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Sara Goes

Sara Goes é jornalista e âncora da TV 247 e TV Atitude Popular. Nordestina antes de brasileira, mãe e militante, escreve ensaios que misturam experiência íntima e crítica social, sempre com atenção às formas de captura emocional e guerra informacional. Atua também em projetos de comunicação popular, soberania digital e formação política. Editora do site codigoaberto.net

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Ave Lindú

"Em meio às incertezas eleitorais, Dona Lindú permanece como símbolo de um país que exalta a maternidade e abandona as mães reais"

Dona Lindu e Lula ao seu lado (Foto: Reprodução)

Há dúvidas sobre qual será, afinal, o eixo das eleições de 2026. A segurança pública, que parecia destinada a ocupar o centro do debate, esfriou, ainda que a extrema-direita mantenha sempre uma “megaoperação” na manga, pronta para ser acionada como espetáculo. A soberania nacional foi uma onda surfada com força, mas que agora parece perder tração. A carestia está relativamente sob controle, e a lembrança dos tempos sombrios mais recentes ainda sobrevive nos carrinhos de supermercado, na memória do preço do óleo, do arroz, do gás. Não se sabe ao certo qual chapa irá concorrer, nem quais alianças se formarão. Mas há uma certeza absoluta: onde estiver Lula, estarão também o chapéu panamá e Dona Lindú.

Antes de virar ícone, Dona Lindú foi uma mulher concreta. Mãe de oito filhos, pobre, nordestina, migrante, criou a família em meio à fome, ao trabalho precário e à ausência de proteção social. Com o tempo, essa trajetória foi sendo condensada em símbolo, e a mãe do presidente passou a ocupar um lugar litúrgico no imaginário da esquerda brasileira, como uma espécie de Nossa Senhora laica, evocada em discursos e gestos públicos. Para Lula, especialmente quando fala com mulheres e jovens, Dona Lindú aparece como presença viva, inspiração ética e lembrança concreta da dureza da vida, da fome e da dignidade possível mesmo no limite.

Mas como toda santa política, ela também corre o risco de virar totem.

O totem não exige escuta. O totem não cobra coerência. O totem serve para adornar discursos enquanto a prática segue intacta. Parte do campo progressista que reverencia Dona Lindú em abstrato é a mesma que não contrata mães solo, que trata gravidez como inconveniente, que desconsidera horários, corpos, cansaços e urgências. É a mesma que fala em justiça social enquanto reproduz, internamente, uma lógica de exclusão profundamente misógina.

Há algo de perverso nisso. A maternidade é aceita desde que seja sacrifício. Desde que não interrompa agendas, não exija adaptações, não imponha limites. Desde que a mãe desapareça atrás do papel. O Brasil ama a mãe que se abstém de si mesma. A que desiste de ambições, de descanso, de reconhecimento. A que se culpa por tudo e agradece por quase nada.

Quando a mãe recusa esse roteiro, ela se torna incômoda. Quando reivindica tempo, salário, escuta, ela deixa de ser símbolo e vira problema. Quando erra, é julgada com uma severidade que raramente recai sobre homens. Quando adoece, é vista como fraca. Quando cai, não há redenção simbólica que a resgate.

É por isso que o culto à maternidade, no Brasil, convive tão bem com o abandono das mães. A idealização funciona como anestesia moral. Ela permite venerar figuras maternas enquanto se ignora a política pública, a estrutura de trabalho, a violência cotidiana que molda a vida das mulheres reais.

Assim como Maria foi transformada em imagem inofensiva para neutralizar sua história, Dona Lindú corre o risco de ser transformada em ícone confortável, esvaziado daquilo que realmente incomoda: o fato de que ela representa uma mulher pobre, migrante, explorada, mãe solo, que criou filhos em condições que o Brasil insiste em repetir para milhões.

Se Dona Lindú for apenas um símbolo bonito, ela serve pouco. Mas se for tomada como chave política, ela exige muito: olhar para as mães vivas, ouvir mulheres de carne e osso e confrontar o fato de que não há projeto emancipatório possível enquanto a maternidade continuar sendo tratada como virtude privada e problema público.

Às vésperas das eleições de 2026, não basta levar Dona Lindú ao palanque. É preciso que aprendamos com Lula a reconhecer, nas mães que nos formaram, não um ornamento discursivo, mas um compromisso político. O Brasil não precisa amar mais a maternidade. Precisa, urgentemente, parar de abandonar as mães.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.