BB64 e o verão que não acabou

Apesar da fama trazida pela visita de Brigitte Bardot em 1964, o lugar era distante e as péssimas condições das estradas faziam da ida a Búzios uma aventura, um programa exclusivo para poucos

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O verão de Brigitte Bardot em Búzios, de janeiro a abril de 1964, teve a bossa nova como primeiro plano e deixou o golpe militar como pano de fundo. Sua passagem fulminante abriu para o mundo, como destino turístico, uma acanhada aldeia de pescadores, que passou a ser frequentada por muitas celebridades e tornou-se no cantinho de charme e encantamento para muitos veranistas. Aos poucos, eles ocuparam as casinhas dos pescadores, transformando o cenário paradisíaco de Búzios nas suas varandas particulares, a partir das mansões que construíram em praticamente todas as praias da península.

Aos 29 anos e no auge da sua carreira no cinema, a bela atriz francesa que nunca tinha saído da Europa veio ao Brasil curtir suas férias e foi levada pelo namorado para um village de pêcheurs, distante da badalação do Rio de Janeiro, câmeras fotográficas e da curiosidade de socialites, deslumbradas pelo desejo provinciano de descobrir quais eram os encantos desse refúgio, que tinha atraído a atenção daquela importante celebridade internacional.

Mas a fama de balneário paradisíaco não combinava com a pobreza do lugar e os endinheirados frequentadores começariam a edificar mansões e pousadas, que transformariam a aldeia num resort de luxo, cujos preços eram então inacessíveis à incipiente classe média, que não dispunha de veículos nem de acesso para ir até lá, ficando até constrangida de frequentar um lugar que, de tão exclusivo e repleto de gente fina, espantava até mesmo nativos da terra, que não ousavam ir aos "redutos sofisticados" onde aquelas pessoas vestidas com extravagancia, consumiam comidas, bebidas e drogas caras.

Apesar da fama trazida pela visita de BB em 1964, o lugar era distante e as péssimas condições das estradas faziam da ida a Búzios uma aventura, um programa exclusivo para poucos. BB caracterizava um traço cultural reconhecido dos franceses: o de se apaixonarem por lugares exóticos. Logo chegariam outros europeus, com o mesmo desejo de tranquilidade e recolhimento que juntamente com muitos argentinos, alteraram a informalidade daqueles ambientes simples, nos espaços glamourosos de alguns bares, restaurantes e pousadas com uma decoração sofisticada e serviços diferenciados. Estava criado o clima cultural do charme pelo qual Búzios se tornaria uma lenda e seria uma fonte inesgotável de recursos para se explorar o cobiçado mercado do turismo Classe A.

Durante três décadas essa fórmula funcionou e seus lucros foram avidamente abocanhados por todos: pescadores que vendiam ou alugavam propriedades, comerciantes que vendiam mercadorias sem recolher impostos, exploradores desqualificados de serviços de turismo e oportunistas disfarçados de turistas, que muitas vezes chegavam nus e saíam pelados, à procura de um pote de ouro. Assim, instalou-se um clima de capitalismo selvagem e os mais astutos se sobrepuseram aos menos favorecidos, que lutam até hoje para conquistar um lugar ao sol. Muitas casas de moradores se transformaram em guest-houses e a lei da sobrevivência ditou as suas normas.

As mudanças foram tantas que a velha aldeia não conseguiu mais permanecer como era e, finalmente, emancipou-se. Mas, ninguém sabe dizer exatamente do que, ou de quem... Suspeita-se que tenha sido da Brigitte Bardot. Tendo em vista que os índices das classes econômicas que a compõem, mostram um quadro bem diferente dos sonhos dos convidados daquelas noites de verão, em que socialites e políticos locais; embriagados pela grana fácil e o poder político que acabavam de conquistar; deliravam dizendo: "Aqui é igual a Saint-Tropez". Mas, a realidade de hoje em Búzios é que, os 52 domicílios da Classe A1 - de famílias com renda superior a R$ 14.400,00 é, por ironia, o mesmo número dos domicílios da Classe E, de famílias com renda de até R$ 400,00 (Quatrocentos reais/mês):

Classes Econômicas e Domicílios Urbanos em Búzios
Classe A1: 52 domicílios - Classe A2: 359 domicílios -
Classe B1: 1.049 domicílios - Classe B2: 2.238 domicílios -
Classe C1: 2.674 domicílios - Classe C2 1.772 domicílios -
Classe D: 1.163 domicílios - Classe E: 51 domicílios
Total: 9.358 Domicílios Urbanos
Classes Econômicas: Renda Média Mensal Familiar em R$
Classe A1 = 14.400,00
Classe A2 = 8.100,00
Classe B1 = 4.600,00
Classe B2 = 2.300,00
Classe C1 = 1.400,00
Classe C2 = 950,00
Classe D = 600,00
Classe E = 400,00

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