Batalhas históricas em Fortaleza e no Rio

As eleições de Guilherme Boulos e de Manoela D´Ávila serão um passo importante para a rearticulação das forças democráticas e progressistas em seus importantes estados e no País todo

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Antes mesmo de se encerrar o primeiro turno, multiplicaram-se vaticínios de vitórias e derrotas, conforme a angulação político-ideológica de cada analista de plantão. Com o copo meio cheio e meio vazio, o resultado final do processo virá na noite do dia 29, com o término dos embates em 60% dos 95 municípios onde poderia ocorrer uma segunda rodada de votação. 

Das 57 em que tal possibilidade se converteu em realidade, 18 integram o rol das capitais com mais de 200 mil eleitores – excluída Macapá, onde o primeiro turno foi adiado. Das 17 cidades com mais de um milhão de habitantes, haverá segundo turno em 13. 

Em face de fracassos retumbantes, derrotas honrosas e vitórias importantes; o segundo turno é mais uma chance de rever opções táticas equivocadas e minimizar os erros políticos que, no primeiro turno, fragmentaram não só as forças à esquerda do espectro político brasileiro, mas o conjunto dos setores democráticos e progressistas.

A unidade para derrotar os inimigos do povo nas urnas, agora uma necessidade com clareza solar, exige o abandono das patriotadas partidárias e do exclusivismo de agremiações à esquerda e a adoção de uma política ampla, da qual faz parte uma frente que garanta a vitória, sustente político-administrativamente os novos governos e construa a unidade dos brasileiros dispostos a isolar, barrar e colocar um fim no Governo Bolsonaro.

No interregno mais curto da história entre o primeiro e segundo turno, o fortalecimento das candidaturas democráticas passa por absorver todas as forças que se dispuserem a somar esforços para derrotar os segmentos mais reacionários da sociedade. Novos apoios e aliados devem sempre ser bem vindos, tratados como respeito e como parte integrante das coalizões eleitorais, mesmo não as integrem formalizadamente. As candidaturas ficarão cada vez mais destacas na mesma medida em que democratizarem o protagonismo, a condução, as responsabilidades e a visibilidade.

O apoio a candidaturas deve seguir o mesmo objetivo central: integrar um movimento mais amplo para isolar e derrotar a reação bolsonariana. Portanto, sem condicionantes ou negociações de qualquer natureza, as forças democráticas e progressistas devem assumir como suas as candidaturas que signifiquem avanço no combate ao obscurantismo e ao protofascismo.

As disputas devem, ainda, se distanciarem das proclamações vazias, dos anúncios doutrinaristas e das autoafirmações particularistas, para melhor perseguir e disputar a aprovação do povo e do eleitorado, a partir de embates políticos concretos, de novas sínteses, de caminhos adequados para se superar os impasses atuais e de condutas que estejam em harmonia com o grau de consciência das grandes maiorias.

Pela importância no cenário nacional, pelos desdobramentos e pelo significado que o resultado eleitoral pode imprimir à conjuntura, alguns segundos turnos merecem destaque.

Na maior cidade do País, Bruno Covas, da coligação Todos por São Paulo (CIDADANIA, DEM, MDB, PL, PODEMOS, PP, PROS, PSC, PSDB, PTC E PV), obteve 32,9% dos votos, contra 20,2% de Guilherme Boulos, da coligação Pra Virar o Jogo (PCB, PSOL E UP). Em Porto Alegre, Sebastião Melo (da COLIGAÇÃO MDB, DEM, SOLIDARIEDADE E CIDADANIA, apoiado pelo PTB) atingiu 31,1%, contra 29% de Manuela d'Ávila, da coligação PCdoB e PT.

As eleições de Guilherme Boulos e de Manoela D´Ávila serão um passo importante para a rearticulação das forças democráticas e progressistas em seus importantes estados e no País todo. Não sem razão, o segundo turno de São Paulo impactou e vem canalizando as atenções das forças democrático-populares. Na Capital paulista se enfrentam duas forças que, embora distintas, são antibolsonaristas. Em POA, a aliança conservadora e reacionária que se anuncia contra a coligação PCdoB-PT não é encarnada por um bolsonarista assumido ou de quatro costados. Nos dois casos o resultado ainda esta em aberto. É de se levar em conta que qualquer que seja o resultado do processo eleitoral o bolsonarismo sairá derrotado ou enfraquecido.

Duas outras capitais merecem atenção especial: Fortaleza e Rio de Janeiro. Nelas, a disputa se dá de forma aberta e acirrada entre os defensores do regime político constitucional, das liberdades democráticas e dos direitos civis, embora com diferenças quanto ao perfil político-ideológico e à postura em face das conquistas trabalhistas e populares, e os porta-vozes do atraso, do obscurantismo e do golpismo.

Nas terras do Dragão do Mar, se enfrentam Sarto, da coalizão Fortaleza Cada Vez Melhor (Cidadania, Dem, PDT, PL, PP, PSB, PSD, PSDB, PTB e REDE), que obteve 35,7%, e o Capitão Wagner da coalizão Uma Fortaleza de Todos (AVANTE, DC, PMB, PMN, PODEMOS, PROS, PSC, PTC E REPUBLICANOS), com 33,3%.

De um lado Sarto incorpora um movimento hegemonizado por forças à esquerda, democráticas e progressistas, que tem o PDT como principal base de sustentação e mantém relações próximas ao Governo Estadual.

De outro, o notório ultradireita Capitão Wagner, participante de motins na Polícia Militar do Ceará – em um deles, o senador Cid Gomes foi ferido por balas de borracha –, articulador de grupos com características milicianas, dono de uma retórica agressivamente antidemocrática e destinatário do apoio aberto de grupos bolsonaristas.

No Rio de Janeiro, o ex-prefeito Eduardo Paes, concorrendo pela coligação A Certeza de um Rio Melhor (Avante, Cidadania, DC, DEM, PL, PSDB e PV), obteve 37%. O atual prefeito, Marcelo Crivella, tenta a reeleição pela coligação Com Deus, Pela Família e Pelo Rio (PATRIOTA, PMN, PODEMOS, PP, PRTB, PTC, REPUBLICANOS E SOLIDARIEDADE), obtendo 21,9% no primeiro turno.

Na cidade do Almirante Negro, o segundo turno tem, de um lado, um conservador (Paes), do outro um reacionário (Crivella). De um lado, uma pessoa de direita, mas ambientada ao mundo hodierno e laico; de outro, um fundamentalista religioso e negacionista. Um político democrático-burguês clássico, com suas características de classe e mazelas político-ideológicas; contra um também clássico representante da extrema direita religiosa e bolsonarista. Alguém adaptado, dentro de seus limites, às liberdades e direitos democráticos e civis; contra uma figura visceralmente comprometida com a antiordem miliciana e protofascista.

A segunda cidade brasileira, em população e PIB, é a terra do bolsonarismo, o berço de suas milícias e hordas protofascistas, ponto de concretização da aliança, do desenvolvimento e da ação político-práticos entre o fundamentalismo religioso neopentescostal e o atual presidente que dispensa comentários.

Nestes importantíssimos municípios, a disputa político-eleitoral opõe as forças à esquerda, ou simplesmente democráticas, às hordas protofascistas, à extrema direita bolsonarista, ao fundamentalismo religioso, que os querem transformar em trampolins para 2022.

No Rio, a eventual reeleição de Crivella, significaria um aval ao horror bolsonariano que ocupa a Cidade Maravilhosa, bem como uma imensa derrota para os cariocas, cearenses e brasileiros. Em Fortaleza, a eleição do Capitão Wagner iria ampliar o espaço institucional das políticas reacionárias, abrir um campo para a legitimação de grupos paramilitares e instituir uma cabeça de ponte para Bolsonaro no Nordeste. 

Portanto, derrotar o Capitão Wagner e Marcelo Crivella é mais do que uma simples questão eleitoral de momento, é uma necessidade tática de repercussões de curto, médio e longo prazos. Sendo assim, não é exagero dizer que nessas capitais se travam duas das mais duras e importantes batalhas eleitorais do País. A ninguém é dado o direito da vacilação ou da lavação de mãos. Não é a hora de ser Pilatus, se é que haveria alguma ocasião para tal.

Os cariocas não podem permanecer mergulhados na aventura bolsonarista, autoritária e fundamentalista. E o fortalezense não merece ser condenado ao avanço da escalada protofascista. Nas suas cidades, Sarto e Paes são os candidatos que o processo politico real impôs para derrotar o que há de pior e mais perigoso na vida política brasileira. 

 

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