Baseado em ratos reais
Os vilões que juraram fazer o mundo se ajoelhar e tremer diante deles tornaram-se reais, de carne, osso e consciência.
Aquele filme sobre um futuro distante, devastado e sem lei, utópico e inimaginável tomou forma e é tão real que custamos a acreditar.
O discurso que impera é mesmo do medo e do caos que a ficção nos trouxe. O mesmo que ela nos presenteou quando estávamos entediados na paz de nossos lares.
O final desse filme nós já vimos antes, todos nós.
O herói caminha sozinho para o por do sol no horizonte, após ter travado uma batalha campal e triunfado.
A cena de ação que antecedeu esse momento foi mágica, nos deixou extasiados, eufóricos, felizes pelo fim e esperançosos pelo futuro daquele não futuro.
O detalhe desse filme com a realidade é que nossa cena de ação não termina.
A batalha campal segue seu curso, os heróis lutam, triunfam e morrem.
Os vilões reagem, seguindo seus juramentos de dominação como dogmas divinos.
Eu e você somos os figurantes, a multidão que permanece ao fundo vendo a cena se desenrolar e que, ocasionalmente, é dizimada em explosões, enchentes, avalanches, maremotos, terremotos, crises financeiras, etc.
Observamos calados o teatro de horrores pois, não consta em nosso script ir contra a cena que está sendo rodada, contra os contraregras e muito menos contra os diretores.
Nos vale aqui uma reflexão:
Não vamos nos esquecer que, de vez em quando o figurante vira protagonista.
Ele chama a atenção pelo um traço distinto de coragem e ousadia, algo que o aproxima do público e que a este cativa.
O figurante, que em outro momento seria varrido na cena trágica, têm atitude nova, faz as coisas certas e da maneira correta, se sobressai, nada contra a corrente, frustra os planos do vilão, e termina roubando a cena.
Não apenas isso, sobressaiu-se, frustrou os planos, roubou a cena, uniu-se aos demais, ignorou os diretores e escreveu o próprio filme.
Um ato heroico, fora do comum, além do esperado, que ecoa na forma da lembrança, da memória e do respeito.
O êxtase e o alívio ao fim da cena de ação é assimilado quando o protagonista salva o dia, garantindo um dia extra aos demais extras.
O indivíduo fadado ao anonimato torna-se um ícone, um espelho para os outros anônimos.
Há o anseio de muitos por atitudes concretas, que mudem o rumo do mundo e garantam a vida.
Há a avareza de poucos que se contentam com as coisas pequenas, breves e superficiais.
José Mujica, ex-presidente do Uruguai, nos disse com sobriedade ímpar o segredo da felicidade: "Ou você é feliz com pouco, com pouca bagagem ou não se tem nada. A felicidade está dentro de você."
O choque de realidade necessário hoje é mais profundo do que imaginamos. Antes de salvarmos o mundo precisamos salvar nossos valores.
Ainda há valor em viver a vida em harmonia, em paz consigo, com o que se tem e com os seus.
"Hoje eu acordei e decidi pensar o que digo" - disse o sábio.
"Hoje eu acordei e decidi dizer o que penso." - falou o justo.
"Hoje eu acordei e decidi calar o que diz e o que pensa" - disse o ímpio.
"Hoje eu acordei e disse ao o que diz, pensei pelo que pensa mas não decidi" - disse o burro.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.
