BBB transforma a degradação humana em lucro
Produto transforma sofrimento em ativo comercial altamente lucrativo
Aprendi a desconfiar de tudo aquilo que precisa do sofrimento alheio para se sustentar. Não foi uma lição acadêmica. Veio da observação paciente, do jornalismo praticado sem anestesia. Por isso, não consigo mais assistir ao Big Brother Brasil como quem acompanha um programa de televisão. O que se oferece ali não é apenas narrativa. É um ambiente projetado para tensionar pessoas até o limite, extrair reações extremas e converter tudo isso em valor comercial.
Essa percepção não nasceu agora. Em 2006, quando escrevia semanalmente para o Observatório da Imprensa, sob a liderança rigorosa e lúcida de Alberto Dines (1932–2018), já dedicava análises críticas a realities como Big Brother, No Limite e formatos derivados da Endemol. Naquele momento, há vinte anos, eu já apontava — sem suavizar palavras — que esse modelo não apenas registrava comportamentos, mas criava condições artificiais para que o pior emergisse com previsibilidade inquietante.
O BBB 26 apenas confirma, com mais nitidez, aquilo que o formato vem aperfeiçoando. Não se trata de observar conflitos espontâneos. Trata-se de organizá-los. E digo isso não como espectador ocasional, mas como alguém que acompanha criticamente esse tipo de produto há décadas. O programa estrutura um espaço onde degradar, humilhar, constranger, mentir, caluniar, manipular, ferir e rebaixar tornam-se estratégias operacionais. Quem entra aceita “topar tudo por dinheiro”. E esse tudo inclui transformar a própria integridade em moeda de troca — algo que, confesso, sempre me causou desconforto ético crescente a cada nova edição.
Foi nesse contexto que o Ministério Público Federal decidiu agir. E, ao ler o teor da iniciativa, não tive a sensação de surpresa — tive a sensação de atraso. Em março de 2026, a Procuradoria da República no Rio de Janeiro instaurou inquérito civil para investigar possíveis práticas de tortura e tratamento degradante no BBB 26. A iniciativa foi conduzida pelo procurador regional adjunto dos Direitos do Cidadão, Julio Araujo. O documento menciona episódios concretos: provas físicas prolongadas, uso de dinâmicas de confinamento extremo, restrições a necessidades básicas e situações que colocam em risco a saúde dos participantes. Ao longo da minha trajetória no jornalismo, aprendi que, quando o Estado entra em cena nesses termos, não é por excesso — é porque algo já ultrapassou limites que vinham sendo tolerados.
O eixo jurídico é inequívoco. Direitos fundamentais não podem ser relativizados por contrato. Nenhum participante pode legitimar, por consentimento, práticas que comprometam sua dignidade ou integridade física e psíquica. A intervenção do MPF não é moralista. É constitucional.
Esse debate ganha profundidade quando observado à luz de estudos internacionais. Sempre procurei, como jornalista, fugir de análises provincianas e, por isso, recorro a quem vem estudando esse fenômeno há mais tempo e com maior distância crítica. O sociólogo polonês Zygmunt Bauman (1925–2017), ao analisar a modernidade líquida, já advertia sobre a transformação das relações humanas em objetos descartáveis e consumíveis. Reality shows, nesse contexto, funcionam como vitrines dessa lógica: vidas editadas, conflitos embalados, pessoas convertidas em conteúdo transitório — algo que, ao longo dos anos, fui percebendo com crescente nitidez ao observar a repetição quase mecânica desses padrões.
A psicóloga e pesquisadora britânica Su Holmes demonstra que esses programas não apenas refletem comportamentos sociais, mas ajudam a moldá-los ao normalizar práticas de exposição, julgamento público e vigilância contínua. O participante não é apenas observado — é performado, editado e reinterpretado em ciclos constantes de validação e rejeição.
Nos Estados Unidos, o professor Mark Andrejevic, autor de Reality TV: The Work of Being Watched, analisa como a lógica da vigilância total transforma indivíduos em produtores involuntários de conteúdo. Segundo ele, o confinamento sob observação permanente altera comportamentos, induz performances e cria um ambiente onde autenticidade e encenação se confundem.
Essa perspectiva ajuda a entender por que o problema do BBB não se limita ao comportamento dos participantes. O formato exige fricção constante. Precisa de tensão, desgaste, exposição. Não observa o conflito: estrutura o conflito. E, ao fazê-lo, desloca o jogo para um território onde a capacidade de suportar pressão passa a ser mais relevante do que qualquer outra habilidade.
Outro ponto crítico está no impacto psicológico. Estudos internacionais sobre confinamento e exposição midiática indicam aumento de ansiedade, distorções de percepção, crises de identidade e dificuldades de reintegração social após experiências intensas de vigilância e julgamento público. Não se trata de casos isolados. Trata-se de efeitos consistentes, já documentados em diferentes contextos de reality television.
Mas o fenômeno não termina dentro da casa. Ele se estende para quem assiste — e aqui permito-me ser ainda mais direto. Sempre me incomodou perceber que quem assiste não está apenas assistindo — está julgando, condenando e participando do processo. Reality shows criam um ambiente de voyeurismo moral em que a vida privada se torna objeto de escrutínio coletivo. O espectador não apenas observa — ele exerce poder simbólico. E, ao fazer isso, também se transforma. Talvez seja essa a dimensão mais silenciosa — e mais perturbadora — de todo esse processo.
Após 26 anos de exibição contínua, o impacto acumulado desse modelo ainda carece de estudos abrangentes no Brasil. Uma geração inteira, nascida a partir de 2001, cresceu sob essa lógica. Aprendeu, de forma indireta, que exposição total é moeda legítima, que conflitos são entretenimento e que a reputação pode ser construída e destruída em tempo real diante de uma audiência massiva. Ainda precisamos investigar com profundidade o que isso produziu — e continua produzindo — em termos de formação emocional e ética.
Há ainda uma dimensão frequentemente ignorada — e convenientemente silenciada: o papel das marcas. Grandes patrocinadoras seguem investindo cifras milionárias no programa. Não se trata de associação neutra, nem de mera estratégia de visibilidade. Trata-se de financiamento direto de um formato que depende, de maneira crescente, da exposição do constrangimento, da hostilidade e da degradação como motores de engajamento. Cada cota adquirida não apenas sustenta o programa — legitima sua lógica.
Essas empresas sabem exatamente onde estão colocando suas marcas. Dispõem de departamentos inteiros dedicados à análise de risco reputacional, monitoramento de percepção pública e responsabilidade social. Ainda assim, escolhem permanecer. Não por ingenuidade, mas por cálculo. Isso exige uma pergunta frontal, sem concessões: qual é o limite ético do lucro? Em que momento o ganho financeiro deixa de justificar a associação a um ambiente que transforma desgaste humano em ativo comercial?
O mérito da atuação do Ministério Público Federal está em interromper essa naturalização. Não se trata de censura, nem de moralismo. Trata-se de restabelecer fronteiras que jamais deveriam ter sido flexibilizadas.
Água, alimentação, descanso e dignidade não são elementos de roteiro. Não podem ser convertidos em dispositivos dramáticos.
Quando a privação vira conteúdo recorrente, quando a humilhação se consolida como linguagem e quando tudo isso é amplificado por audiência e patrocinadores, o que entra em colapso não é apenas um programa. É a própria credibilidade do nosso pacto social.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.
