Bacuringa

Estamos doentes de espírito. Estamos sendo espoliados todos os dias, esquecidos e precarizados em nome de cifrões muitas vezes tão somente especulativos, virtuais

(Foto: Divulgação)

Peço, data vênia, o empréstimo desse termo com o qual me deparei ao assistir à TV 247. Refere-se o tal, obviamente, aos dois potentes filmes deste período “panela de pressão” em que se insere a geopolítica planetária. Ao retrato da instabilidade sócio-política mundial, cabe, outrossim, adicionar à alegoria o filme vencedor da Palma de Ouro de Cannes, Parasita.

Obras-primas, pois, que denunciam o descalabro e injustiças gerados pela disparidade entre as classes e todo o ressentimento recíproco que se segue desse processo, resultando, inexoravelmente, na desigualdade de oportunidades em termos socioeconômicos. Ademais e da maior importância talvez, é importante atentar para o tangível potencial revolucionário que esta trinca procura transmitir ao seu público. Personagens que vivem à margem, sem qualquer assistência psicológica, econômica ou social por parte de um Estado que se esvai, evapora-se, abandonando seu poder-dever de servir à população, principalmente às pessoas menos favorecidas.

O que se passa no Chile, no Equador, na Catalunha, na Venezuela, na França, enfim, o choque de classes ao qual todos estamos assistindo, o levante do povo marginal, o grito dos excluídos que vão às ruas se rebelar contra este Estado autoritário e repressor, que se alastra velozmente através do embate contra seus corajosos contestadores, é uma via dupla, um espelho ou uma simbiose em relação às mensagens propostas pelas películas em questão.

Por que não ousar a afirmação de que os três filmes dialogam entre si ou se completam mesmo que indireta e involuntariamente? A pobreza e o completo desamparo médico-psicológico (Coringa), o abandono e isolamento de um povo diverso e plural e de suas tradições em nome do neocolonialismo americano (Bacurau) e um claro ressentimento gerado entre duas famílias completamente iníquas (Parasita) formam o amálgama destes tempos nefastos de um século XXI que cada vez mais parece repetir os passos do século predecessor. 

O crescimento do fascismo, da desigualdade imposta pelo capitalismo cada vez mais selvagem e injusto, o ressentimento entre as classes e os povos, o preconceito com o outro, com as diferenças e os diferentes (negros, índios, população LGBTQ+, imigrantes etc.) denotam que a história humana está habituada a se formar através de ciclos, que, embora não se repitam à risca, transmitem uma imagem do eterno retorno de Nietzsche no que atine a nossas crises psicológicas e sociais. 

Seja no cinema genial visto nestes três clássicos instantâneos, seja na sociedade retrato-inspiração dessas obras, percebe-se que o ser humano – ao menos uma sua parcela significativa – é maléfico para com seus semelhantes. O Estado e a elite não são entidades autônomas. São eles pessoas que detêm o poder, o dinheiro e o egoísmo que geram crises agudas de caráter econômico e, de uma forma mais profunda, mentais.

Estamos doentes de espírito. Estamos sendo espoliados todos os dias, esquecidos e precarizados em nome de cifrões muitas vezes tão somente especulativos, virtuais. Mister perceber a mensagem levada pelos filmes contestadores da ordem política atual: ao se unir, o povo - a ralé, os marginais, índios, negros, putas, gays, moradores de rua - toma para si o que lhe é de direito. Existe, malgrado a tragédia humana que insiste em se perpetuar, uma saída para o caos ou ao menos sua atenuação. Nesse sentido, as famílias Parasitas, os Lungas e os Coringas precisam reconquistar o que nunca deveriam ter pedido: a dignidade humana. 

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