Autoridades da Lava Jato desconhecem políticas públicas e instituições

"Tenho dúvidas se certos concurseiros do judiciário, do Ministério Público e da Polícia Federal, que trabalham em operações, sejam suficientemente competentes, capazes de entender os programas e as políticas públicas", diz o colunista Laurez Cerqueira; "Autoridades que fazem parte de certas operações têm demonstrado desconhecimento abissal do funcionamento das instituições, da montagem de governos, das políticas publicas de Estado, e muito menos dos interesses internacionais em jogo no Brasil. Muitas delas parecem mais interessadas em como aparecerão nos telejornais"

Serio Moro em entrevista oa programa 60 minutes
Serio Moro em entrevista oa programa 60 minutes (Foto: Laurez Cerqueira)

O jornalista norte-americano Michael Grunwald publicou recentemente um livro bastante interessante, com o título The New New Deal (“o novo New Deal”, uma alusão ao programa de Franklin Roosevelt para combater a Grande Depressão nos Estados Unidos, em 1929), que analisa o plano, do governo Barack Obama, de estímulos de 800 bilhões de dólares, entre investimentos e cortes tributários, para enfrentar a crise de 2008, que levou não só os Estados Unidos à maior crise econômica da era moderna, mas de roldão as maiores nações do mundo, entre elas, o Brasil.

Segundo a revista Time, o governo Obama injetou o total de US$ 10 trilhões de dólares, para salvar bancos e empresas, no auge da crise.

Enquanto Washington optava pelos estímulos, a Europa, sob a batuta de Angela Merkel, aplicava políticas de austeridade, com subtração de direitos dos trabalhadores e sacrifício do estado de bem estar social.

Aqui, em 2007, entre outras medidas para enfrentar a crise, o ex-presidente Lula criou o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), para estimular os investimentos em infraestrutura de desenvolvimento, abandonada há mais de duas décadas, e a ex-presidente Dilma, o Plano Brasil Maior, um programa de desoneração tributária para os setores mais atingidos pelos efeitos da crise de 2008, a fim de proteger a economia, os empregos e o mercado de consumo interno.

Em 2016, o Brasil sofreu um golpe de Estado, articulado por agentes de interesse externos que atuam entre o mercado e a política, para retomar os fundamentos do governo Fernando Henrique Cardoso, implantar, tardiamente, um programa mais draconiano ainda de arrocho fiscal do que o plano implantado na Europa, com ideias afundadas na crise de 2008, nos Estados Unidos, que só interessa aos rentistas do sistema financeiro e a grandes corporações internacionais que querem do Brasil, terras e commodities agrícolas, petróleo, minérios, explorar mão de obra barata, sem garantia de direitos sociais.

Ao mesmo tempo, o Brasil foi submetido a uma catarse de combate à corrupção, por procuradores, juízes e policiais, com espetacularização das operações para TVs, com ataque aos   programas de investimentos e de desoneração fiscal setorial, dos  governos Lula e Dilma.

Tenho dúvidas se certos concurseiros do judiciário, do Ministério Público e da Polícia Federal, que trabalham em operações, sejam suficientemente competentes, capazes de entender os programas e as políticas públicas. São parecidos com os que foram feitos por Obama, para enfrentar a crise nos Estados Unidos.

Autoridades que fazem parte de certas operações têm demonstrado desconhecimento abissal do funcionamento das instituições, da montagem de governos, das políticas publicas de Estado, e muito menos dos interesses internacionais em jogo no Brasil. Muitas delas parecem mais interessadas em como aparecerão nos telejornais.

Sempre fui impiedoso no combate à corrupção, de seja lá quem for, ajudando nas denúncias, no que estiver ao meu alcance, mas  combater a corrupção com destruição de empresas estratégicas, em plena crise econômica internacional, com perseguição política a adversários e em relação promíscua com investigados, como se viu na intimidade entre o juiz Sérgio Moro e o senador Aécio Neves, captada em famosa fotografia, é coisa de gente estúpida e narcisista.

Que investiguem os criminosos, condenem-os com base nas devidas provas, de acordo com as leis e a Constituição, mas preservem as empresas.

Os espetáculos ajambrados pelas operações, mais parecem filmes enlatados de baixo nível, comprados numa feira qualquer.

A justiça é um dos valores mais sublimes de uma nação democrática. O país precisa de promotores, policiais e juízes cidadãos que entendam e promovam isso. Chega de espetáculo.

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