Banqueiros em desespero: congelamento derruba juros mas não esquenta produção

O feitiço está virando contra o feiticeiro. O mercado financeiro, que ajudou a dar o golpe na democracia, comprando o Congresso, para baixar congelamento fiscal, junto com derrubada do governo eleito por 54 milhões de votos, está contrariado com o rumo dos acontecimentos

Brasília - DF, 09/06/2016. Presidente Interino Michel Temer durante posse do Presidente do Banco Central, Ilan Goldfajn. Foto: Beto Barata/PR
Brasília - DF, 09/06/2016. Presidente Interino Michel Temer durante posse do Presidente do Banco Central, Ilan Goldfajn. Foto: Beto Barata/PR (Foto: César Fonseca)
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Contradição explícita

O feitiço está virando contra o feiticeiro.

O mercado financeiro, que ajudou a dar o golpe na democracia, comprando o Congresso, para baixar congelamento fiscal, junto com derrubada do governo eleito por 54 milhões de votos, está contrariado com o rumo dos acontecimentos.

A taxa de juro, que sustenta lucros da bancocracia especuladora, está despencando, no compasso da queda da inflação, mas não anima, satisfatoriamente, a produção.

Afinal, economia congelada derruba, igualmente, consumo, produção, distribuição, circulação, arrecadação e investimentos, interrompendo circuito capitalista clássico.

O BC, aqui, agiu contrariamente aos BCs dos países capitalistas desenvolvidos, que ampliaram oferta monetária, com a qual derrubaram inflação, juro e dívida; propiciaram aquecimento econômico, a fim de fugir do crash de 2008.

No Brasil, rolou oposto: optou-se por recessão.

Resultado: consumo, com congelamento fiscal, derruba não apenas inflação e juros, mas tudo: pibinho de 1% de 2017 e continuidade de sua queda de 0,56%, em janeiro, sinaliza novos tombos nos próximos meses.

A taxa de juro caiu nos últimos 12 meses de 14% para 6,5% e terá que cair mais no compasso da desinflação/deflação irresistível, decorrente da bancarrota subconsumista.

O desemprego continua avançando e o arrocho salarial, idem, no compasso da oferta de trabalhadores desempregados, que derruba preço dos salários, diminuindo, portanto, demanda global.

A tendência, no contexto da austeridade fiscal glacial, é o juro continuar diminuindo, derrubando, simultaneamente, juro e lucro da banca especuladora.

A oligarquia bancária oligopolizada, dependente do juro alto especulativo, põe as barbas de molho.

Tal situação tende a se prolongar, quanto mais permanecer congelamento de gastos públicos não financeiros(saúde, educação, segurança, infraestrutura etc), que puxam a demanda, para priorizar gastos públicos financeiros(juros e amortizações da dívida), que contraem ela, não dão nenhum retorno em forma de crescimento econômico.

Sem crescimento, sem consumo, o sistema financeiro começa torcer por inflação mais alta para sustentar juros também altos, fonte dos seus lucros.

Mas, a inflação, somente, crescerá se forem descongelados gastos sociais que geram renda disponível para o consumo.

Sem eles, mantidos congelados por vinte anos, como estabelece teto dos gastos, aprovado pelo Congresso, a inflação tende à deflação e os juros caminham para a taxa zero ou negativa.

Nesse compasso, a dívida, impactada pelos juros cadentes, vai cair, fortemente, jogando lucro especulativo para baixo; porém, o crescimento não se realiza, satisfatoriamente, porque congelamento dos gastos não deixa.

Keynes dá as cartas

Para retomar crescimento, reduzir juro, apenas, não basta, porque juro não é variável econômica independente.

Sem consumidor, afetado pelo congelamento fiscal neoliberal, quem vai comprar máquinas novas, para colocar no lugar das que estão paradas, só porque o juro está despencando?

A única variável econômica verdadeiramente independente no capitalismo, segundo Keynes, é o aumento da quantidade da oferta de dinheiro na circulação capitalista, patrocinado por quem emite moeda, o governo.

Quando ele faz isso, diz o autor de Teoria Geral do Juro, do Emprego e da Moeda, produz quatro movimentos simultâneos sincronizados:

1 – reduz salários;

2 – aumenta os preços;

3 – diminui os juros e

4 – perdoa dívida dos empresários contraída a prazo.

Tal movimento, diz ele, produz a eficiência marginal do capital, ou seja, o lucro.

Vislumbrado o lucro, aí, sim, desperta-se, finalmente, o espírito animal dos empresários, para alavancar os investimentos, sem os quais não se formam expectativas psicológicas indispensáveis ao crescimento econômico capitalista sustentável.

Descongelar, portanto, é a saída para despertar espírito animal empreendedor.

Economicídio neoliberal

O anticapitalismo congelado golpista de Temer/Meirelles, ditado pelo Consenso de Washington, visou função primordial: parar o Brasil.

Congelar para desinflacionar e privatizar, destruindo o estado ativo na economia, eis a receita economicida neoliberal.

Interromperam onda desenvolvimentista nacionalista que vinha se avolumando, desde 2003 até 2014.

Nesse período, foram criados mais de 40 milhões de novos consumidores – uma Argentina! – graças ao aumento da oferta de dinheiro em circulação, para dinamizar produção e consumo, como reação ao crash global de 2008, somado às boas receitas de exportação obtidas pelo boom de commodities, predominantes até então.

O PIB pulou de R$ 1,48 trilhão(2002) para R$ 4,84 trilhões(2013); a renda per capita, no mesmo período saiu de R$ 7,6 mil para R$ 24,1 mil.

Não haveria espaço, aqui, para fazer amplas comparações. Consulte: https://jornalggn.com.br/blog/iv-avatar/fhc-vs-lula-dilma-um-quadro-comparativo

O congelamento patrocinado pelo golpe virou, portanto, faca de dois gumes, para quem o implementou via golpe politico.

Num primeiro momento, aumenta transferência de recursos da sociedade para o sistema financeiro em doses cavalares, tirando do social, para dar aos especuladores; num segundo instante, porém, aumenta violentamente a restrição de consumo, que desorganiza macroeconomicamente o país, levando à erraticidade da política monetária produzida pelo arrocho fiscal neoliberal.

O terceiro momento é o que começa a acontecer: inflação e juro despencam, frente ao consumo cadente, e o lucro dos especuladores ficam ameaçados, mantida a estratégia neoliberal glacial.

Lição da história

Marx disse que o capitalismo padece, desde seu nascimento, de crônica insuficiência de demanda global.

De um lado, concentra riqueza; de outro, acumula pobreza.

Malthus destacou que a economia(capitalista) é uma ciência triste.

Precisa destruir o homem para se afirmar, razão pela qual não vence a crise nunca.

Keynes rompeu com seus mestres neoclássicos(Ricardo, Stuart Mill, Alfred Marshall etc) diante do colapso do lassair faire, no crash de 1929.

Percebeu que o equilibrismo orçamentário – em derrocada total na crise neoliberal de 1873-1893 – produzia, apenas, subconsumismo e deflação, segundo ele, maior inimiga do capitalismo.

"Optar pela deflação – [o que está fazendo o governo golpista] – é um erro eterno", disse.

Por isso, rompeu com Ricardo e sua teoria dos rendimentos decrescentes, necessária, tão somente, para arrochar salários, e abraçou Malthus, que pregava mais gastos públicos para combater o que Marx destacava como mal do sistema, o crônico subconsumismo deflacionário explosivo.

Diante da crise de 29, que destruiu 5.000 bancos, nos Estados Unidos; que, entre 1929 e 1936, reduziria a produção de automóveis – então carro-chefe da demanda global capitalista – de 5 milhões de unidades/ano para 700 mil -, não titubeou: virou malthusiano.

O governo, para Keynes vestido de Malthus, teria que virar consumidor de mercadorias inconsumíveis – produção bélica e espacial – gastando com sua própria moeda inconversível, para virar carro chefe da economia, para ultrapassar o lassair faire.

Recado fundamental de Keynes a Roosevelt, em 1936: "Penso ser incompatível com democracia capitalista que o governo eleve seus gastos na escala necessária capaz de fazer valer a minha tese – a do pleno emprego -, salvo em condições de guerra. Se os Estados Unidos se INSENSIBILIZAREM para a preparação das armas, aprenderão conhecer a sua força"("Crise da ideologia keynesiana", Lauro Campos, 1980, Campus).

Não deu outra: economia de guerra, essência do capitalismo keynesiano.

Já em 1943, a dívida pública representa 144% do PIB americano.

Se Tio Sam fosse escutar Temer/Meirelles, que engole seco teorias fracassadas de Havard, de Hayeck, Von Mises, Jean Baptiste Say etc e tal, que ninguém no mundo capitalista segue, para não cometer economicídio, jamais teria se transformado em império colossal, como Roma etc.

"Inflação, unidade das soluções"

A dívida pública, que os neoliberais querem acabar, é, como dizia Colbert, ministro das finanças de Luis XIV, "nervo vital da guerra".

Keynes percebeu que ela tem que crescer no lugar da inflação para dinamizar sistema capitalista mergulhado em crise neoliberal.

Por isso, considerou inflação solução, não problema.

Problema é a deflação.

As bestas quadradas neoliberais, depois do crash de 2008, muito mais violento do que o de 1929, vieram, novamente, com o papo furado anterior à grande crise do neoliberalismo, no final do século 19.

Resultado: capitalismo global em crise de realização de lucros.

Equívoco trumpiano

Trump acha que vai resolver com protecionismo violento a concorrência que está perdendo para os chineses.

O buraco, agora, é mais embaixo, como disse Lauro Campos, em seu livro espetacular, reeditado, ano passado, pela Boitempo: a solução keynesiana não dinamiza mais a produção.

A taxa de lucro é extraída, agora, apenas, na especulação sobre a dívida, que cresce, endogenamente.

É o tal SISTEMA DA DÍVIDA, que Maria Lúcia Fattorelli teoriza, lançando mão de Getúlio Vargas, para defender a auditoria da dívida, como arma para o país voltar a crescer.

Getúlio, em 1934, que mandou fazer auditoria.

Depois disso, sobrou dinheiro para industrializar o País.

O SISTEMA DA DÍVIDA domina o mundo capitalista, a partir dos Estados Unidos, que, com endividamento de 28 trilhões de dólares, adota, agora, não apenas o juro zero, mas, também, protecionismo radical.

Só idiota acredita em economia de mercado.

Trump assumiu com discurso de que iria barrar a dívida.

Um ano depois de assumir o poder, ela já subiu, especulativamente, 1,5 trilhão de dólares.

Monstro insaciável.

A renda disponível para consumo, nos Estados Unidos, não depende da produção de bens e serviços, mas da especulação em cima do endividamento público.

Medo dos juros

Por isso, o FED tem medo de puxar os juros, para enxugar liquidez global, que ameaça o dólar.

Se fizesse o que fez Paul Volcker, em 1979, puxando a prime rate de 5% para 20%, a fim de evitar bancarrota da moeda americana, a vaca iria para o brejo, definitivamente.

A inflação aumentaria exponencialmente, se a dívida explodisse por força de uma puxada jurista.

Os juros, no capitalismo global, está proibido de subir, para não implodir dívidas públicas.

Isso vale para Estados Unidos, Brasil, Argentina, Europa, Japão, China etc.

A briga comercial aberta por Trump decorre, portanto, do esgotamento da dívida pública, como instrumento para puxar demanda global.

O keynesianismo esgotou-se, salvo se conviver com juro zero ou negativo.

Que fazer, senão detonar a dívida, para fazer mais dívida?

Adam Smith, em "A riqueza das nações", já dizia que dívida pública não se paga, renegocia.

Quando que essa lição vai chegar no Brasil?

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