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Paulo Gala

Paulo Gala é economista e professor da FGV

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Banco central europeu sobe juros, inflação americana pressiona e atividade segue aquecida no Brasil

Tudo aponta para a interrupção do ciclo de cortes por aqui — e, eventualmente, até para alta de juros nos Estados Unidos

Após eleição de Bolsonaro, dólar abre em queda de mais de 1% ante o real (Foto: REUTERS/Sertac Kayar)
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247 - A manhã desta quinta-feira trouxe um conjunto de dados que reforça o cenário de inflexão na política monetária global. O destaque é a decisão do Banco Central Europeu de elevar sua taxa básica de 2% para 2,25% ao ano — movimento já precificado pelo mercado, mas que oficializa a abertura de uma nova temporada de alta de juros entre os grandes bancos centrais, em resposta ao choque de preços do petróleo.

Nos Estados Unidos, o índice de preços ao produtor (PPI) veio muito forte, com alta mensal de 1,1%, acima das expectativas. O dado revela a disseminação da alta da gasolina para os preços no atacado, que já correm acima de 5% a 6% ao ano. Somado ao CPI divulgado ontem — com preços ao consumidor rodando a 4% —, o quadro torna muito provável que o Fed, em sua reunião da próxima semana, abandone de vez a linguagem mais dovish que ainda admitia eventuais cortes e passe a sinalizar um possível movimento de alta. Será a primeira reunião sob a presidência de Kevin Warsh, em um contexto delicado: Donald Trump gostaria de ver juros mais baixos, mas o cenário inflacionário caminha na direção oposta. A reunião trará também o Summary of Economic Projections, com a trajetória futura de juros projetada pelos diretores do Fed — o que aumenta ainda mais sua relevância.

No Brasil, a surpresa veio da atividade. A Pesquisa Mensal de Serviços (PMS) do IBGE mostrou expansão de 1,2% em abril, acima do esperado, recuperando as perdas de março e devolvendo o setor ao pico histórico da série. Vale lembrar: serviços respondem por mais de 70% da economia brasileira, e a PMS captura cerca de metade desse universo. É uma boa notícia para o crescimento — ganha força a perspectiva de um PIB avançando 2% neste ano —, mas complica a vida do Banco Central. Com a atividade mais pressionada, fica mais difícil cortar juros. Cresce, assim, a probabilidade de encerramento do ciclo de afrouxamento já na semana que vem; a dúvida é se o ciclo termina com um último corte de 0,25 ponto ou com uma simples interrupção. Todos os dados recentes de atividade têm surpreendido para cima.

No front fiscal, o Senado aprovou novas pautas-bomba, com destaque para a renegociação de dívidas de produtores rurais e a ampliação de benefícios e estímulos ao agronegócio — uma conta que supera R$ 600 bilhões em dez anos. A medida deteriora ainda mais o quadro fiscal num momento em que os juros da dívida já consomem entre 8% e 9% do PIB. A dinâmica da dívida pública só piora, e o mercado reage: os juros longos voltaram às máximas de praticamente dois anos.

Completa o cenário a escalada no Oriente Médio. Voltaram os ataques contra bases americanas, e os Estados Unidos seguem atacando posições iranianas — nem mesmo o cessar-fogo tem sido respeitado. O petróleo segue pressionado, flertando com os US$ 95 e podendo testar os US$ 100 no Brent. Já são mais de três meses — março, abril, maio, caminhando para junho — de petróleo em patamares elevados, com efeito claramente inflacionário sobre a economia global.

Em resumo: PPI forte nos EUA, BCE subindo juros, economia brasileira aquecida e fiscal em deterioração. Tudo aponta para a interrupção do ciclo de cortes por aqui — e, eventualmente, até para alta de juros nos Estados Unidos. É esse o cenário desenhado por ora.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.