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Carlos Castelo

Jornalista, sócio-fundador do grupo Língua de Trapo, um estilo sem escritor

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Ave, Flávio!

Obras públicas brotavam em Brasília: arcos, colunas, pórticos, um pequeno Coliseu para debates presidenciais e um aqueduto que levava leite condensado...

Ave, Flávio! (Foto: IA)
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A História, como se sabe, tem péssimo gosto para piadas. Quando não repete a tragédia como farsa, repete a farsa como grupo de família.

Foi assim que, em 2027, Brasília acordou com a notícia de que o novo presidente, Flávio, havia descoberto sua genealogia. Um assessor, desses que estudam latim no YouTube, explicou que “Flávio” vinha dos Flavius, e que, portanto, havia ali uma ponte direta entre a Roma Antiga e o Plano Piloto.

— Presidente, o senhor é descendente direto do imperador Flavius Domitianus, que governou de 81 até 96 depois de Cristo!

— Sério? — respondeu ele, já mandando trocar o brasão da República por uma águia com um celular na garra.

No primeiro dia de governo, criou-se o Ministério da Majestade Ofendida. Sua função era simples: toda vez que alguém fizesse piada com o presidente, o ministério avaliaria se a piada era engraçada. Sendo engraçada, era crime. Sendo sem graça, era agravante.

O Senado, sempre sensível às novidades históricas, reagiu com indignação controlada, que é a indignação quando ainda há cargos a distribuir. Alguns senadores lembraram que Flavius Domitianus havia esvaziado o Senado romano e ficaram em alerta. Outros ponderaram que, no Brasil, isso seria redundante: o Senado já se esvaziava sozinho às sextas-feiras e feriados prolongados.

Havia também a questão do título. Flavius gostava de ser chamado de “Senhor e Deus”. A equipe de comunicação achou excessivo. Depois de uma pesquisa qualitativa em três barbearias, duas lives e uma padaria, chegaram a uma solução:

— Excelentíssimo Senhor, Quase Deus, Mas Humilde.

O povo aderiu parcialmente. No dia a dia, por economia de sílabas, ficou “QDMH”. Nas repartições, virou carimbo.

Obras públicas brotavam em Brasília: arcos, colunas, pórticos, um pequeno Coliseu para debates presidenciais e um aqueduto que levava leite condensado do Alvorada ao gabinete.

Também houve incentivo à cultura. Poetas oficiais recebiam verba para compor epigramas patrióticos de até 280 caracteres. Quem ultrapassasse o limite era acusado de experimentalismo; quem usasse ironia tinha a bolsa convertida em visita guiada ao Ministério da Majestade Ofendida.

Mas o problema de presidentes com DNA imperial é que, cedo ou tarde, começam a achar que oposição é erro de digitação. Surgiram os delatores de condomínio. O vizinho do 402 denunciava o do 301 por “não curtir com entusiasmo suficiente”. A portaria, antes preocupada com encomendas da Shopee, passou a vigiar a moral da República.

No fim, não houve um atentado no palácio como o ocorrido com Flavius Domitianus, porque o século XXI terceiriza tudo. Aconteceu apenas uma reunião, um áudio vazado, três notas oficiais contraditórias e uma comissão.

E, como sempre, depois do império veio a limpeza. Retiraram os bustos, apagaram os slogans, mudaram o nome do Coliseu para Centro de Memória do Esquecimento. E só restou mesmo, numa parede esquecida do Planalto, a inscrição em latim macarrônico:

“Flavius divinus est - mas sem perder a ternura jamais”.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.