BBB 21 - Os pretos na casa grande mais vigiada do Brasil

Ninguém entra numa disputa dessas pensando no simbolismo identitário de sua possível conquista. Até porque, boa parte da audiência da atração não permitiria tanta ideologia na sua sala de estar

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Mesmo não assistindo ao tal do B.B.B, as redes sociais me lembram a todo momento que aquela máquina de moer dignidade humana ainda existe. E o que mais se comenta nesta edição, é com relação ao número de pretos que participam do reality. Os otimistas, cujas mentes ainda estão confinadas dentro de um sistema oportunista, chamam isso de representatividade. Há quem classifique ainda como o início de uma reparação histórica. Tá bom então!

Os realistas, cujo conhecimento da causa não permite tergiversações na pauta a fins de entretenimento, já sacaram que a jogada é explorar a onda antirracista e desgastar de forma lúdica, a imagem da negritude através de seus “representantes” na casa. Como? Banalizando situações de racismo e tirando a credibilidade do movimento. Pode ser que eles estejam caindo numa armadilha da produção. Mas pode ser também, que estejam seguindo a um script pré estabelecido.

É preciso entender que não é a quantidade de pretos presentes no BBB, que vai mudar a estrutura racista a qual estamos submetidos. Principalmente, se esses irmãos pretos estiverem disputando um prêmio de um milhão e meio de reais e não estiverem movidos pelos interesses da coletividade. Ninguém entra numa disputa dessas pensando no simbolismo identitário de sua possível conquista. Até porque, boa parte da audiência da atração não permitiria tanta ideologia na sua sala de estar. E é ela, segundo as regras oficiais do programa, quem define o vencedor.

Uma prova disso, é que os pretos da casa já caíram em desgraça com boa parte dos telespectadores, quando Nego Di ganhou a prova do líder e convidou todos os outros pretos  para o seu camarote Vip. Reservando apenas uma vaga na cota, para uma participante branca. A gritaria da branquitude que acredita em racismo reverso, pôde ser ouvida desde de Portugal. Se fosse ao contrário, disseram eles, haveria choro e ranger de dentes do outro lado. Como se esse “ao contrário”, não fosse o padrão de racialização que estabeleceu-se aqui desde a colonização.

O desgaste da luta antirracista não poderia ter sido melhor elaborado. Quem teve a ideia de expor a negritude em rede nacional, sob a égide da promoção da igualdade e da oportunidade, foi um gênio. Para escrever este artigo, tive que assistir a alguns episódios do reality e observei uma situação desesperadora a qual o participante Lucas Penteado está sendo submetido dentro da casa. O cancelamento imposto a ele, foi organizado por Karol Conka, a representante da “reservadinha” Curitiba, que destilou todo o seu preconceito regional sobre Juliette, uma participante da Paraíba.

A atitude de Karol contra Lucas, e que contou com a adesão de outros pretos da casa, nos faz pensar que nem todos os pretos são aliados e nem todos os brancos são nossos inimigos. Confesso-lhes que, para mim, ter que escrever sobre o BBB é algo muito pouco produtivo. Prometo que nunca mais o farei. Porém, ao perceber a maldade embutida no roteiro do programa, não consegui deixar passar. Precisamos escurecer algumas coisas sobre representatividade, e não devemos tomar um programa tão inútil e alienador, onde a manipulação da percepção do espectador estabelece os parâmetros de julgamento, como referência.

O mesmo Lucas Penteado, que vem escanteado pelos demais, propôs (ou foi sugestionado pela produção) ao líder que os pretos combinassem os votos para eliminar todos os brancos da casa. Sugerindo a leitura de que os pretos alcançando a representatividade que tanto lutam para conseguir na sociedade, iriam promover exclusão e separação racial. Tão real e espontâneo quanto o comportamento de alguns integrantes da atração. A propósito, Lucas parece não estar bem adaptado à casa. Pode ser que esse seja o papel de seu personagem. Suas atitudes já provocaram indignação em quase todos os outros participantes.

Ele também tentou conduzir uma suposta situação de racismo, porque uma participante branca, Kerline, não quis ficar com ele na festa. Pura banalização do racismo, numa situação em que ele não se configurou. Quem ganha com isso? Ou melhor, quem pode perder com isso? Queimar o filme de preto é muito fácil, em se tratando de uma sociedade cordialmente racista. A tática de oferecer-nos oportunidades contra a vontade e sabotar a nossa progressão, apenas para dizer que não estávamos aptos a recebe-las, é muito mais comum do que se imagina.

Embora o B.B.B não sirva como exemplo de mudança estrutural, mesmo alguns militantes crendo nisto, é bom ficarmos atentos às verdadeiras intenções por trás da presença de tantos pretos na casa grande mais vigiada do Brasil. Quando eles não te barram na entrada, te acusam de ter feito alguma coisa errada na saída.

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