Balões de ensaio de abril: o esgotamento de Lula e a candidatura presidencial de Haddad
Movimento articulado entre mídia e mercado tenta enfraquecer Lula ao inflar dúvidas sobre sua capacidade e estimular alternativas alinhadas a seus interesses
A imprensa mainstream e “o mercado” não se emendam. Compartilham a missão, intrínseca a ambos e indisfarçável, de desconstruir Luiz Inácio Lula da Silva. Sempre foi assim. A tímida aceitação do seu nome por essa gente, bastante breve, decorreu dos horrores promovidos por Jair Bolsonaro, não da percepção de que um estadista assumiria a presidência do Brasil. Hoje, essa elite volta a empreender esforços para colocar no comando do país alguém que lhes sirva de maneira incondicional, afinal, Lula não é um deles.
Um grotesco balão de ensaio foi lançado na semana passada: a possibilidade de Fernando Haddad substituir Lula na corrida presidencial. “O mercado” aplaudiria, em tese. Bastou o presidente afirmar, numa entrevista, retórica e cautelosamente, ainda não ter se decidido sobre a candidatura. Os jornalões e as TVs logo trataram a troca de nome como possibilidade real, em demonstração de amadorismo, carência de pautas sérias ou má-fé.
Porém, o movimento “delenda Lula” atual apresenta outra nuance, que vai além da disseminação da ideia de que o governo vai mal, muito mal, mesmo com o presidente liderando todas as pesquisas, ainda que se anteveja uma disputa acirrada com Flávio Bolsonaro. A mentira da hora é que Lula estaria esgotado física e mentalmente, à beira da senilidade.
O presidente do Brasil é reconhecido como liderança democrática global. Ministra aulas diárias de como lidar com Donald Trump, garante a soberania nacional e posiciona o país como exemplo de coerência nas relações internacionais. Não basta à mídia mainstream escandalizar atos normais de governo, sugerir a ligação do presidente com casos de corrupção, identificar insatisfações populares pontuais como determinantes de um naufrágio eleitoral. É preciso cogitar sua “falta de energia” ou seu “desgaste natural pela idade”, coisas que a mera observação desmente.
Não é de hoje que se trama a "bidenização" de Lula, cuja disposição e lucidez, aos 80 anos, são invejáveis por pessoas de qualquer idade. O jogo é sujo e tentarão lhe pespegar incapacidade a cada pequeno ato falho.
A súcia ultradireitista não disfarça a estratégia de forjar mentiras para destruir reputações e instituições. No caso de Lula, conta com a ajuda de “liberais” idiotizados incrustados na imprensa. A partir das fakes, planeja golpes. Incrível foi ver tanta gente acreditando em coisas como a vulnerabilidade das urnas eletrônicas — são as mesmas pessoas que acreditaram, primeiro, na “mamadeira de piroca”, depois, na cloroquina. E que agora tendem a crer na incapacidade física e mental de Lula.
Até outubro, os forjadores de mentiras, os lançadores de balões de ensaio cuidarão de pintar Lula como um velhinho incapaz. Em paralelo, repetir-se-á a exploração de costumes, a pregação de regras morais hipócritas. Essa forma de fazer política já se tornou corriqueira por aqui, como é nos Estados Unidos de Donald Trump.
O método, mais uma vez, será o de Steve Bannon, que paira como um espectro sobre políticos pouco afeitos à democracia. Nunca se escondeu a proximidade dos Bolsonaros com o estrategista americano, por intermédio de Eduardo, ora foragido nos Estados Unidos. Em outubro de 2021, Bannon disse publicamente que a eleição presidencial brasileira de 2022 seria “a segunda mais importante do mundo”, fundamental para o reerguimento do bloco global de extrema direita. Naufragaram duplamente: perderam a eleição e foram desmascarados na tentativa de golpe. Voltam ao ringue em 2026.
O método Bannon ancora-se em crenças arraigadas na família brasileira, atrasada, desinformada, patriarcal. Importante salientar que não se trata de um simples movimento conservador, mas anticivilização.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.
