Avatares de um país em seu beco

"Para os beneficiados de sempre, o golpe é uma dádiva divina, e Temer será seu deus, ao menos enquanto cumprir rigorosamente cada uma de suas demandas", diz o escritor Eric Nepomuceno; "Mas, e o país, seu patrimônio e seu povo? Bom, saberão voltar ao seu lugar: o mesmo beco, sem saída, sem futuro, no qual estavam há treze anos atrás"

O presidente brasileiro Michel Temer fala durante reunião com membros de partidos da base governista na Câmara e com ministros no Palácio do Alvorada em Brasília, no Brasil 27/09/2016 REUTERS/Ueslei Marcelino
O presidente brasileiro Michel Temer fala durante reunião com membros de partidos da base governista na Câmara e com ministros no Palácio do Alvorada em Brasília, no Brasil 27/09/2016 REUTERS/Ueslei Marcelino (Foto: Eric Nepomuceno)

(originalmente publicado na Carta Maior)

Não há dúvidas: o PT, que há poucos anos atrás era considerado o maior partido de esquerda da América Latina, sofreu neste domingo 2 de outubro, nas eleições municipais brasileiras, a derrota mais retumbante da sua história.

Tampouco há espaço para dúvidas a respeito da vitória estrondosa dos dois principais partidos da base do governo de Michel Temer – o mandatário que chegou ao poder graças ao golpe institucional consumado na cara da apática Corte Suprema e da maioria dos brasileiros, anestesiados e idiotizados pelos grandes meios de comunicação.

Assim, o PMDB de Temer e o PSDB do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso passam a medir forças entre suas próprias fileiras e correntes internas. Uma disputa entre vencedores: daqui por diante, cada passo terá como objetivo fortalecer a opção para as presidenciais de 2018.

Mas o PT não perdeu sozinho. Todo o campo da esquerda amargou resultados desastrosos. Nas duas únicas capitais onde ainda há esperanças, Rio de Janeiro e Belém do Pará, os candidatos do PSOL, partido nascido de uma dissidência do PT de Lula da Silva, disputarão o segundo turno no domingo, 30 de outubro, em condições desfavoráveis.

O maior destaque da esquerda foi o candidato do PSOL no Rio, Marcelo Freixo, cuja campanha na televisão tinha apenas 11 segundos, determinados pela nova legislação que prejudica os partidos pequenos. E mesmo com esse pequeno espaço, o candidato progressista conseguiu atropelar o rival oficialista Pedro Paulo, candidato do PMDB, de Temer e do atual prefeito carioca, Eduardo Paes, e passar ao segundo turno. Apesar dessa façanha, suas chances de vencer a segunda eleição, contra um representante das igrejas evangélicas, são bem escassas.

Por sua hegemonia no campo da esquerda brasileira ao longo de pelo menos 25 anos, a situação do PT merece atenção especial. Este ano, o PT apresentou, em todo o país, pouco mais da metade dos candidatos que disputaram as municipais de 2012, com grande sucesso. Mas neste 2016, o partido teve o seu pior desempenho dos últimos 20 anos. A formidável e perversa campanha midiática, somada aos efeitos da evidente ação persecutória da Justiça, dizimaram a imagem do partido junto ao seu eleitorado tradicional.

Por mais que juristas de inquestionável calibre disparem críticas ferozes aos métodos absolutamente facciosos dos encarregados da Operação Lava Jato, e especialmente ao juiz Sérgio Moro, e mesmo que o próprio Supremo Tribunal Federal, vez ou outra, lance críticas contundentes à tendência de dos promotores de espetacularizar as causas, nada muda. O esquema conta com o respaldo total do gigantesco aparato das Organizações Globo. Assim, a opinião pública ignora olimpicamente o que se passa entre os bastidores de um sistema judiciário desvirtuado de maneira brutal.

Entretanto, mesmo que não fosse vítima das manobras jurídicas manipuladas e manipuladoras, o PT estaria no mesmo beco escuro, devido aos seus próprios e drásticos erros. Ao se aliar ao que existe de mais velho e corrompido da política brasileira, o partido se deixou arrastrar por vícios que combateu ao longo de sua trajetória. Agora, é vítima da traição implacável de seus aliados de ocasião, que dizem atuar "em nome da moralidade" para afastar uma presidenta honesta e entregar o país aos chacais do mercado, embora também aleguem que se trata de um esforço para salvá-lo.

Para que fique claro até que ponto o Judiciário brasileiro está determinado em ignorar qualquer princípio, o provinciano juiz Sérgio Moro explicou, dias atrás, que o país vive uma "situação extraordinária", que justifica seus desmandos, que justifica quebras regras essenciais ao funcionamento do pleno Estado de Direito, a começar pela presunção de inocência.

Basta ver o que ocorre com o ex-ministro da Fazenda de Lula da Silva, Antônio Palocci: Moro o mantém preso, por tempo indeterminado, porque não se encontraram provas contra ele.

Não se trata de assegurar sua inocência, e sim de recordar que o correto seria que, antes, os promotores provassem que existe a culpa. É preciso destacar o absurdo que é manter em prisão um suspeito de crimes fartamente investigados mas não comprovados, até que se consiga algo que possa justificar a prisão.

Não há dúvidas de que o PT e as esquerdas brasileiras se encontram num beco escuro, tentando achar alguma saída, mas muito mais alarmante é o beco aonde foi levado o país, empurrado pelo golpe institucional.

Enquanto as bases do Estado de Direito se abalam, com o risco da convergência a um Estado de Exceção, o governo avança em sua missão de dilapidação.

Ameaça impor um limite para os gastos governamentais para os próximos vinte anos, condenando assim qualquer planejamento dos futuros presidentes. Ameaça liquidar a Petrobras, mutilada e vendida a preço de banana. Ameaça todos os programas sociais constituídos nos últimos treze anos, que é a destruição do modelo de país construído nos governos de Lula da Silva e Dilma Rousseff.

Enquanto os mercados financeiros e as grandes multinacionais saúdam com entusiasmo, cada passo do governo de Michel Temer.

Para os beneficiados de sempre, o golpe institucional é uma dádiva divina, e Temer será seu deus, ao menos enquanto cumprir rigorosamente cada uma de suas demandas.

Mas, e o país, seu patrimônio e seu povo? Bom, saberão voltar ao seu lugar: o mesmo beco, sem saída, sem futuro, no qual estavam há treze anos atrás.

Tradução: Victor Farinelli

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