Bastidores do primeiro acordo nuclear para o Irã Entrevista com Lula (3/3)

Pepe Escobar, do Jornalistas pela Democracia, destaca a última parte da entrevista histórica com o ex-presidente Lula onde ele relata sua participação nos bastidores que resultou na assinatura do acordo nuclear com o Irã, hoje implodido pelos EUA. "Acho que estavam furiosos, porque não era possível que o Brasil conseguisse o que eles não haviam conseguido", ressalta Lula

(Foto: Reuters)

Por Pepe Escobar, para o Tlaxcala e para o Jornalistas pela Democracia -  Como já anotamos no relato da primeira hora de uma entrevista histórica – “Lula, do cárcere, diz ao mundo que está de volta ao jogo” (1/3), 27/8/2019, e “Lula: grupo BRICS foi criado como instrumento de ataque (2/3), 29/8/2019 –, realizada em um prédio da Polícia Federal em Curitiba, sul do Brasil, onde Lula permanecia prisioneiro, então por já mais de 500 dias, como parte de duro movimento de guerra híbrida num golpe complexo, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva continua ativíssimo.

“Deixem-me contar a vocês sobre o Irã”

Sentia-se relaxado a ponto de contar histórias da negociação política no mais alto nível. O presidente Lula até ali já havia definido o contexto. Muitas preciosidades – especialmente focadas no relacionamento tormentoso entre Brasília e Washington. Aqui ofereço apenas três exemplos:

1) Sobre o relacionamento com os EUA: “As pessoas pensam que estou zangado com os norte-americanos. Ao contrário, tivemos uma relação política muito saudável com os EUA. É o que o Brasil deveria fazer hoje. Mas ser subserviente, nunca.”

Lutas com Hillary

2) Sobre as negociações com George W. Bush, Barack Obama e Hillary Clinton: “Bush aceitava ideias com mais fluidez que Obama. Obama sempre foi muito mais duro com o Brasil. Tenho certeza de que Hillary Clinton não gosta da América Latina, e ela não gostava do Brasil. Tive duas grandes lutas contra ela: uma numa reunião em Trinidad-Tobago e a outra em Copenhagen [na conferência COP-15 sobre o clima]. Hillary chegou atrasada, gritando com todo mundo. Eu disse, ‘Senhora, espere. Espere sua vez. Estou esperando há três dias’. A petulância e a arrogância dos norte-americanos incomoda-me muito, por mais que eu tenha pensado sempre nos EUA como país importante, com o qual devemos sempre manter um bom relacionamento.”

3) Sobre guerra híbrida: “Tentamos organizar a inteligência na Força Aérea, na Marinha, com a inteligência da Polícia Federal, mas sempre houve lutas muito sérias entre todos esses grupos. Quem tem inteligência tem poder. Assim sendo, ninguém quer ceder informação ao concorrente (...). Supus que, depois que já estava bem claro [das revelações de Edward Snowden sobre as ações de vigilância pela Agência de Segurança Nacional (EUA)] que os EUA estavam investigando o Brasil (...) Supus que nós assumiríamos posição mais dura, talvez conversando com russos, com chineses, para criar outro sistema de proteção. Nosso principal gesto político foi Dilma [Rousseff, então presidenta do Brasil] (cancelar) viagem aos EUA. Mas minha avaliação é que Obama teve influência muito pequena.

Obama ‘jovem demais’

“Era impressionante, a capacidade de Obama para pronunciar discursos belíssimos, mas no dia seguinte nada acontecia, nada, nada. Acho que os EUA eram grandes demais para Obama, muito jovem, muito inexperiente. E vocês sabem que o Departamento de Estado dos EUA é muito poderoso (...) Obama sempre me pareceu um bom homem. Quando o visitei pela primeira vez, saí da sala com um pensamento insistente (...): naquela reunião não havia ninguém nem remotamente parecido com Obama. Saí de lá pensando: ‘Esse moço não tem ninguém como ele nessa sala’. Quando conversamos, eu disse: ‘Obama, você talvez seja o presidente dos EUA que tem a maior possibilidade para fazer mudanças nesse país. Porque você só precisa ter a audácia dos negros que votaram em você. O povo já lhe garantiu a audácia. Faça o melhor uso possível disso.’ (...) Mas então... nada aconteceu.”

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E aquilo marcaria o cenário para a história interna do primeiro acordo nuclear do Irã, acertado em Teerã em 2010 por Irã, Brasil e Turquia, e centrado numa troca de combustível nuclear, anos antes do “Acordo Nuclear” [ing. Joint Comprehensive Plan of Action, JCPOA], firmado em Viena em 2015 pelos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU mais Alemanha.

A história registrará que, assim como Donald Trump esmagou o “Acordo Nuclear”, Hillary Clinton esmagou o acordo original menos de 24 horas depois de ter sido assinado e imediatamente convocou nova rodada de negociações contra o Irã, no Conselho de Segurança da ONU.

Aqui o que noticiei para Asia Times. Lula, no início de 2010, já havia dito pessoalmente a Hillary que não era “prudente empurrar o Irã contra a parede”.

Assim sendo, o que aconteceu realmente em Teerã?

Encontro com Khamenei, Ahmadinejad

“Eu estava em New York. E [então presidente do Irã, Mahmoud] Ahmadinejad não gostava de mim. Mostrava-se respeitoso, mas seu relacionamento preferencial era com [presidente da Bolívia] Evo Morales e com o meu amigo [ex-presidente da Venezuela Hugo] Chávez… Até que, um dia, em New York, decidi conversar com Ahmadinejad, porque ele havia dito que seria mentira que haviam morrido seis milhões de judeus. E eu disse a ele: “Veja, Ahmadinejad, vim falar com você, porque quero saber se é verdade que você disse que os judeus querem ser heróis, porque morreram na guerra. Quero dizer-lhe uma coisa: os judeus não morreram na guerra. Os judeus foram vítimas de um genocídio. Não eram soldados combatendo em guerra. Eram homens, mulheres e crianças que foram levados para campos de concentração, e mortos, o que é diferente.’

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“Ele respondeu ‘Eu sei’. Eu disse ‘Se você sabe, diga a todo mundo. Não é possível negar que seis milhões foram mortos.’ Durante essa conversa, eu disse ‘Gostaria de ir a Teerã e conversar com vocês sobre a bomba nuclear. O que quero para vocês? Quero que tenham o mesmo direito que o Brasil já tem. O Brasil enriquece urânio para finalidades científicas, pacíficas. Quero que enriqueçam urânio, como o Brasil enriquece. Mas se há bomba atômica, sou contra.”

“Enviei o [ministro de Relações Exteriores] Celso Amorim algumas vezes. Cultivamos um relacionamento com a Turquia. Foi muito engraçado. Reuni-me com o grande aiatolá Khamenei, tive um encontro com ele. Acho que o aiatolá apaixonou-se por mim porque contei a minha história. Disse a ele que só comi pão, pela primeira vez, aos sete anos, e pensei ‘Acho que ganhei esse sujeito.’ O aiatolá prestou extraordinária atenção ao que dizíamos. Conversamos por mais de duas horas. Dali fui conversar com o presidente do Congresso do Irã. Parecia um czar. Depois fui jantar com Ahmadinejad, enquanto Celso Amorim negociava com o primeiro-ministro deles.

“Ahmadinejad não estava entendendo. E eu disse ‘Deixe-me dizer uma coisa’. Tínhamos dois intérpretes: um que traduzia para o inglês o que ele [Ahmadinejad] dizia; e Celso, que traduzia para mim, do inglês. E eu disse: ‘Você sabe que estou aqui, agredido pelos americanos. Hillary Clinton telefonou ao Emir do Qatar para que o Emir me dissesse que eu não podia vir a Teerã; que os iranianos me enganariam. Quando cheguei em Moscou [então presidente Dmitri], Medvedev disse: ‘Hillary telefonou, pedindo que eu dissesse a você que não vá [porque] os iranianos são mentirosos.’ Até apareceu uma piada, na mídia. Eles pediam a chance de um acordo. Medvedev dizia ‘10%,’ e eu dizia ‘99% – estamos indo a Teerã e faremos o acordo.’

Obama nervoso

“Afinal cheguei, estava sentado com Ahmadinejad, e eu disse ‘He-he, rapaz [risos], estou perdendo amigos, só por estar aqui. Obama está nervoso comigo – Obama era o mais nervoso de todos; Angela Merkel não quer que eu esteja aqui. O único mais ou menos favorável era [então presidente da França Nicholas] Sarkozy. E vim a Teerã, porque acho que o Irã é país muito importante, não só do ponto de vista da população, mas do ponto de vista da cultura. E não quero que o Irã sofra as consequências de um embargo, porque embargo é pior que guerra. Em guerra, matam-se soldados. Com embargo os mortos são crianças, pessoas gravemente doentes.’

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“Quase 10h da noite, eu disse ‘Não saio daqui sem um acordo.’ Até ali ainda nem sinal de acordo. À meia-noite, eu conversava com assessores, no hotel. Já podia até imaginar as manchetes no Brasil, contra a minha viagem. À 1h da manhã, chegou o Celso, e disse ‘Teremos acordo’.

“Dia seguinte, muita e muita conversa, havia um sujeito, assessor do Ahmadinejad, que cochichava no ouvido dele, e a cada cochicho Ahmadinejad pedia para mudar uma palavra. Até que eu disse ‘Chega! Tire esse sujeito daqui! Cada vez que ele chega, você muda de ideia. Então ele perguntou ‘Lula, podemos fazer um acordo, sem assinar?’ Respondi ‘Não... Você sabe o que Sarkozy pensa de você? Você sabe o que Obama pensa de você? Você sabe o que Angela Merkel pensa de você? Todos dizem que os iranianos mentem. No Brasil, temos algo chamado ‘ou é preto, ou é branco’. Vocês têm de assinar.’ E ele assinou. Assinamos Brasil, ele [Irã] e Turquia.

Nada de conversações, nada de acordo

“Eu imaginava que seria convidado à Casa Branca, ou a Berlin, por Angela Merkel…. Imaginem minha surpresa, quando vi que estavam nervosíssimos. Sabe o menino que vai à escola, tira “A”, diz à mãe, e a mãe logo imagina que coisa boa, não pode ser? Acho que estavam furiosos, porque não era possível que o Brasil conseguisse o que eles não haviam conseguido. Começaram a nos afrontar. O que fiz eu? Peguei uma carta do companheiro Obama, em que dizia o que seria bom para os EUA. E a agência Reuters publicou a carta de Obama. A carta era igual ao acordo que havíamos obtido.

“Mas a Sra. Hillary não sabia da carta de Obama (...). Adiante, numa reunião do G-20, perguntei a Angela Merkel: ‘Você conversou com Ahmadinejad?’ E perguntei a Sarzoky, ‘Você conversou com Ahmadinejad?’ Não. Aproximei-me de Obama e perguntei ‘Você conversou com Ahmadinejad?’ ‘Não.’ ‘Rapaz! Como é possível que vocês queiram um acordo, mas não conversem? Vocês terceirizam as negociações? Foi quando entendi que o mundo, antes, tinha líderes muito, muito mais competentes, à esquerda e à direita, gente capaz de discutir política exterior.”

Depois de ouvir essa história, perguntei a Lula – o máximo em matéria de instinto político –, se ele achava que Obama o tivesse apunhalado pelas costas: “Não” – Lula respondeu. – Acho que...Você alguma vez ganhou um presente que você não sabia montar?”

Essa é a terceira e última parte de entrevista exclusiva com Lula, ex-presidente do Brasil, que continua prisioneiro em Curitiba.

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