a pessoa à sua condição clínica e ignora o conceito estabelecido pela Lei Brasileira de Inclusão (Lei nº 13.146/2015), que reconhece a deficiência como resultado da interação entre impedimentos e barreiras sociais.

Essa exclusão também se manifesta no acesso à renda e ao crédito. No sistema financeiro, critérios tradicionais de avaliação de risco acabam reproduzindo desigualdades ao desconsiderar as especificidades vividas por pessoas com deficiência. Barreiras históricas de acesso ao trabalho, à educação e à mobilidade impactam diretamente a inserção econômica, criando um ciclo em que a ausência de renda limita o acesso ao crédito, e a falta de crédito restringe as possibilidades de geração de renda.

O desafio se amplia diante das transformações demográficas. Com o envelhecimento da população brasileira, cresce o número de pessoas que envelhecem com deficiência ou adquirem impedimentos ao longo da vida. Nesse contexto, a sobreposição de barreiras amplia a invisibilidade econômica e exige respostas estruturadas, que considerem diferentes trajetórias e necessidades.

Embora o cooperativismo de crédito se apresente como uma alternativa baseada em princípios de solidariedade, participação e desenvolvimento local, a presença de pessoas com deficiência nesse sistema ainda carece de protagonismo. Estudos da Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS) indicam que, apesar de avanços institucionais, a ocupação de cargos de liderança por pessoas com deficiência permanece limitada, evidenciando barreiras que vão além do acesso formal e alcançam a estrutura das oportunidades.

Fortalecer a inclusão financeira exige superar abordagens assistencialistas e reconhecer a pessoa com deficiência como agente econômico ativo. O crédito deve ser compreendido como ferramenta de autonomia, capaz de viabilizar iniciativas produtivas, estimular o empreendedorismo e ampliar a participação econômica. Para isso, é fundamental que as soluções financeiras considerem as especificidades dessa população, incluindo custos adicionais decorrentes de barreiras sociais, como tecnologias assistivas, mobilidade e acessibilidade.

O modelo cooperativista apresenta um diferencial relevante ao possibilitar que seus membros sejam também coproprietários. Essa característica amplia o potencial de participação e pode contribuir para a construção de soluções mais inclusivas, desde que acompanhada de estratégias que garantam diversidade na tomada de decisão e efetiva representação de pessoas com deficiência nos espaços de gestão.

A inclusão não se concretiza apenas com a eliminação de barreiras físicas. Ela se efetiva quando há acesso real a recursos, oportunidades e condições para que pessoas com deficiência possam empreender, gerar renda e exercer autonomia sobre suas trajetórias. Tornar visível a invisibilidade financeira é um passo necessário para que o cooperativismo amplie seu papel no desenvolvimento social e fortaleça a inclusão econômica.

Porque, no fim, a inclusão financeira não é apenas sobre acesso a serviços. É sobre garantir que cada pessoa com deficiência tenha condições reais de decidir sobre a própria vida, com autonomia, dignidade e pertencimento.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.